sexta-feira, agosto 08, 2014

Megaoperação tenta desarticular quadrilha que age em condomínios do 'Minha Casa Minha Vida'

Giselle Ouchana e  Bruno Amorim
O Globo

Duas pessoas já foram presas, incluindo um subtenente da Polícia Militar

Hudson Pontes / Agência O Globo
Ademir, síndico do Condomínio Ferrara, na Estrada dos Caboclos, 
em Campo Grande. foi preso na operação policial 

RIO - Policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes Organizados e Inquéritos Especiais (Draco-IE) fazem uma operação em vários condomínios do programa 'Minha Casa Minha Vida' para tentar desarticular uma quadrilha que atua em venda e locação ilegal de imóveis do programa social. A ação é realizada em condomínios de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, desde o início da manhã desta quinta-feira. Segundo informações da polícia, os agentes pretendem cumprir 27 mandados de prisão e 84 de busca e apreensão. Entre os procurados estão nove policiais militares, um policial civil e um agente da Secretaria estadual de Assistência Penitenciária (Seap).

Até as 7h, duas pessoas haviam sido presas. Um homem identificado apenas como Ademir e o subtenente da Polícia Militar João Henrique Barreto, lotado no 40º BPM (Campo Grande). Ademir foi encontrado em casa, no Condomínio Ferrara, na Estrada dos Caboclos. Ele é o síndico do condomínio e seria o responsável pela cobrança indevida de taxas pela milícia que atua na região. De acordo com o delegado Luiz Augusto Braga, titular da Draco e chefe da operação, Ademir não era policial, mas é considerado o terceiro na escala dos criminoso, já que atuava como chefe de todos os cobradores.

Já o subtenente Barreto era encarregado de receber as ordens dos ex-PMs Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, que já cumpre pena na penitenciária federal de Campo Grande (MS), e por Toni Ângelo Souza de Aguiar, o Erótico, preso em 2013, e repassá-las para a quadrilha. Segundo a polícia, a organização criminosa, que lucrava R$ 2 milhões por mês, atuava no Condomínio Ferrara desde 2011. O esquema já havia sido denunciado por O GLOBO.

AÇÕES DA MILÍCIA ERAM CRUÉIS E VIOLENTAS
Os milicianos expulsavam as famílias dos aparatamentos para revender ou alugar as unidades. Além disso, eles cobravam taxas indevidas, como por exemplo, um valor acrescido de cerca de R$ 30 nas contas de luz e água, além de “gatonet”. Os moradores também eram obrigados a comprar cestas básicas diretamente com a quadrilha, por preços acima do mercado. Os bandidos cobravam R$220 por cestas que valem R$150. Caso os moradores não cumprissem as ordens, ou retornassem para pegar pertences como roupas, eram espancados e até mortos.

A polícia ainda não informou quantas pessoas foram assassinadas. O grupo também extorquia motoristas de transporte alternativo, que eram obrigados a pagar R$350 por semana para circular na região.

- Um detalhe dessa ação criminosa é que os proprietários das casas tinham contrato mútuo com a Caixa Econômica, então, eles eram expulsos mas permaneciam com o nome vinculado e o débito do valor mensal. Os criminosos vendiam esses imóveis, falsificando o documento de venda. Também estamos apurando esse procedimento, porque o documento era falso, mas a materialidade verdadeira - afirmou o delegado da Draco-IE, Luiz Augusto Braga.

A milícia denominada ‘Liga da Justiça’ diversificou o comando para dificultar as investigações e diminuir sua exposição. Entretanto, a Polícia verificou que, após a prisão de Toni Ângelo, a sucessão no comando da quadrilha era do PM João Henrique Barreto, o Cachorrão, e de Marco José de Lima Gomes, o Gão, preso na última terça-feira pela Divisão de Homicídios (DH). As ações da quadrilha são cruéis e envolvem a prática de homicídios, ocultação de cadáveres, tortura, roubos, lesões corporais graves, extorsões, ameaças, constrangimentos ilegais e injúrias.

A Operação Tentáculos acontece desde as 6h desta quinta-feira, e conta com 350 policiais civis, incluindo 60 delegados. Chefiada pela Draco-IE, a ação conta com o apoio do Ministério Público, Subsecretaria de Inteligência (SSINTE) da Secretaria de Segurança, Polícia Civil, Corregedoria Geral Unificada, Corregedoria da Polícia Civil, Corregedoria da Polícia Militar, Corregedoria da Secretaria de Administração Penitenciária e Ministério Público.