quarta-feira, maio 21, 2014

Dilma é melhor que Getulio Vargas

Adelson Elias Vasconcellos



É,  a senhora Rousseff é um monumento ao raciocínio desconexo da realidade. Consegue comparar laranja com abacaxi, abobrinha com tomate, batata com melancia. É um espanto! Deveria, contudo, antes de subir no palanque, informar-se melhor para não incidir em erros grosseiros nas comparações que tenta fazer. 

Nesta semana, ao anunciar o plano safra 2014/2015, para o qual serão destinados muitos bilhões de crédito à agropecuária,   a presidente fez uma descoberta sensacional. Ela conseguiu descobrir que o total da safra deste ano, conseguiu ser maior que a do último ano do governo FHC. ATENÇÃO: fez isto  sem lembrar-se que, entre um ano e outro, há um período de exatos DOZE ANOS. Ou seja, tanto as condições de crédito hoje são muito melhores,  como as condições do pais são, também, melhores. E, vejam só, a área plantada das diversas culturas aumentaram no período. Como a agropecuária, desde a década de 90 do século passado, agregou às condições de clima e vastas extensões de terras agricultáveis, tecnologia de ponta, o que a tornou a mais competitiva do mundo, natural que as safras aumentem ano após ano.. 

A agropecuária brasileira está na raiz da nossa estabilidade econômica.  Além de oferecer comida farta e barata, o que contribui para o controle da inflação em níveis mais baixos, os excedentes exportáveis contribuíram para que o país formasse um colchão de segurança com reservas internacionais superiores aos R$ 300 bilhões. 

Ora, uma atividade que orgulha o país todo, e não poderia ser diferente, mereceria de parte do governo federal, seja ele quem for e pertença a qualquer partido, um tratamento diferenciado, pelo menos na área de crédito. É devolver um pouco do muito que o setor acrescenta em desenvolvimento ao país.

Assim, com tanta excelência e avanço tecnológico,  a agropecuária só pode mesmo obter, ano após ano, recordes crescentes de produção e produtividade. E isto ela consegue apesar do governo petista, e não por conta deste.

Tanto é assim que,  perguntem a qualquer empresário do setor, sua opinião sobre o governo Lula e Dilma. Nenhum nem outro gozam da simpatia da categoria. A começar pela campanha difamatória que ambos sempre se encarregaram de espalhar sobre o tal “agronegócio”, a ponto de,  por parte da própria imprensa, tornar a expressão “agronegócio” uma sigla representativa do mal.

Segundo,  por conta da própria política cambial dos petistas que tiram da atividade agropecuária a possibilidade de ganhos maiores. A insistência, principalmente, nos dois mandatos de Lula, em manter o real sobrevalorizado, só pôde ser enfrentada graças aos preços internacionais terem se mantido altos. Do contrário, e a única atividade econômica que mantém e sustenta   o PIB brasileiro teria afundado.

Terceiro, graças a parceria público-privada, entre governo petista e MST e congêneres,  a atividade, em muitos recantos do país, padece de total insegurança, já que os governos petistas continuam sustentando as invasões e depredações de propriedades rurais. E a partir do segundo mandato de Lula, também tribos indígenas  passaram a fazer parte do bando de marginais. A política de  demarcação de terras, cujo base é amontoado indescritível de vigarices e laudos fraudados,  permitiram a desapropriação de áreas secularmente ocupadas por não índios.  Tanto é assim, que um projeto legislativo transferindo para a seara do Congresso a autorização  definitiva para demarcações, esbarra nas dificuldades interpostas pelo próprio governo.  Trata-se de um reacionarismo bucéfalo. O território nacional não pode ter sua delimitação centrada nas mãos de poucos. Trata-se de estratégia de segurança nacional e sua divisão interna não pode ser entregue a meia dúzia de defenestrados e picaretas. 

Se tudo isso não bastasse, o gargalo da infraestrutura brasileira, que retira dos agropecuaristas boa parte de seus ganhos,  tem um único culpado: a ineficiência do poder público.

Assim, senhores, não é pequena a rejeição que, historicamente, os petistas tem angariado junto aos agropecuaristas brasileiros. O Novo Código Florestal, talvez um dos que mais debates públicos tenham recebido, até hoje encontra imensas reação contrária por parte do governo petista. 

Voltando ao discurso de palanque da senhora Rousseff, ela conseguiu transformar  o Plano Safra, que sempre   foi bianual,  porque muitas culturas são plantadas num ano, e colhidas no ano seguinte como a soja, por exemplo,  e que é a que maior peso tem na produção total,  em Plano Meia-Boca. O que ela fez foi muito mais do que esperteza, foi vigarice mesmo. Simplesmente, tomou como definitiva a colheita de 2002, cujo plantio fora feito em 2001, e considerou aquele como o ponto máximo da curva. Mas fez isso no meio do caminho. Portanto, a safra de 2003 teve seu plantio em 2002, e deveria ser este o dado que a senhora Rousseff deveria ter tomado como medida. Assim, ao invés de 96 teríamos 123 milhões de toneladas.

Como lembra Editorial do Estadãqo (ver post nesta edição): “...Síntese dos fatos: a produção cresceu mais nos anos 90 que na década seguinte e mais neste segundo período que nas três safras de 2010/11 a 2013/14”.

Prossegue o Estadão, informando que “...Na safra 1990/91, o País colheu 57,9 milhões de toneladas em 37,89 milhões de hectares. Em 2000/01, a produção chegou a 100,27 milhões de toneladas, em 37,85 milhões de hectares. A produção cresceu, portanto, 73,17%, enquanto a terra cultivada diminuiu ligeiramente.

Entre as safras de 2000/01 e a de 2010/11, o total produzido aumentou 62,63%, para 162,8 milhões de toneladas, e a área ocupada cresceu 31,75%, para 49,87 milhões de hectares. A produção cresceu rapidamente, mas os ganhos de produtividade foram obviamente muito mais lentos. A safra 2013/2014 está estimada em 191,2 milhões de toneladas (mais 17,44%). A área usada passou a 56,4 milhões de hectares (aumento de 13,09%). A produção por hectare expandiu-se em média pouco menos que 1,2% ao ano nesse período. No decênio anterior, a taxa média havia sido de 2,1%.

E conclui: “... Não cabe discutir agora se a presidente Dilma Rousseff distorceu os fatos intencionalmente ou, como ocorre com frequência, por mera ignorância...”.

Além disto, é bom frisar que a revolução no campo começou quando o PT nem era nascido. É fruto de mais 4 décadas de trabalho e pesquisa da EMBRAPA, lá nos idos da década 70 do século passado. O dom de iludir da senhora Rousseff só não consegue ser maior porque, além dos números oficiais, o país não é ocupado apenas por desmemoriados.  

Se é para colher “frutos virtuosos”, dona Rousseff poderia ter retrocedido ao tempo de Getúlio Vargas. Garanto que teria muito do que se orgulhar. A colheita deste seu último ano de mandato foi infinitamente maior. Nem precisaria recorrer a truques de manipulação estatística. Poderia, se quisesse ainda ser mais precisa, comparar a colheita em seu governo, com a do Império, período da monocultura do café.

Também é de suprema picaretagem querer comparar valores entre períodos distantes mais de uma década entre si. A arrecadação federal entre 2002 e 2014 cresceu muitas vezes, até por conta do aumento da carga tributária. Como também seria muita pilantragem querer comparar o volume de recursos destinados à educação e à saúde, por exemplo, entre um governo e outro. Conforme já se demonstrou aqui muitas vezes, não é o volume de recursos que faz a diferença, e sim o bom uso e o resultado que se obtém de seu emprego que demonstram competências e incompetências. 

Mas se é para agradar o ego da presidente  a produção de vigarices e picaretagens com vistas a resultados maquiados, então podemos assegurar à senhora presidente que ela tem muito para comemorar: em seu governo, a produção agropecuária brasileira é muito melhor e maior do que a do governo Getúlio Vargas, mesmo que entre um governo e outro haja um hiato de tempo de mais 60 anos!!! Parabéns.
  
Mas na próxima vez, senhora Rousseff, respeite ao menos a história e não brigue com as estatísticas oficiais, ok?  Senão, ao invés de má informação, a presidente pode incorrer em má fé!!!!