Alvaro Gribel e Valéria Maniero
O Globo
A inflação está elevada, resistente e espalhada. Com juros de 7,5%, não voltaria ao centro da meta nem no final de 2014. Em resumo, é isso que diz a ata do Banco Central, que justifica o aumento da Selic para 8% e sugere novas altas. Inflação elevada por um longo período, segundo o BC, é barreira ao consumo e ao investimento. Será combatida, a partir de agora, não com cautela, mas com “tempestividade”.
O BC mudou o tom e passou a acompanhar as principais análises feitas por economistas de mercado, que há muito tempo vêm alertando para a piora do quadro. Disse que a inflação está mesmo alta, que ficou pior no curto prazo e que, se os juros fossem mantidos em 7,5%, o IPCA não voltaria para 4,5%. Isso quer dizer que ficaria acima do centro da meta durante todo o mandato da presidente Dilma Rousseff e da atual diretoria. O BC espera garantir, agora, pelo menos uma inflação mais baixa no ano que vem, que é de eleições.
A mudança de postura do BC se justifica por três motivos, segundo a ata. O primeiro é que a política fiscal se mantém expansionista. Em outras palavras, o BC não está podendo contar com o Ministério da Fazenda para combater a inflação. O governo só cumpre o superávit com truques fiscais e isso é lenha na fogueira da inflação, porque pressiona o consumo. O segundo é que o mercado de trabalho continua aquecido, o que gera “inflação de custos”, segundo o BC, com aumento de salários acima da produtividade. Por fim, lembra que a economia brasileira ainda é indexada, e que a piora das expectativas acaba contaminando outros preços.
Hoje, o IBGE divulga a inflação de maio, e há chance de que ela estoure novamente o teto de 6,5%, no acumulado em 12 meses, chegando ao maior patamar do ano em junho, para depois cair lentamente e fechar 2013 entre 5,5% e 6%. Essa é a boa notícia, porque mostra que a inflação vai cair. O problema é que não cai a ponto de voltar ao centro de 4,5% e isso significa que não há margem de segurança para se absorver qualquer choque nos preços. E eles têm acontecido com frequência nos últimos anos.
A escalada do custo de vida
O primeiro parágrafo da ata mostra em números a piora da inflação. Em abril deste ano, o IPCA acumulado em 12 meses foi de 6,49%. No mesmo período de 2012, estava em 5,10%. A mesma coisa aconteceu com alimentos e bebidas, serviços e com o IGP-DI, que mede preços no atacado. À época, o BC reduzia os juros, e a Selic estava em 9%.
O alerta da S&P
A agência de classificação de risco Standard & Poor's colocou a nota de crédito brasileira sob perspectiva negativa. O alerta vai na mesma linha do que muitos economistas do país têm dito: o perfil das contas públicas está piorando porque a dívida bruta está subindo. Desde o início do governo Dilma para cá, foi de 54% para 59% do PIB. A redução da dívida líquida não diz muita coisa, já que considera ativos que têm pouca liquidez, como empréstimos do Tesouro ao BNDES. A pressão sobre os bancos públicos para que eles elevem os empréstimos aumenta o risco sistêmico da economia.
Poupar é para poucos
Pesquisa feita pela Serasa e pelo Ibope explica melhor porque nossa taxa de poupança é tão baixa. Entre 2 mil entrevistados, 69% disseram que não poupam, 52% não veem vantagem em poupar e 35% sentem prazer em gastar imediatamente. Como o governo também é gastador, tem déficit nominal e usa truques no superávit primário, fica mais fácil entender a razão de nossa taxa de poupança ser tão baixa, de 14,1% do PIB. Esse é um dos entraves ao investimento no país.
