Adelson Elias Vasconcellos
Você já deve ter escutado a expressão "lágrimas de crocodilo" em referência a alguém que chora, indicando que o choro é fingido, falso ou hipócrita. Mas por que se diz isso? Será que os crocodilos choram, mesmo?
De acordo com o professor Ari Riboldi, em seu livro "O Bode Expiatório", a origem da expressão é biológica. Mas não tem a ver com fingimento.
Quando o crocodilo está digerindo um animal, a passagem deste pode pressionar com força o céu da boca do réptil, o que comprime suas glândulas lacrimais. Assim, enquanto ele devora a vítima, caem lágrimas de seus olhos.
São lágrimas naturais mas obviamente não significam que o animal se emocione ou sinta pena da sua presa. Daí vem a expressão "lágrimas de crocodilo", querendo dizer que, embora a pessoa chore, suas lágrimas não significam que ela esteja sofrendo, e muitas vezes são mesmo apenas um fingimento.
Claro, a poesia popular também consagrou a expressão, como nesses versos de João Carreiro e Capataz:
Não adianta chorar, não adianta pedir
Você pode implorar, eu não vou desistir
Lagrimas de crocodilo, veneno de serpente
Pra mim não tem valor o passado da gente.
Pois é, esta expressão me veio à mente no justo instante em que, assistindo a um noticioso na tevê, presenciei a presidente Dilma se debulhando pela saída do companheiro Luiz Sérgio, do Ministério da Pesca, para dar lugar ao bispo Marcelo Crivella.
Intransigência minha para com a presidente? Não, e justamente porque esta demissão, a segunda do mesmo ator, digo, do mesmo deputado em um ano, demonstra claramente que, primeiro, ele sequer deveria ter sido nomeado para cargo algum de qualquer ministério. Dois, na vida pública, as pessoas são muitas usadas apenas por conveniências de ocasião. Respeito profissional? Não, nenhum. Respeito ao cidadão que se dispõe a colaborar com seu trabalho?Nem um pouco. Por e dispor das pessoas é, para mim, abusar da confiança e demonstração inequívoca de total desconsideração.
Não seria pela demissão apenas a lembrança poética acima. E sim pela maneira descortês como ela se produziu: Luiz Sérgio estava em férias e soube de sua demissão por telefone. Não escondeu a revolta diante de funcionários graduados. Frente a presidente, fez um jogo de cena para se mostrar agradecido.
Portanto, toda aquele teatro mais parecia a emoção de se livrar de um colaborador inútil, do que de tristeza por vê-lo partir. Este povo acha que lágrimas comovem a plateia. Para quem conhece um pouco o íntimo desta gente, não dá para não lembrar da hipocrisia, por mais lírica que possa ser.