Claudio Carneiro, Opinião & Notícia
Como livros representam quase 80% dos gastos, é comum que pais de alunos em escolas públicas e particulares gastem praticamente o mesmo com a compra do material.
(Reprodução/Internet)
Brasil é dos poucos países onde livro didático
não é transferido de aluno para aluno
Gastar dinheiro com material escolar é uma rotina dos pais no início do ano. Mas alguns fatos ocorridos nestes dias que ainda antecedem o início das aulas em algumas escolas não deixaram de ser notícia – ou por outra – um escândalo que não deve ser repetido no próximo ano. Listas que incluem diversos rolos de papel higiênico, guardanapos e clipes de metal embutem itens a serem usados – e comprados – pelo administrativo das escolas e não por seu corpo de alunos. Algumas instituições passarão o ano usufruindo da economia de gastos desviados para a outra ponta da cadeia de consumo. Outros colégios impuseram a seus alunos a compra de tablets como material escolar – fato que acontece no mesmo pedaço de terra onde crianças andam quilômetros a pés descalços para aprender os primeiros números e letras com uma professora semialfabetizada.
O Brasil é dos poucos países onde o livro didático não é transferido de aluno para aluno – de um ano para outro. A indústria do livro didático tem garras e olhos do tamanho da barriga. As edições são alteradas a cada ano para tornar a venda necessária. Não se altera o conteúdo – a não ser uma inversão aqui ou ali. Mas é comum que a mesmíssima lição esteja em diferentes páginas – de um ano para outro – causando transtorno e constrangimento aos alunos e professores. São truques pequenos mas de grande efeito. Mais preocupado com o Enem e com a evolução política de seus titulares – como o ex-ministro Fernando Haddad, de triste passagem na pasta – o Ministério da Educação ainda não tratou desta questão como deveria.
Como os livros representam quase 80% dos gastos, é comum que pais de alunos em escolas públicas e particulares gastem praticamente o mesmo com a compra do material de seus filhos. A manicure carioca Daiana Urias parcelou em três vezes R$ 700 – já com dez por cento de desconto – na compra de material escolar e livros para o filho de sete anos. “Seria interessante poder aproveitar os livros da turma do ano anterior”, disse a Opinião e Notícia.
O material escolar ganha novos itens. O Colégio Antonio Vieira – de Salvador – incluiu um tablet entre o material didático necessário. E mais, seu material didático só é identificado neste tipo de equipamento. Resultado: a escola está sendo “sabatinada” pelo Procon por venda casada e, se for autuada, responderá a processo administrativo e receber multa entre R$ 215 e R$ 3 milhões. No Sigma, em Brasília, 1.200 pais de alunos do primeiro ano de ensino médio tiveram de desembolsar R$ 2.000 pelos computadores portáteis e outros R$ 1.200 em programas que substituem os livros. Somando e multiplicando estes números chegamos a uma fortuna: R$ 3,84 milhões. Isso sem falar na mensalidade de cerca de R$ 1 mil.
A imposição do tablet
Em alguns casos, os próprios colégios vendem estes equipamentos portáteis, na medida em que especificam marca e modelo, além de oferecer o produto a preço mais em conta e em prestações. Os órgãos de defesa do consumidor alertam que é direito dos pais serem avisados sobre itens como este antes do ato da matrícula, como alerta o Procon, da capital federal em relação ao Sigma.
Em 2011, a Universidade Estácio de Sá anunciou que seus 261 mil alunos espalhados por 36 cidades em 17 estados brasileiros receberiam tablets da marca Semp Toshiba gratuitamente num prazo entre três e cinco anos. Com a compra em grande quantidade, cada aparelho custaria para a instituição em torno de US$ 400. A iniciativa traria ganhos ambientais e financeiros – uma economia de 214 milhões de folhas de papel. Em caso de perda, o aluno deveria ressarcir o valor do preço de custo. Logo de início, alguns alunos reclamaram que a metade das engenhocas apresentava defeitos operacionais. Tudo indica que a universidade vai rever o projeto.
Não resta dúvida que os tablets são uma inovação importante para o aprendizado. Assim é que o Governo Federal anunciou o investimento de R$ 180 milhões para a compra de 600 mil tablets para professores de ensino médio de escolas públicas. Sabe-se que muitos deles vão estranhar a geringonça. Mas ainda não há previsão da ferramenta nas mãos dos estudantes.
