O Globo
Moradores de Ibimirim sofrem com falta de abastecimento
Hans von Manteuffel/Agência O Globo
Mesmo morando perto de poço profundo,
Félix Adelson precisa de balde para ter água em casa
IBIMIRIM (PE) - Os moradores do distrito de Frutuoso, localizado em Ibimirim, a 339 quilômetros de Recife, vivem uma situação inusitada. Apesar de o município repousar sobre o maior aquífero do estado — a Bacia do Jatobá — e contar com cinco poços profundos, perfurados pela CPRM/Serviço Geológico do Brasil, a comunidade tem dificuldade de acesso à água. Os poços, dois deles instalados no ano passado, quando o estado sofria a pior seca dos últimos anos, são protegidos por muralhas com arame farpado. E jorram para municípios mais distantes, como Arcoverde e Sertânia, via rede de abastecimento oficial. Em Frutuoso e Serrote, outro vilarejo próximo, a água só chega em carro-pipa. Ao todo, são 21 circulando por Ibimirim.
A briga pela água, que já motivou até disputa judicial, está longe de chegar ao fim em Frutuoso.
— A comunidade sem água é muito erro. Não sei como se deixa um município com tanta água debaixo da terra em uma derrota dessas. Antes tinha saída de água de um dos poços para a lavoura, mas até essa nos cortaram. Tenho um sítio, com 54 filas de milho e um bocado de coqueiro. Mas sem poder usar a água do poço, o meu milho acabou. E os cocos vêm caindo de sede porque os coqueiros estão morrendo. Até os cajueiros estão prejudicados — reclama Maria Andrade dos Santos, de 60 anos, que criou os dois filhos com a colheita do sítio de dois hectares.
Maria Andrade contou que a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que administra os poços, lacrou o último poço no mês passado. Só resta à população uma torneira aberta, onde os moradores enchem baldes para consumo doméstico. A água dos poços, que têm entre 500 e 700 metros de profundidade e vazão de até 150 mil litros por hora, não pode ser usada para a agricultura.
Água liberada após protestos
A água não falta só para a agricultura. Adailton Lima, assessor de planejamento da Prefeitura, diz que a torneira só foi liberada para as famílias vizinhas do poço depois de muito protesto. Ainda assim, só para beber e cozinhar. Em todo o município, 3 mil e 4 mil pessoas dependem da água levada por 17 carros-pipa — cinco deles pagos pela Defesa Civil Nacional — a um custo de R$ 10 mil por mês, segundo Lima.
— A água sai daqui para outro município e quem mora perto do poço fica na angústia. A gente questiona, briga por isso. Falta vontade política — diz Lima.
O que leva a água para Arcoverde e Sertânia e deixa os moradores do entorno sem ela é a política de atender primeiro os municípios com maior população. Um relatório feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2009 afirma que, dos recursos aplicados no semiárido entre 2008 e 2011, apenas 0,82% foram destinados a beneficiar a população difusa das zonas rurais, as que mais sofrem com a estiagem. Todo o restante da verba para mitigar efeitos da seca foi aplicado em grandes obras que, em geral, são direcionadas a centros urbanos.
Briga chegou à Justiça
O agricultor José Antônio Oliveira, de 64 anos, entrou numa briga com a Compesa para garantir água para sua plantação. Quando fecharam os três poços mais antigos da comunidade, em 2001, ele ingressou com um processo na Justiça para ter o direito de bombear água de duas estações elevatórias, situadas na localidade, e irrigar seus plantios de melancia, milho, e feijão. Há alguns dias, segundo ele, os fios da bomba hidráulica foram cortados.
— Há 13 anos, a gente puxava água graças ao juiz Cristiano Henrique de Araújo — diz, mostrando a sentença.
Na sentença, o magistrado afirma que o acesso tem que ser dado aos moradores até que a Compesa perfure um poço de 380 metros de profundidade no local. Os lavradores, porém, dizem que as obras foram iniciadas, mas nunca concluídas. Segundo o documento, “a comunidade fará uso da água dos poços já perfurados” com “duas bombas, com caixas elevatórias”. Oliveira, que anda com uma cópia da sentença plastificada para cima e para baixo, afirma que, caso os equipamentos não sejam religados, puxará água à força.
Alguns moradores que conversaram com a equipe do GLOBO moram a apenas 300 metros de distância do poço perfurado em 2013. Um pouco mais longe, Pedro Patrício da Silva, que reside no Sítio Serrote, a quatro quilômetros de um dos poços, fica inconformado.
— Eles tiram daqui e levam para a cidade de Arcoverde, e não podem botar água nas nossas casas? — indaga — Enquanto isso, continuo tomando banho de “susto” — diz, classificando o banho com cuia que toma em casa.
Segundo o diretor de Recursos Hídricos de Ibimirim, José de Anchieta de Deus Lima, o município se divide em dois: à margem direita da BR-110, que corta a cidade, fica a Bacia do Jatobá, com água de boa qualidade e farta. Do lado esquerdo, da formação rochosa cristalina só brota água salobra. Três dessalinizadores foram instalados para fornecer água potável a comunidades na região.
—Realmente, é difícil de entender que, com tanta água subterrânea de boa qualidade, a população necessite de dessalinizador ou carros-pipa. Arcoverde e Sertânia estariam em colapso absoluto se não tivessem sendo beneficiadas com a adutora que leva água até elas. Mas não é justo que a população de Ibimirim não possa usar. Os dois mais novos nem abastecem Ibimirim nem os outros. Permanecem fechados — reclama Lima.
Enquanto a situação não é resolvida, José Gabriel Bezerra, de 45 anos, do Sítio Frutuoso, decidiu fazer seu poço por conta própria. Deixou a família e foi trabalhar na construção civil em São Paulo. Voltou com uma poupança de R$ 30 mil e usou tudo na perfuração de um poço de 150 metros de profundidade, que hoje serve para irrigar sua lavoura, que viceja mesmo na seca. São 15 hectares de milho, feijão e melancia, que garantem o sustento da família. Mas ele teme que os cinco poços profundos puxem água dos menores.
— Gastei tudo que tinha para não depender do governo. Mas tenho medo que, com as adutoras, a água da gente acabe.
