domingo, julho 03, 2011

Itamar Franco e os 17 anos do Plano Real

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com

Morreu o ex presidente Itamar Franco, e deixou um grande legado a todos nós brasileiros: a estabilidade monetária como valor social indiscutível.

Foi no seu governo, há 17 anos atrás, que o Plano Real trouxe de volta à sociedade o valor e a importância da estabilidade monetária, abrindo o caminho para o crescimento econômico que vivemos hoje. O Plano Real também foi o primeiro e imprescindível passo para termos o desenvolvimento social dos últimos anos. Sem ele o mito Lula não existiria, pois ele e seu partido, o PT, não teriam nunca conseguido sucesso no combate à inflação que dominou a economia brasileira por tantos anos. E não conseguiria por não acreditar em instrumentos como o equilíbrio fiscal e a importância da ação independente do Banco Central para operar um sistema de metas de inflação. E sem a estabilidade estaríamos ainda no vai e vem de curtos período de crescimento e longos de aceleração da inflação.

Todos sabemos que o Plano Real nasceu de uma leitura correta que o presidente Fernando Henrique Cardoso teve da reação da população brasileira durante o curto espaço de tempo de sucesso de um outro plano oficial de estabilização monetária: o chamado Plano Cruzado. Foram nos poucos meses de euforia que se seguiram à criação de uma nova moeda no Brasil – o cruzado – no segundo ano do governo Sarney que FHC convenceu-se da intensidade da demanda popular por uma moeda nacional confiável e estável. Fez uma leitura política correta da reação dos brasileiros – principalmente os mais humildes - mas foi obrigado, pelos fatos que se seguiram, a guardá-la para si por um longo tempo.

FHC sabia que não se enterra de forma definitiva os anseios legítimos de uma sociedade democrática, mesmo com os seguidos fracassos que tivemos no enfrentamento deste problema. Ele tinha convicção de que as demandas por estabilidade continuariam presentes na sociedade à espera de um momento em que esta questão pudesse ser novamente tratada no cenário político do Brasil. E já tinha se convencido de que os brasileiros estavam preparados para sacrifícios importantes para ter em troca uma moeda estável e preservação do poder de compra de seus salários e rendas.

Muita água – e inflação – passaram pela ponte da vida brasileira até que esta chance se apresentasse ao então senador da Republica por São Paulo. E ela veio quando Itamar Franco assumiu a presidência da República, em seguida à renuncia do então presidente Collor. E mesmo assim FHC teve que esperar muitos meses, preservado dos desgastes que a inflação gerava nos seguidos ministros da Fazenda de Itamar no tranquilo e sem sal ministério das Relações Exteriores, para poder agir.

FHC sabia que o mesmo grupo de economistas que havia participado da fracassada tentativa do Cruzado trabalhavam em uma nova versão do plano de estabilização da moeda nacional. Mas com paciência – e certamente muita expectativa – esperava que os acontecimentos políticos permitissem que ele pudesse chama-los e colocar em pratica o que há muito tempo planejavam em silencio.

E este momento chegou quando Itamar Franco, pressionado por um processo inflacionário novamente em fase quase terminal e que ameaçava a estabilidade de seu governo, resolveu entregar ao sociólogo Fernando Henrique o comando da economia. Talvez o presidente Itamar não tivesse uma visão clara do que seria o plano de ação de FHC, mas certamente intuía que a experiência e a habilidade como político de FHC seriam mais valiosas do que os simples conhecimentos de teoria econômica. Sabia ele que antes de ser uma questão técnica, a inflação no Brasil havia se transformado em uma questão política. Este mérito do presidente Itamar é inquestionável e, por ele, deve ter nosso respeito e reconhecimento. Principalmente agora quando da sua morte.