sábado, março 03, 2012

O visionário Mercadante

Adelson Elias Vasconcellos

Pois é, bem que a gente avisou: um dia, não muito distante, ainda teria gente com saudades de Haddad como ministro do MEC. Ou seja, a troca no comando da pasta significou, simplesmente, a troca do ruim pelo coisa pior. 

Chega a ser patética a solução que Mercadante encontrou para ajudar os estados e municípios a pagarem o novo piso ridículo do magistério que passou a ser de R$ 1.451,00. Ora, como são poucos os estados e municípios que podem com orgulho exibirem finanças saneadas, grande parte mal consegue honrar sua própria folha, a correção do piso em mais de 22% colocou-os todos numa ciranda maluca. Não por conta apenas deste aumento,mas por que o Congresso, essa madrasta da Nação, resolveu aumentar em 7.000 o número de vereadores já a partir das eleições deste ano. 

Assim, se o prezado eleitor tiver estômago para aguentar a propaganda eleitoral, já aviso: estão autorizados, desde já, a chamarem de mentirosos – além de negar o voto, é claro – para qualquer candidato que, cretinamente, prometer “redução de impostos”. Não vai reduzir e por um única razão: as despesas obrigatórias  vão aumentar.  Sim, por que mais 7.000 vereadores significam aumentar infinitamente o número de assessores, motoristas, secretários e secretárias, novos gabinetes, mais carros, mais combustível, mais material de expediente, telefones,  mobiliário além de todos aqueles penduricalhos que, se não acrescentam nenhum benefício para o país, serve para engordar os salários dos novos gigolôs.

Mas voltando a senhor Mercadante. Tão logo ele anunciou o novo piso, prefeitos de todo o país e alguns governadores meteram a boca no trombone.  Querendo jogar para plateia, Mercadante pensou com seus dois e meio neurônios que funcionam e descobriu a saída: o governo federal vai ajudar a cobrir o piso. E o recurso sairá da onde, ministro? Do pré-sal, 30%  dos recursos do pré-sal servirão para cobrir o reajuste.   Precisei reler uma dúzia de vezes para acreditar que o ministro falava sério.

“Precisamos fortalecer o repasse de recursos de educação para Estados e municípios, e o melhor caminho é o pré-sal. Se vincularmos pelo menos 30% dos recursos do pré-sal para educação, ciência e tecnologia, nós teremos como sustentar uma melhora significativa em todo o sistema educacional pelo menos por uma década”, defendeu Mercadante durante o programa Bom Dia, Ministro.

Pé-sal, é? Bem, não fosse o fato de que sequer o país tem a tecnologia desenvolvida para a extração do petróleo nas camadas do pré-sal, de que ainda se discute os tais royalties,  de que ter a tecnologia é preciso ver na pratica se ela funciona, tirar o bruto lá de baixo e transformá-lo em riqueza e tudo correndo bem, esta riqueza maravilhosa se transformará em dinheiro somente daqui uns dez anos, e o ministro, por certo, poderia ser considerado um gênio que resolveu, num toque de mágica, o problema do péssimo salário pago aos professores. E até lá, ministro, paga como?    

Pois é, não foi só este blogueiro quem desconfiou da solução mágica do ministro. Carlos Brickmann também. É dele o texto a seguir, sob o título “Sonhar, talvez pagar”. Segue abaixo.

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Sonhar, talvez pagar 

O ministro da Educação, Aloízio Mercadante, do PT paulista, descobriu a solução mágica para ajudar Estados e Municípios a pagar R$ 1.451,00 mensais aos professores (como, aliás, se este salário não fosse baixíssimo para a relevância da função que deveria remunerar): usar 30% dos recursos do pré-sal na Educação.

Maravilha! Quando forem superadas as dificuldades ainda existentes para produzir petróleo no pré-sal, quando as instalações estiverem concluídas - poços, tubulações, barcos, etc. - o petróleo será vendido e com parte dos lucros haverá ajuda a Estados e Municípios para que paguem os mega-salários de R$ 1.451,00 dos professores. Demora; mas, se os professores sobreviveram até agora ganhando menos do que isso, ficarão felizes em saber que um dia talvez recebam a fortuna mensal citada. Também, claro, entenderão que petróleo submarino, ainda mais no pré-sal, pode criar problemas, gerar atrasos, essas coisas. E explicarão tudo direitinho ao padeiro, ao açougueiro e ao cobrador de impostos.

Alô, Aloízio! Mercadante é professor e sabe que professores precisam ganhar bem, não apenas por eles, mas para que tenham condições de estudar, ensinar, educar. Mas talvez não saiba que R$ 1.451,00 mensais estão longe de ser um bom salário (cada senador, por exemplo, custa mais de R$ 100 mil mensais, e ninguém lhes pede que aguardem o pré-sal). Talvez não saiba que falta dinheiro para professores, mas não para nomear nos municípios, Estados, União. 

Enquanto a solução ficar para o futuro, o Brasil continuará sendo só o país do futuro.

Dúvida cruel 1
A Disney tem dois enormes parques nos Estados Unidos: Disneyland e Disneyworld. Há uma Disneyworld em Paris, outra em Tóquio. A Universal tem um grande parque temático em Orlando, EUA; ali por perto há o monumental Busch Gardens - que tem, também, parques de diversões espalhados pelo mundo. Alguém já ouviu falar de um acidente como o do Hopi Hari nesses parques? Não, os gringos não são melhores do que nós: é que lá a fiscalização existe.

Dúvida cruel 2
Qual o nome dos proprietários do Hopi Hari? Fala-se ora num fundo de investimentos, ora num grupo chamado Íntegra, mas informação precisa, nada. Quando automóveis da multinacional Mitsubishi apresentaram falhas acima do aceitável, o presidente da corporação deu entrevista assumindo a culpa. 

Será o Hopi Hari mais importante que a Mitsubishi, para que seus donos sejam tão discretos?

A semente da tragédia
Quer ver uma série inacreditável de declarações de boas intenções? Vá ao site do Hopi Hari -http://www.hopihari.com.br/institucional/default.aspx. Uma empresa que tem há dez anos a cadeira de um brinquedo perigoso com defeito, sem qualquer identificação, coloca em seus princípios algo como "Ética- o nosso compromisso é com a transparência, coerência e respeito ao indivíduo". 

Pode? Veja a Visão e os Valores do parque no sempre atento Blog da Marli Gonçalves, emhttp://marligo.wordpress.com.

Vale a pena ler - é muito descaramento.

O ídolo das minhocas
O novo ministro da Pesca, senador Marcelo Crivella, do PRB fluminense, já se definiu: não sabe nem botar uma minhoca no anzol. Também não sabe que pesca, como atividade econômica de porte, não se faz com vara, minhoca e anzol. Já a presidente Dilma Rousseff não se definiu. Sua escolha é estranha: 

1 - Crivella é evangélico, mas não conversa com todos os evangélicos (Silas Malafaia, cuja Assembleia de Deus - Vitória em Cristo tem crescido muito, e Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, que num culto interditou a Via Dutra- não se dão com Edir Macedo, da Universal, tio de Crivella);

2 - Crivella é do PRB, mas se o PRB obrigar seu candidato à Prefeitura paulistana, Celso Russomanno, a apoiar o petista Fernando Haddad, jogará Malafaia e Valdemiro do lado oposto da luta, com argumentos religiosos - como aborto, ou o kit gay que Haddad quis distribuir nas escolas. Russomanno, bem nas pesquisas, não parece feliz em ser usado como moeda de troca. Diz que não desiste.

3 - Se não é para conversar com evangélicos, nem obter alianças em São Paulo, nem tratar de temas como minhocas no anzol, por que Crivella na Pesca?

Maldade pura
Há quem diga que Dilma queria mesmo era se livrar de Luiz Sérgio, o ministro anterior. E, para isso, nomeou o primeiro político de que se lembrou.

Surra em Alckmin
O governador Geraldo Alckmin tomou uma surra brava onde o Palácio deveria ser invencível: seus dois candidatos ao Conselho da Fundação Padre Anchieta, que mantém a TV Cultura e é mantida pelo Governo, não alcançaram votos suficientes para se eleger. O presidente da Fundação, João Sayad, já foi ministro de Sarney, secretário de Marta Suplicy, do PT, e é ligado a José Serra. Os representantes do prefeito Kassab não apareceram para votar. Alckmin que se cuide.

Sem crise
Não se preocupe com a rebelião do PMDB contra Dilma. O partido está mesmo insatisfeito, mas nada que uma caneta e um Diário Oficial não resolvam.