Ramona Ordoñez
O Globo
Necessidades de maiores investimentos em perfurações para extrair gás não convencional e questões ambientais preocupam empresas
RIO - As muitas incertezas em relação às regras para exploração de gás natural não convencional (“shale gas”) podem ser um dos motivos do pouco interesse demonstrado pelas empresas petrolíferas nacionais e estrangeiras a participarem da 12ª Rodada de Licitações com foco em gás natural em terra, que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) realizará na quinta-feira e na sexta-feira, afirmou ao GLOBO o presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), João Carlos França de Luca.
A ANP vai ofertar no leilão 240 blocos em sete bacias terrestres com perspectivas de reservas de gás natural. Nas Bacias do Recôncavo, Sergipe/Alagoas e a do São Francisco, o potencial é para a descoberta de shale gas (gás não convencional ou gás de folhelho), cuja exploração está provocando uma verdadeira revolução no setor energético nos Estados Unidos - e se tornou fonte de polêmica ambiental.
Com base em dados preliminares de estimativas de reservas da ANP, o potencial recuperável de gás natural em cinco das sete bacias que terão blocos ofertados, é de mais de 10 trilhões de metros cúbicos, o que poderá colocar o Brasil, no médio e longo prazos, entre as dez maiores reservas de gás do mundo. Atualmente, o país ocupa o 32º lugar no ranking.
De Luca destacou que existem muitas dúvidas, principalmente em relação a questões ambientais, na exploração do gás não convencional. O Brasil não tem ainda uma regulamentação para a exploração do “shale gas”, que é obtido por meio do chamado fraturamento hidráulico.
- O potencial das bacias pode ser elevado, mas existem muitas incertezas principalmente em relação ao “shale gas”. Nesse tipo de gás, é necessário perfurar muitos poços e a grandes profundidades, tornando os investimentos muito elevados para pequenas empresas. Isso além das questões ambientais - destacou De Luca.
O Secretário Executivo de Exploração e Produção do IBP, Antonio Guimarães, destacou que a ANP deveria definir uma nova regulamentação específica para o gás não convencional, uma vez que tem características muito diferentes da exploração do gás natural convencional. Além da grande profundidade, acima de 5 mil metros, em um campo de gás convencional se perfuram dez poços, em um de shale gás são necessários mais de cem - o que significa maiores investimentos. Isso sem falar na falta de infraestrutura para o escoamento do gás.
João Carlos França de Luca destacou que em função de tantas incertezas regulatórias, a ANP deveria ter se ofertado algum tipo de incentivo para a exploração do shale gas como redução dos royalties na produção desse gás, por exemplo.
Licenciamento ambiental gera dúvidas
A exploração do gás não convencional emprega técnicas especiais de fraturamento hidráulico, que exigem cuidados porque há a injeção de grandes volumes de água e produtos químicos na perfuração dos poços, que podem contaminar os lençóis freáticos. Por isso, esta atividade ainda recebe muitas críticas e questionamentos em países como os Estados Unidos. De Luca lembrou que ainda que o licenciamento ambiental terá que ser feito pelos estados onde se localizam os blocos, e a maioria não tem muito conhecimento sobre esse tipo de procedimento.
- O licenciamento ambiental envolverá diversos estados, e muitos não têm conhecimento sobre como tratar o assunto. Agora, cada empresa tem sua estratégia, e pode ser que pelo pouco interesse, algumas empresas aproveitem e arrematem muitos blocos para negociarem mais adiante - destacou De Luca.
Os dois executivos destacaram a importância de o país iniciar o desenvolvimento da exploração de gás natural, seja convencional ou não convencional, em terra. Eles lembraram que a exploração do shale gas está fazendo tanto sucesso nos Estados Unidos porque começou há mais de 20 anos e hoje conta com uma imensa infraestrutura.
Por sua vez, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) encaminhou nesta segunda-feira à presidente Dilma Rousseff carta pedindo a suspensão da 12ª Rodada, até que o país conheça melhor a tecnologia de sua produção. O presidente da Abes, Dante Ragazzi Paul, explicou que o país precisa conhecer melhor os impactos ambientais antes de deslanchar o desenvolvimento da exploração do gás não convencional.
- Não se trata de ser contra o leilão, mas mas não se conhece essa tecnolgogia de fraturamento hidráulico que, sabemos, tem fortes impactos ambientais. O governo deveria pelo menos retirar as áreas onde se espera a existência do gás não convencional, para se estudar melhor a questão - destacou Paul, ao afirmar que é por falta de maior conhecimento dos impactos ambientais que muitos projetos do PAC sofrem atrasos.