Marina Gonçalves
O Globo
Para Marcos Azambuja, membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, Exército não tomará poder no Egito
MOHAMED ABD EL GHANY / REUTERS
O Ministério Público ordenou a libertação de duas das principais figuras
da Irmandade Muçulmana, de acordo com agência de notícias estatal Mena
RIO - A derrubada do presidente do Egito, Mohamed Mursi, na última quarta-feira fortaleceu ainda mais as Forças Armadas no Egito e evidenciou o despreparo político da Irmandade Muçulmana. Mas, para o embaixador Marcos Azambuja, especialista em Oriente Médio e membro do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, não se trata nem de golpe nem de revolução. “O processo que ainda está se desdobrando”.
O GLOBO: Quais as principais diferenças entre a queda de Hosni Mubarak e a de Mohamed Mursi?
Marcos Castrioto de Azambuja: A primeira queda foi uma revolução na medida em que mudou os parâmetros e as regras do jogo no país, e que levou ao afastamento de Hosni Mubarak e, consequentemente, a um afastamento do Exército. O Egito é um país pobre com um Exército rico. O poder reside essencialmente no Exército, que recebe do exterior cerca de US$ 1,5 bilhão em equipamentos anualmente, por exemplo. Antes de Mubarak, dois outros presidentes eram oficiais militares: Anwar Sadat e Gamal Abdel Nasser. A queda de Mubarak significou o desmonte de um poder militar diretamente no controle do Estado.
O GLOBO: E o que mudou da primeira revolução para os acontecimentos atuais?
Azambuja: A Primavera Árabe continua se desdobrando. As revoluções têm duração muito longas, são processos demorados. No Egito está longe de acabar. Podemos valorizar o que aconteceu esta semana e dizer que foi uma revolução em seu segundo ato. Ou subvalorizar e afirmar que se trata de um golpe. Para mim não é não é golpe nem revolução, é um processo em andamento.
O GLOBO: Não foi um golpe militar, mesmo que o presidente tenha sido deposto?
Azambuja: Mursi foi tirado do poder por uma manifestação popular imensa, talvez em números ainda maiores do que em sua primeira fase. Não foram os quartéis nem o Palácio do Governo que se rebelaram. Eles foram levados por uma massa humana. Mas ainda não foi montado um processo constitucional no país e a prudência sugere que não rotulemos a natureza do que está acontecendo. A revolução continua.
O GLOBO: E os outros países que viveram a Primavera Árabe?
Azambuja: Se fosse uma novela eu diria que é mais um capitulo importante. Mas não estamos vendo o fim do filme. Nem em países como a Líbia ou a Tunísia, menos complexos que o Egito, o processo parece ter chegado ao fim. Na Turquia uma enorme manifestação começou por causas menores, o que não quer dizer que o momento não seja enorme. As coisas começam com fagulhas muito pequenas.
O GLOBO: Por que a Irmandade Muçulmana falhou?
Azambuja: Eles não tinham um projeto de governo, expressavam um conjunto de valores e sensações, mas não estavam preparados para governar. E por isso não têm capacidade de recuperar o governo no Egito porque não são uma máquina preparada para governar. É claro que a Irmandade não vai desaparecer, mas não tem mais a capacidade de se contrapor aos vários outros grupos da sociedade egípcia. Quem ganha de novo com isso tudo são as Forças Armadas.
E o Exército poderá tomar o poder?
Azambuja: Não. Eles sabem que não podem mais se perpetuar no poder depois do que aconteceu na chamada Primavera Árabe e não vão propor um novo general. Por isso, colocaram um magistrado como presidente interino. Outras opções, como Mohammed ElBaradei, são vistas como candidatos civis demais, moldados pelas universidades ocidentais e ligados a uma ideia libertária.
O Islamismo é de fato o que está por trás das críticas dos manifestantes? Haverá mudanças nas relações entre homens e mulheres no país?
Azambuja: Vejo uma insatisfação muito grande contra regimes que se mantinham no poder, com a incapacidade dos governos de promover as classes mais pobres. Mas a impressão que tenho é que as manifestações ainda não estão canalizadas em projetos de ação política. Durante muitos anos achei que o Oriente Médio iria se mover para uma ocidentalização. Mas vejo que em países como a Turquia, um dos mais ocidentais da região, algumas mulheres voltaram a usar o véu e os partidos islâmicos reapareceram. Não vejo com clareza o que pode acontecer no Egito, mas sei que o Alcorão e a Sharia (lei islâmica) não ajudam muito nesse processo. É um código de condutas e processos penais que vai muito além da religião, que regulam a maneira de ser.
