sábado, junho 08, 2013

Bolsa cai de 2% após S&P mudar perspectiva da nota do Brasil; dólar sobe e vale R$ 2,13

João Sorima Neto, O Globo 
Com Agências Internacionais

Ações da Petrobras e Eletrobras que também tiveram perspectiva de nota rebaixada puxam o índice
No exterior, mercado reage positivamente aos dados do mercado de trabalho americano

SÃO PAULO - Um dia após a agência de classificação de risco Standard & Poor’s colocar em perspectiva negativa a nota de longo prazo do Brasil, a Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) tem queda expressiva. Por volta de 15h36, o Ibovespa, principal índice do pregão, se desvalorizava 2,49% aos 51.570 pontos e volume negociado de R$ 5,1 bilhões. As ações da Petrobras e da Eletrobras, que também foram colocadas em perspectiva negativa pela S&P estão entre as maiores quedas e puxam o índice índice.

Petrobras PN se desvaloriza 2,10% a R$ 19,06, enquanto as ações ON da Eletrobras caem 7,05% a R$ 5,01 e os papéis PNB perdem 6,11% a R$ 8,92. As ações do Banco do Brasil, cujo maior acionista é o governo, também respondem negativamente ao alerta da S&P. Os papéis ON do banco perdem 3,20% e valem R$ 23,61. Nem o desempenho positivo das principais Bolsas americanas, amparadas num número positivo do mercado de trabalho nos EUA, tem força para segurar a queda do Ibovespa.

As ações ON da Gafisa, que começaram o dia em alta, apresentam a maior queda do pregão. Os papéis ON recuavam 7,37% a R$ 3,77 depois que a empresa comunicou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) acordo para vender 70% de participação em sua unidade de loteamento urbano de alto padrão Alphaville para as companhias de investimentos Blackstone Real Estate e Pátria Investimentos.

Entre as blue chips do pregão, Vale PNA cai 1,45% a R$ 29,419; OGX Petróleo ON recua 6,61% a R$ 1,28; Itaú Unibanco PN recua 0,79% a R$ 31,19 e Bradesco PN tem queda de 0,93% a R$ 31,67.

Os investidores estrangeiros retiraram R$ 1,33 bilhão da Bovespa apenas na quarta-feira, 5 de junho, após o governo federal zerar a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para investimentos estrangeiros em renda fixa. Com isso, o saldo de recursos externos na Bovespa no acumulado de junho era negativo em R$ 1,97 bilhão de reais, enquanto o saldo no ano diminuiu a R$ 6,56 bilhões positivos.

O estrategista-chefe do banco WestLB, Luciano Rostagno, avalia que de certa forma a decisão da S&P já era esperada e não será surpresa se outras agências mudarem a perspectiva de crédito do Brasil para negativa.

- Foi o resultado da deterioração da política fiscal, da alta da inflação, do baixo crescimento da economia, do excesso de intervencionismo do governo, dos equívocos na condução da política econômica. Se havia perspectiva de melhora da nota de crédito do Brasil, agora isso se inverteu. O problema é que 2014 será ano de eleições, o que restringe ações de política econômica que possam mudar o quadro. Nesta quarta, o ministro Guido Mantega voltou a defender a política fiscal do governo, que para mim está no centro do problema - diz Rostagno.

No mercado de câmbio, a decisão da S&P também faz o dólar subir frente ao real. A moeda americana abriu o dia com valorização de mais de 1%, e por volta de 14h58m estava em alta de 0,56% sendo negociada a R$ 2,135 na compra e R$ 2,136 na venda. Pela manhã, o dólar bateu na máxima de R$ 2,154, patamar que levou o Banco Central a intervir no mercado de câmbio nas últimas semanas. Nesta sexta, por enquanto, não houve intervenção do BC.

Para o gerente de câmbio da corretora Treviso, Reginaldo Galhardo, o alerta da S&P disparou o nervosismo dos investidores na abertura do mercado de câmbio. Para ele, a decisão de colocar o rating do Brasil de longo prazo em perspectiva negativa já estava na expectativa do mercado.

- A S&P colocou o dedo na ferida alertando que os fundamentos da economia brasileira estão se deteriorando, levando a uma perda de credibilidade por parte dos investidores. Em breve, outras agências também devem fazer o mesmo alerta. Esse é o fator que está levando à alta do dólar nesta manhã - diz Galhardo.

A mudança de perspectiva feita pela agência indica a possibilidade de rebaixamento da nota do Brasil em até dois anos. A perspectiva anterior era “estável”. Segundo a S&P, o lento crescimento do PIB e a política fiscal expansionista enfraquecem o perfil financeiro do país e podem resultar em um aumento do endividamento do governo local, se não forem corrigidos. As notas dadas pelas agências de classificação de risco indicam o grau de confiabilidade para investir num determinado país.

- O fato de a revista inglesa The Economist ter feito agora uma brincadeira elogiando a competência do ministro Guido Mantega também não pegou bem para o país, o que acaba contribuindo para mais nervosismo - diz o sócio da corretora de câmbio Pionner, João Medeiros.

As taxas de juros no mercado futuro na BM&Festão em alta, após a divulgação da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que subiu 0,37% em maio, atingindo o teto da meta em 12 meses. A perspectiva negativa da nota do Brasil pela agência S&P também provoca a alta das taxas, segundo analistas. Pela manhã, as taxas dispararam e os negócios com títulos no Tesouro Direto começaram atrasados. O contrato de DI com vencimento em janeiro de 2014 tem taxa de 8,59% frente aos 8,56% de ontem; o contrato com vencimento em janeiro de 2015 tinha taxa de 9,30% frente aos 9,22% de ontem e a taxa do papel com vencimento em janeiro de 2017 subiu para 10,12% frente aos 9,92% de ontem.

No exterior, o mercado repercute o dado do mercado de trabalho dos EUA divulgado nesta sexta. A economia americana criou 175 mil novos empregos em maio e a taxa de desemprego subiu para 7,6%, conforme levantamento do Departamento do Trabalho do país. A taxa veio um pouco acima do que esperavam os especialistas: criação de 164 mil a 169 mil vagas e uma taxa de desemprego de 7,5%. Segundo a pesquisa, o avanço no nível de desocupação, de 7,5% para 7,6%, ocorreu porque mais pessoas começaram a buscar trabalho. Os mercados americanos apresentam alta expressiva: o S&P 500 sobe 0,85%; o Dow Jones se valoriza 0,99% e o Nasdaq tem alta de 0,97%. Os números mostram que a economia americana, a maior do planeta, mantém seu ritmo de recuperação.

Na Europa, os principais pregões também reagiram bem aos números do emprego americano e fecharam em alta. O índice Ibex, da Bolsa de Madri, subiu 0,61%; o Dax, do pregão de Frankfurt, teve alta de 1,53%; o Cac, de Paris, se valorizou 1,92% e o FTSE, do pregão de Londres, ganhou 1,20%.