Comentando a Notícia
Na reportagem que segue abaixo, do jornal O Globo, é possível perceber que a situação da saúde pública já virou caso de polícia. É de se esperar que tendo o país uma presidente do sexo feminino, medidas sejam tomadas com extrema urgência no campo do amparo à saúde da mulher. Isto é um dado.
O outro, é que temos aí a fotografia exata do que vem a ser o Poder Público brasileiro, quando se trata de retornar à população, em serviços minimamente dignos, o montante que ele arrecada na forma de impostos e taxas.
Vejam lá no alto, a reportagem da revista IstoÉ sobre o que vem se tornando os tais programa sociais do governo petista. Mais e mais crianças e jovens se tornam chefes de famílias, provedores do sustento de suas casas, quando deveriam é estarem na escola para prepararem e encaminhar um futuro para si mesmos.
Assim, a partir daí é que impossível não nos indignarmos quando TODA a classe política se concede aumentos abusivos de vencimentos em troca de coisa alguma, enquanto que a sociedade que sustenta este bando de vagabundos e vigaristas, se vê privada do essencial.
A estatística da reportagem é vergonhosa: mamógrafos até tem de sobra, mas apenas 12% das mulheres conseguem ter acesso a eles para exame. E isto a gente vê por todo o canto. É infindável o volume de recursos públicos jogados no lixo e que representa o muito de desperdício estatal. É impressionante o descaso com a população mais pobre, e isto a partir de um governo que diz priorizar o social. Contudo, entre o discurso e a prática, a diferença é colossal. Não aceito que juiz ou deputado federal recebam 27 ou 30 mil reais por mês, num país com a desigualdade que temos, com as carências mais comezinhas que sua população suporta, e da qual o Estado estupra 40% do que consegue ganhar com trabalho honesto.
De alguma forma que no momento não me ocorre, o país precisa rever esta situação. Não é possível condescender que tanto descaso, e tanta improbidade permaneça infernizando a vida dos cidadãos do país.
Não se justifica o custo que precisamos carregar e suportar para manter este paquiderme inútil e sem serventia. Democracia tem custo sim, mas no Brasil este custo já não é mais abusivo: é assalto mesmo, é exploração, é agiotagem, é exploração da mais ordinária.
Para exemplificar a incompetência da saúde pública, a reportagem cita casos como no Amazonas, Pernambuco e Rio de Janeiro. Em Pernambuco, 17% dos aparelhos de mamografia estão quebrados, enquanto no Amazonas, 95% das cidades não têm mamógrafo. Mas prefiro destacar o Rio de Janeiro, governado por falastrões há muito anos, mas que no campo da saúde pública, tem sido de uma constante incompetência e abusivo descaso que levou todo o sistema a falência. Se poderia desculpar Amazonas e Pernambuco por estarem situadas nas regiões mais pobres do país. Mas qual a desculpa poderia o Rio de Janeiro apresentar como minimamente razoável ? Convenhamos, em termos de serviços públicos, e não são apenas os da área da saúde, o povo brasileiro está largado à própria sorte, e tanto é assim, que o Ministério irresponsável até que poderia mudar o nome para Ministério da Doença com um programa pioneiro de Aceleração da Morte.
As duas reportagens abaixo são jornal O Globo, com texto de Fábio Fabrini, para a primeira, e de Carolina Benevides e Karine Rodrigues, a segunda.
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Brasil tem mamógrafos de sobra, mas só 12% das mulheres conseguem fazer exame para diagnosticar câncer de mama
BRASÍLIA - A estratégia do Ministério da Saúde para prevenir o câncer de mama, tipo de neoplasia que mais mata entre as mulheres, fracassa no Brasil, apesar da estrutura abundante para diagnosticar a doença. O Sistema Único de Saúde (SUS) tem hoje quase o dobro do número de mamógrafos necessário para detecção precoce de tumores. Mas só consegue atender 12% das mulheres entre 40 e 70 anos, faixa de idade na qual a mamografia é recomendada. A situação é resultado da concentração dos aparelhos em algumas áreas do país, em detrimento de outras, além da baixa produtividade e da inoperância de boa parte do aparato disponível.
Para cumprir o critério de um mamógrafo para cada grupo de 240 mil habitantes (homens e mulheres), definido em portaria do próprio ministério com base em parâmetro do Instituto Nacional do Câncer (Inca), seriam necessários 795 equipamentos na saúde pública. Uma auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus) identificou 1.514 na rede. Apesar da constatação, o SUS examinou, no ano passado, 3,4 milhões de mulheres. No país, são 28,5 milhões com idades entre 40 e 70 anos. Para elas, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) indica a realização do teste anualmente. O governo usa outro parâmetro - testes a cada dois anos, entre 50 e 69 anos - mas, mesmo assim, está longe de atingir a população dessa faixa (15,7 milhões).
Desigualdades regionais
Posta no mapa, a distribuição dos mamógrafos reproduz as desigualdades regionais. Sozinho, o Sudeste, região mais rica e populosa, tem hoje mais aparelhos (669) que Norte, Nordeste e Centro-Oeste juntos (558). Uma disparidade que também se verifica em termos proporcionais. Estados como Minas, Rio Grande do Sul e Santa Catarina chegam a ter o dobro ou o triplo de aparelhos por cem mil habitantes que Rondônia, Maranhão, Ceará, Paraíba, Pará, Acre, Amapá e Roraima. Nos três últimos, apesar do extenso território, todos os mamógrafos ficam na capital. Maior estado do país, com imensas dificuldades de deslocamento, o Amazonas tem 83% da estrutura de diagnóstico concentrados em Manaus.
- Não precisamos de mais aparelhos, precisamos pulverizá-los e usá-los - resume o presidente da SBM, Carlos Alberto Ruiz, citando um outro mal nacional: a improdutividade dos equipamentos.
Dos 1.514 mamógrafos do SUS, 15% estão parados, em alguns casos com defeito ou guardados na caixa. Os demais não produzem a quantidade de exames que poderiam. Conforme a auditoria, quase um quinto fica ociosa no período da tarde. A atividade é prejudicada pela falta de manutenção, profissionais para operar as máquinas e insumos básicos, além de problemas na infraestrutura do local do exame. Nada menos que 150 aparelhos funcionavam sem a presença de um radiologista e 89 não tinham técnico em radiologia. O número dos que não passavam pela manutenção adequada chegava a 343.
As deficiências na estrutura para diagnosticar o câncer de mama se somam à desinformação. E contribuem para a piora da situação no país. Tanto a incidência da doença quanto a mortalidade vêm crescendo no país, que registra 49 mil novos casos por ano. Segundo o Inca, entre 1998 e 2008, as mortes passaram de 8.050 para 11.945.
- Nos países desenvolvidos, há bons sistemas de rastreamento para diagnóstico precoce. Aqui, entre 20% e 50% dos tumores detectados no SUS, conforme o estado, são avançados - lamenta Ruiz.
O Ministério da Saúde reconhece que faltou planejamento na estruturação do serviço, mas assegura que, a partir de agora, buscará cobrir os "vazios de assistência". O secretário nacional de Atenção à Saúde, Helvécio Magalhães, diz que, com a publicação, na última quarta-feira, de de$da presidente Dilma Rousseff que estabelece novos mecanismos de controle e de gestão para o SUS, será possível mapear os serviços disponíveis no país, identificando carências área por área.
- Há um problema histórico de alocação dos equipamentos. Por isso, o nosso esforço agora é termos um padrão claro para todas as regiões de saúde do país. Só vamos alocar os serviços novos (de mamografia) onde houver necessidade - promete.
Helvécio diz que, além de credenciar centros de diagnóstico em locais com baixa assistência, o governo também vai montar estruturas em hospitais universitários, públicos e filantrópicos, além de cons$unidades de atendimento. Outra iniciativa é criar postos itinerantes (barcos ou ônibus), que cheguem em áreas remotas do país.
O secretário alega que os problemas que prejudicam o funcionamento dos mamógrafos, entre eles a falta de manutenção e insumos, não são generalizados. E que, como a pasta contrata o serviço aos prestadores, é deles a responsabilidade sobre a operação dos equipamentos.
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Rio tem maior mortalidade por câncer de mama, e detecção precoce é falha
RIO - Há pelo menos duas décadas, o Estado do Rio lidera a taxa de mortalidade por câncer de mama no país. De acordo com os dados do Atlas da Mortalidade, entre 1998 e 2008, foram registradas 19,28 mortes por 100 mil mulheres. Mas apesar de a detecção precoce ser importante - pode reduzir em 30% o número de novos casos e em até 40% a mortalidade, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca) -, ainda é comum encontrar mulheres que são obrigadas a aguardar meses para conseguir fazer uma mamografia.
No Estado do Rio, segundo estimativas do Inca, devem surgir este ano 7.410 casos novos de câncer de mama, sendo que mais da metade - 4.010 - na capital. O instituto recomenda que mulheres com lesões suspeitas ou nódulos palpáveis recebam o diagnóstico em, no máximo, 60 dias, e diz que atrasos no tratamento, entre 3 e 6 meses, comprometem a sobrevida das pacientes.
- O parâmetro é esse, mas quanto antes melhor. O ideal é que seja conseguido até em tempo menor - diz Luiz Antônio Santini, diretor-geral do Inca, que explica que o prazo de 60 dias é baseado em experiência do sistema inglês de saúde.
No entanto, em 2010, quase 20% das brasileiras com anormalidades sugestivas de câncer de mama, atendidas em unidades do SUS ou conveniadas, aguardaram mais de dois meses entre o dia em que a mamografia foi requisitada pelo médico e a realização do exame. A constatação é baseada no Sistema de Informações sobre o Câncer de Mama (Sismama), criado em junho de 2009, por Inca, Ministério da Saúde e DataSUS, e que ainda está sendo aprimorado.
No Brasil, nódulos são descobertos mais tardiamente
No Hospital Municipal da Piedade, na Zona Norte, o mamógrafo está quebrado há oito meses. Chefe do setor de ginecologia, Roberto Carvalhosa, médico há 32 anos, lamenta não fazer mais diagnósticos precoces, e lembra que o aparelho realizava entre 30 e 40 exames por dia.
- O mamógrafo quebrado impede que a gente veja as lesões precoces e que opere antes que seja preciso fazer uma mastectomia (retirada completa da mama) - diz Roberto. - É um dissabor ver uma paciente ter seu prognóstico mudado porque não fez o exame, porque esperou demais.
Sem poder aguardar mais, Maria Sebastiana Correia, de 69 anos, que em abril esteve na unidade e descobriu "alguns caroços no seio", fez o exame semana passada numa clínica particular e pagou R$ 78.
- Minha mãe ganha um salário, eu estou desempregada, mas a gente viu que ou pagava ou ficaria sem o exame. Os médicos aqui fazem o que podem, mas a gente nem tinha previsão de conseguir na rede pública. O tempo passa e a doença piora, né? - diz Rosane Carneiro, de 49 anos, filha de Maria Sebastiana.
Na fila há dois meses, Vilma Maria Gomes, de 52 anos, já operou um nódulo e não vê a hora de realizar o procedimento:
- É uma agonia ficar esperando e não ter prazo.
Esperar também é a rotina de Jussara Pereira, de 47 anos:
- Eu me trato há anos nesse hospital, e este ano está demorando. A gente só fica tranquila quando faz, quando sabe que o médico vai ver.
- O governo federal fala sobre a importância de ter um diagnóstico precoce, mas estamos há quase um ano sem o aparelho - diz Guilherme Machado, chefe da Residência em Ginecologia no Hospital Piedade, que é hospital-escola. - Éramos um polo de mama e hoje o movimento já diminuiu.
Em nota, a Secretaria municipal de Saúde disse que: "Em caso de suspeitas, a paciente faz exames, marcados pela sua própria unidade pelo Sistema de Regulação. Quando há suspeita de câncer de mama, a mamografia de diagnóstico, feita nas unidades conveniadas, leva, em média, cerca de 10 dias para ter seu resultado pronto. O agendamento das pacientes com diagnóstico de câncer é feito pelo Sistema de Regulação, e o intervalo atualmente está em torno de 7 a 10 dias". Sobre o mamógrafo sem uso no Hospital da Piedade, explicou que "aconteceu o furto das ampolas do equipamento. A SMSDC encomendou junto ao fabricante novas ampolas, porém, por tratar-se de peças comercializadas fora do país, aguardam trâmite de importação".
Segundo a Lei 11.664, de 2008, todas as mulheres acima de 40 anos têm o direito à mamografia gratuita. Na faixa etária entre 50 e 69 anos, a mulher deve fazer o exame a cada dois anos. Cumprir essa recomendação não tem sido fácil para Maria Oliveira, de 62 anos. Como ocorreu em 2009, ela está amargando uma longa espera. Moradora do Catete, na Zona Sul, ela procurou um posto de saúde em abril. Conseguiu marcar para 18 de julho, no Cachambi, na Zona Norte.
- É sempre uma demora. Em 2009, fui encaminhada para a Tijuca. Agora, além de esperar, vou ter que ir para bem longe - conta Maria, que na última quinta-feira aguardava para fazer uma ultrassonografia no Hospital Municipal Rocha Maia, em Botafogo.
- Entra ano, sai ano, é a mesma coisa: entra na fila para fazer a triagem, perde o dia de trabalho, consegue um pedido para daqui a não sei quanto tempo e fica nisso. É desmotivante. Não faço mais - diz Paula, da faixa etária de risco.
Quando, por dificuldades no atendimento público, a paciente desiste de fazer a investigação da mama, ela fica mais exposta ao risco de não descobrir o tumor em uma fase inicial. No Brasil, segundo o Inca, os nódulos malignos costumam ser descobertos mais tardiamente. Mas quanto mais cedo forem detectados, maiores as chances de cura e menor a necessidade de intervenção.
De acordo com auditoria realizada pelo Ministério da Saúde, a quantidade de mamógrafos é maior do que a necessária. Para Santini, a demora pode ter muitas razões:
- Pode demorar por falta de organização do sistema e falta de informação adequada para as pessoas em relação a quem deve fazer a mamografia e em que momento.