sexta-feira, agosto 08, 2014

A crise da indústria que nós plantamos

Adelson Elias Vasconcellos

Saíram dados da produção e venda de veículos no país. E, parte desta queda tanto da produção quanto das vendas, se diz derivada da crise na Argentina.  Pode ser. De cada 10 carros exportados, 7 se destinam ao país vizinho. Porém, há quanto tempo existe o Mercosul? Má mais de vinte anos, certo? Foi criado para quê mesmo? Para ser um mercado comum dos países da América do Sul e exigia um quesito único: que o país obedecesse ao estado de direito democrático. 

Porém, a partir da chegado do PT ao poder federal, o Mercosul foi sendo, pouco a pouco deturpado em sua ideia original. Hoje, não passa de clubinho de governos de esquerdas a praticarem o proselitismo político mais descarado do planeta. E isto se evidenciou quando o Paraguai, obedecendo sua constituição, destituiu do poder o presidente Fernando Lugo.  O que se fez? Brasil, coadjuvado pela  Argentina, aplicou um golpezinho dos mais safados: suspendeu o Paraguai do bloco, e aproveitou para incluir a Venezuela, do caudilho Hugo Chavez.  Detalhe: o Paraguai era o único membro do bloco que não aprovara a entrada da Venezuela, alegando, no que estava absolutamente coberto de razão, que a Venezuela não se caracterizava por um país com democracia plena.  

Na época, para justificar ainda mais a entrada da Venezuela no grupo,  o governo brasileiro apresentou uma coleção de números relativos à repercussão econômica para justificar o ingresso da Venezuela. 

Se até ali o mercado comum andava a passos de tartaruga, com a Venezuela de Chavez, a marca de “mercado comum econômico”, transfigurou-se em mercado comum da canalhice política. Simplesmente, os acordos até então desenhados,  desapareceram.  Como esquecer a tal refinaria Abreu e Lima, no Pernambuco, com Chavez e Lula dando-se as mãos num canteiro de obras maquiado? 

Não só isso: também a Bolívia teve aprovado seu ingresso e, no entanto, ela sequer cumpriu o acordo de Estado, firmado anos antes com o Brasil,  para o fornecimento de gás e ainda nos tomou, com a presença do exército, duas refinarias da Petrobrás. 

Tais fatos – e são fatos, não boatos – foram demarcando o território da política em lugar da economia.  Inúmeras vezes a Argentina,  da companheira Cristina Kirchner, criou unilateralmente regras e dispositivos para restringir o acesso de  produtos brasileiros ao seu mercado. Diante da gritaria geral de empresários brasileiros, o governo brasileiro timidamente retrucou, e a Argentina se dispôs a sentar em torno de uma mesa de negociações para rever suas posições protecionistas. Contudo, a cada acordo firmado, equivaleria, mais tarde, ao seu descumprimento. 

Ao longo dos últimos seis anos, ficaram claras duas perspectivas: uma, que a Argentina caminhava celeremente para uma crise econômica, com destaque para a sua dívida pública. E, segunda, que o Mercosul não   atenderia às necessidades e interesses do Brasil. E isto ficou claro diante das dificuldades criadas por Cristina Kirchner para um acordo de união entre Mercosul e União Europeia. 

Infelizmente, mesmo que este “the end” fosse plenamente previsível, não teve o governo brasileiro, nem por Lula nem por Dilma, uma posição de firmeza junto ao governo argentino para impor esta união entre Mercosul e União Europeia. Mesmo que tivesse que ser na base ou dá ou desce. Enquanto o Brasil vai substituindo componentes industriais de outras nações, com melhor qualidade e preço como a alemã, por similares argentinos, até para forçar o governo Kirchner a não ser tão opositor a uma aproximação da  América do Sul com a Europa, na contrapartida, a Argentina substitui produtos brasileiros por similares chineses. 

Assim, fica claro, que nossos parceiros no continente têm como único interesse que o Brasil financie seus governos autoritários, sem se prestarem a contrapartidas de abertura de mercados e expansão de acordos bilaterais. Sua pretensão é o isolamento completo em relação aos mercados internacionais, como forma de se sustentarem na opressão de seus povos. 

Se hoje, portanto, boa parte da indústria automobilística brasileira padece por conta da crise argentina, mas também a Venezuela, é por culpa exclusiva dos governos Lula e Dilma e suas políticas externas e comerciais de isolamento. 

O Brasil continua sendo um imenso continente de ricas oportunidades de investimentos, mas imensamente mergulhado num oceano de dificuldades para que estes investimentos se realizem.  No caso específico do Mercosul,  fomos imprevidentes e pouco convincentes. Se, de um lado, nossos parceiros no continente são importantes para nosso comercio externo, não menos verdade que estes mesmos parceiros dependem  muito mais da nossa pujança econômica do que o seu contrário. Deveríamos, neste sentido, ser o carro chefe a liderar o continente não apenas no plano político, não dando trela aos retrocessos institucionais que ocorrem em países como Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador. Mas liderar o continente numa abertura comercial ampla e benéfica para todos. 

Tanto Argentina quanto a  Venezuela não estão livres de, no curto prazo, de mergulharem numa profunda recessão econômica, com consequências muito ruins também no plano político.  Qualquer instabilidade no continente afetará diretamente o Brasil, já que continuamos isolados e atrelados a governos irrelevantes. Assim, diante deste cenário, pode ser que o Brasil se convença, definitivamente, que o Mercosul foi um sonho que acabou faz tempo.  Ou o bloco reformula seus posicionamentos, e o Brasil permanece nele atuante como sempre foi, ou o Brasil abre mão destas amarras e segue seu caminho abrindo-se para o mundo, liberto para firmar acordos bilaterais com quantos pretender e tiver real interesse.  Países interessados em alinhar-se ao Brasil é que não faltam. O Brasil é que tem de pensar mais em si, em seus interesses de desenvolvimento e ampliação de mercados,  e deixar de ser eterna babá de caudilhos latinos.

Portanto, boa parte das dificuldades da indústria brasileira, em constante queda de produção, de vendas e de emprego, se deve a uma política descolada do interesse do país. Esta mistura de ideologia política com relações internacionais e comerciais é indigesta. O Brasil é muito maior  do que este ranço ideológico todo, e não pode, deste modo, atrelar seu desenvolvimento a parceiros que se pretendem continuar subdesenvolvidos, em todos os sentidos.