segunda-feira, outubro 01, 2012

Venda de ouro na Venezuela é vista como sinal de falta de dólares


Janaína Figueiredo eJanaina Lage
O Globo

Banco Central vendeu quase 11 toneladas do metal em um ano

AP/27-9-2012
Boneco do presidente Hugo Chávez atravessa a rua em Caracas: 
em ano eleitoral, aumento de gastos públicos e 
de importações afetam a economia venezuelana

BUENOS AIRES E RIO — Um ano depois do desfile de caminhões blindados que marcou a chegada a Caracas do ouro repatriado pelo presidente Hugo Chávez, o país decidiu se desfazer de parte de suas “joias da coroa” pouco antes das eleições de 7 de outubro. Um relatório do FMI, divulgado pela Reuters, mostra que, neste ano, já foram vendidas 10,93 toneladas do metal. Deste total, somente em agosto foram 3,2 toneladas, equivalentes a cerca de 1% do estoque. A medida é considerada atípica num cenário de incerteza na economia global, em que a maior parte dos países opta por acumular reservas no lugar de vendê-las. Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a decisão do Banco Central da Venezuela (BCV) reflete a falta de liquidez. A venda de ouro, ainda que pontual, ressalta, segundo economistas, um quadro de aumento de gastos em ano eleitoral, gestão inadequada das receitas do petróleo, alta de importações e imperícia no manejo das reservas.

A venda foi confirmada por Ricardo Sanguino, presidente da Comissão de Finanças da Assembleia Nacional. Simpatizantes do governo dizem que a medida é uma ação normal e atribuem as críticas a uma “operação da oposição para prejudicar o governo na campanha”.

- Não houve perda para o país, não existe uma estratégia de venda de ouro - disse o ex-ministro de Finanças do governo Chávez e membro da diretoria do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), Rodrigo Cabezas.

Para outros economistas, no entanto, o gesto reforça que a própria decisão de repatriar o metal foi equivocada. Na prática, ela teria dificultado o acesso a crédito, segundo Efraín Velázquez, presidente do Conselho Nacional de Economia.

- Foi um sinal da inconsistência da política econômica. A maioria dos países mantém suas reservas em ouro no exterior. E a partir disso realiza operações de crédito em que o metal serve como garantia. Agora, tivemos que vender.

O presidente da consultoria Econométrica, Angel García Banchs, tem avaliação similar:

- Quando um Banco Central vende ouro, é como se começasse a vender as joias da coroa. Isso manda um mau sinal para os investidores.

Câmbio controlado
Segundo Banchs, as reservas internacionais do país somam US$ 25 bilhões. O economista calcula que, para operar com tranquilidade, a Venezuela necessitaria do triplo. O objetivo seria contar com uma espécie de colchão ou blindagem contra variações do preço do petróleo, que responde por 60% da entrada de divisas.

Para José Guerra, ex-chefe dos economistas do BCV, o governo não tinha outra alternativa diante da falta de liquidez. As 10,93 toneladas seriam equivalentes a US$ 750 milhões.

- Temos um déficit muito grande e o dinheiro do petróleo já não é suficiente - disse.

Mesmo com os preços do petróleo acima dos US$ 100 e com o maior volume de reservas confirmadas de petróleo no mundo, a estatal PDVSA produz abaixo da capacidade e o país registrou recentemente dois acidentes graves nas refinarias de Amuay e El Palito.

Velázquez destaca que, no ano da corrida eleitoral mais disputada desde que Chávez chegou ao poder, o governo aumentou não só o gasto público como as importações, que são controladas e subiram mais de 20% no último ano. Cerca de 80% dos produtos são importados, numa lista que inclui leite em pó e carne, vendidos a preços subsidiados em mercados populares. 

Desde 2003, o governo controla o câmbio, fixado em 4,3 bolívares. Com inflação em alta, os venezuelanos buscam preservar o poder de compra adquirindo dólares no mercado paralelo. Para eles, o preço não para de subir. Segundo o site Lechuga Verde já está acima de 12 bolívares.