quarta-feira, maio 21, 2014

O dom de iludir

Adelson Elias Vasconcellos

Tanto a presidente, senhora Rousseff,  quanto seu secretário da Aviação Civil, Moreira Franco, garantem que os aeroportos estão prontos.  Resta saber o que a dupla considera “pronto”.

Conforme vimos aqui, reportagem de Zero Hora fez um apanhado dos aeroportos das cidades sedes e, em todos, alguma coisa ficou para trás, o mesmo se conclui com a reportagem da BBC Brasil (ver nesta edição). Em situação crítica encontram-se o de Cuiabá, o de Fortaleza (que funcionará num puxadinho de lona!), o de Belo Horizonte e o de Viracopos, em São Paulo.  A gente pode incluir o de Manaus onde, bastou uma chuva mais forte, e as goteiras brotaram feito cascata. Resultado: o saguão teve parte bloqueada ao trânsito de pessoas.

Também a mesma presidente afirmou que os estádios estão prontos. Não, não estão. O Itaquerão, por exemplo, até problema de sinal de celular não funcionou, fora as goteiras, a cobertura incompleta. Aliás, mesmo que os paulistas rezem por chuva, dada a prolongada estiagem que levou o reservatório de Cantareira a situação crítica, as preces deverão ser combinadas com São Pedro para que, no dia 12 de junho, não chova na hora da festa de abertura. Seria o grande mico da história. 

Também outros estádios  terão problemas de sinal na área da telefonia e internet, conforme reportagem que reproduzimos nesta edição. 

No campo da mobilidade urbana,   é que encontraremos a grande falha na organização da Copa. Além da retirada de muitas das obras previstas no projeto original, também a grande maioria se encontra em andamento e, dentre estas, muitas só serão concluída nem Deus sabe quando. 

Assim, fica claro que os discursos da presidência, dos ministros dos Esportes e das Cidades, secretário da Aviação Civil, COL, além da própria CBF tentam vender uma obra inacabada como se concluída estivesse, revelando a imensa incompetência demonstrada pelos governos petistas, arranhando a imagem do país em nome de uma megalomania inominável.

Legado que é bom, além dos estádios elefantes brancos, serão as dívidas e as obras que ficarão por aí sendo tocadas a passo de tartaruga. 

E vamos rezar para que o esquema de segurança funcione a contento. Não só as autoridades estavam despreparadas para bancar um evento desta magnitude, mas o país também, está provado, não tinha mesmo condições de ignorar suas carências mais graves para dedicar, esforços e recursos, nessa aventura estúpida. 
É claro que haverá festas nas ruas, de modo geral, os turistas serão bem recebidos como é nosso costume em outros eventos. Mas a alegria não poderá, de maneira alguma, mascarar a dura realidade que foi a má gestão, o despreparo, o desperdício, a desorganização, a incompetência.  O povo brasileiro não merecia tamanha empulhação.

E ainda teremos dois anos de mais gastos e incompetência: vem aí os Jogos Olímpicos de 2016 que, mesmo faltando este tempo todo, já se sabe que o país não entregará o projeto prometido. 

Se dá prá confundir, chame o juiz
Teori Zavascki, ministro do STF nomeado por Dilma Rousseff,   conseguiu confundir-se a si mesmo. Se é o que diz a lei, isto é, os presos da operação Lava-Jato já não oferecendo perigo e ameaças às investigações, e não tendo sido julgados, liberá-los está dentro de sua autoridade.   

Porém, nem 24 horas se passaram e o senhor Teori voltou atrás, e resolveu manter todos presos, menos o ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto. 

Ordenar que o processo fosse enviado ao STF, em razão de nele terem sido indiciados parlamentares com prerrogativa de foro, é uma coisa. Mas pegaram mal duas decisões do senhor Teori: a primeira, ter voltado atrás na soltura dos indiciados, menos aquele que, se falar,  pode complicar o governo petista, tanto o de Dilma quanto  o de Lula. E, dentre todos, era o que demonstrava maior perigo em abrir a boa.  

Segundo, se não havia parlamentares presos, por que razão suspender as investigações? Estas até poderiam livrar a cara de um ou de outro, ou até de ambos.  Que o processo fosse remetido ao STF em razão dos deputados envolvidos, nada a estranhar. Está na lei, mas suspender as investigações, convenhamos, não faz sentido. 

Além disto, com esta última decisão, o ministro criou confusão desnecessária. Levantou perigosa suspeita sobre a legalidade dos trabalhos da Polícia Federal e afrontou o juiz encarregado do caso, no Paraná. Precisava? E  um detalhe bem importante: o ex-diretor foi preso em razão de que foi pego, ele e familiares, destruindo provas.  Estará livre para se desvencilhar daquilo que sobrou. Ou seja, além de trancar as investigações, a decisão do ministro Teori, cria dificuldades para, se um dia elas forem retomadas, a cena do crime já tenha sido remexida e descaracterizada. Um verdadeiro atentado ao bom senso e à própria Justiça. 

Mas em todo este rolo fica um certo cheiro de se abafar o caso e impedir que Paulo Roberto, ex da Petrobrás, pudesse abrir o bico e desvendar a sujeira encoberta do alto escalão tanto da estatal  quanto do próprio governo. Quando de sua prisão, bateu um verdadeiro pavor no Planalto. Assim,  a medida Zavascki trouxe alívio para esta gente. E isto acontecer quando a presidente caía nas pesquisas e às vésperas do início da campanha eleitoral, cá prá nós, é muito, mas muito suspeito.

Aliás, no artigo do Josias de Souza, reproduzido mais baixo, ele relembra com muita propriedade, que o discurso do ministro Teori Zavascki antes de assumir o posto se confronta com a sua posição de agora. 

Leviano e moleque
Lobão Filho, senador pelo Maranhão, decidiu protagonizar uma molecagem que não cabe nem em adolescente. Em discurso político, afirmou com todas as letras, que se o senador do PSDB, Aécio Neves, for eleito, ele acabará com o bolsa família. Terrorismo puro. Mas não apenas isto. Lobão Filho pode ser acionado judicialmente dado que sua afirmação leviana e asquerosa, emoldura o crime de calúnia e difamação. O PSDB vai acioná-lo no TSE. É pouco. O crime vai muito além da seara eleitoral. E se o Judiciário honrar seu dever constitucional, não apenas deverá condenar Lobão Filho a cumprir  pena, mas também a pagar pesada indenização pelo ataque à honra. Mas ainda é pouco: gente da laia de Lobão Filho deveria ser expurgado da vida política nacional. É uma vergonha que o Senado agasalhe gente com tão pouca estatura moral.

 Em vez de racionamento, apagões
A ANEEL  informou que as geradoras e distribuidoras de energia recolheram mais de R$ 300 milhões, por terem  interrompido o fornecimento de energia além do limite previsto. Em média, em 2013, os brasileiros ficaram no escuro mais de 18 horas. Em anos anteriores, a média de apagões e apaguinhos também o mesmo limite. Ou seja, ao invés do governo providenciar uma campanha de conscientização para que a população poupasse energia elétrica, preferiu castigar os consumidores com cortes no fornecimento. 

Claro que o esvaziamento dos reservatórios das hidrelétricas em razão da escassez de chuvas, levando ao uso intenso das termelétricas,  mais caras e mais poluentes, deveriam ter alertado para o dever de um gestor público: orientação. 

Porém, em 2001, os petistas deitaram e rolaram no apagão de energia no governo FHC, que aconteceu pelos mesmos motivos, mas que não contavam ainda com a rede de termelétricas que depois foi  construída com segurança. Como os motivos foram os mesmos, o governo ao invés de orientar, fez o contrário: além de mentir para a população de que tudo estava sob controle, e não estava, ainda incentivou o consumo com redução de tarifas, feita a facão. Um ano depois, precisou praticamente anular a redução eleitoreira com elevação de 18% na média. E o que é pior: prevê-se para os próximos anos, novas majorações, ainda em índices superiores aos que foram agora praticados. 

Cuba na Copa
Houve elogios ao clipe produzido pela Fifa para a Copa, destacando parte da nossa cultura, carnaval, batucada e etc. Porém, o que poucos repararam, é que várias vezes aparece a bandeira de Cuba sendo tremulada. Fica difícil entender, também que o ex- atacante Adriano apareça quando está afastado há mais de dois anos. Mas, convenhamos, colocar imagens da bandeira de um país que sequer se classificou para a disputa que se inicia em 12 de junho, e onde o esporte nem popular é, é no mínimo muito estranho. Mas considerando a bagunça que tem sido para o país preparar e organizar o evento, este é apenas um detalhe que emoldura a incompetência.