quinta-feira, novembro 28, 2013

Era Berlusconi, the end

Helena Celestino
O Globo

Figura central da política da Itália nas últimas duas décadas, ex-premier foi condenado em última instância por fraude fiscal

É hoje. A serpente já perdeu o veneno, não pode mais provocar a queda do governo, a ameaça costumeira do velho político. Ainda arrasta-se teatralmente, em cenas de desespero, impotente, lançando apelos, brandindo novas provas improváveis, numa tentativa de evitar o fim da longa tragicomédia que levou a Itália a um lânguido declínio. Sua morte política já está marcada para esta manhã: salvo abruptas mudanças de roteiro, o Senado cassa nesta quarta-feira o mandato, tira a imunidade parlamentar e torna inelegível por quatro anos Silvio Berlusconi, a figura central da política da Itália nas últimas duas décadas, condenado em última instância por fraude fiscal.

Desta vez, só milagre para salvá-lo. “Não foram produzidas condições para agraciar o primeiro-ministro Silvio Berlusconi”, disse domingo o presidente Giorgio Napolitano, cansado das constantes acusações de golpe de estado de Il Cavaliere, que se sente vítima de perseguição de juízes e, claro, merecedor de um indulto.

O drama político não parece comover as ruas. Na mídia ou em grafites nas paredes dos palácios romanos, italianos dão sugestões para o ex-primeiro-ministro transformar o seu ano de prisão domiciliar em trabalho comunitário - para evitar a superlotação das prisões, condenados de mais de 70 anos têm redução de pena e não vão para a cadeia.

As propostas têm um refinado humor . Um circo de Nápoles ofereceu-lhe o picadeiro, o lugar adequado para ele contar as suas piadas políticas. Uma ONG acha que Berlusconi daria um bom defensor dos consumidores, já que gastou dinheiro, tempo e toda a sua energia defendendo-se dos processos judiciais. Uma pequena cidade propôs que aconselhasse microempresários arruinados por suas políticas. Mas a maioria troca a ironia pela raiva, prefere vê-lo fazendo tarefas penosas como o cotidiano da crise que deixou de herança: varrer as ruas, limpar banheiros ou coletar lixo.

O Brasil de hoje parece ser a Itália amanhã. Contra todas as evidências, poucos acreditam que poderosos cumpram pena, muito menos Berlusconi. A visita grandiloquente de Vladimir Putin à Itália segunda-feira, deslocando-se em 50 carros blindados do Vaticano diretamente para a casa de Il Cavaliere, reavivou a lembrança de Bettino Craxi, o líder socialista que se tornou um fugitivo e ficou na Tunísia até morrer para não ser preso. “Passaporte russo para Silvio? Fantasia”, repetiram ã exaustão os colegas de Forza Itália, diante dos rumores de que o presidente russo facilitaria a fuga do amigo em dificuldades

Os golpes de efeito e os truques não são vistos com condescendência pelo Movimento 5 Estrelas e pelo Partido Democrático, dispostos a cumprir a lei e votar o fim da era Berlusconi. Com um currículo indefensável, sua história já passou da hora de acabar.

“Foi um empresário que se fez político e fez do conflito de interesses o centro de sua ação como político e homem de governo. Só trabalhou em seu interesse”, define o escritor e jornalista Benedetto Vechio. Traduzindo para o popular, fez pouco mais do que enriquecer e empobrecer a Itália, deixando-a na pior crise econômica dos últimos 40 anos, com cenas de pobreza iguais às retratadas nos filmes sobre os anos 50.

A vocação teatral do bilionário que desembarcou na política em 1994 a bordo do Força Itália - uma mistura de gente das mais variadas tendências, de ex-socialistas e ex-democratas cristãos à direita liberal e os neofascistas - deu tons shakespearianos à sua derrocada atual. Mesmo condenado desde agosto , ele mantinha sob pressão o governo do primeiro-ministro Enrico Letta, obrigado a equilibrar-se numa esdrúxula coligação da direita e da esquerda. No início de outubro, mais uma vez, Berlusconi ameaçou derrubar o governo do primeiro-ministro mas amargou talvez uma das maiores derrotas da sua carreira, inflingida justamente por seu herdeiro, Angelino Alfano, um político de 47 anos que liderou uma rebelião contra o chefe e sustentou o governo Letta. Um mês depois, Alfano consolidou a traição contra o mentor político que o fez acreditar que seria seu sucessor no comando da centro-direita italiana. Cansado de esperar, decidiu matar o pai: formou um bloco parlamentar independente, levando cinco ministros, 30 senadores e 27 deputados. Selou o destino de Berlusconi.

Na Itália, ainda bem, tudo acaba em cinema. Essa era, que deixou o país empobrecido e paralisado pelo impasse político, produziu um filme emblemático: a “Grande Beleza”, de Toni Servillo, exibido no Festival do Rio e sucesso cinematográfico do verão europeu. Numa versão século XXI da “Dolce Vita”, de Fellini, ele retratou uma cultura italiana bloqueada, resignada, amortecida por um elegante declínio, em que intelectuais falam incessantemente sobre os erros do país, mas a inércia domina tudo. “Existe um sentimento de que o centro nervoso do país está adormecido”, disse o diretor.
A chance de iniciar uma mudança radical está em jogo.