domingo, outubro 19, 2014

Restrição no Ipea faz diretor se demitir

João Villaverde e Rafael Moraes Moura 
O Estado de S. Paulo

Herton Araújo colocou cargo à disposição do órgão por discordar do veto à publicação de estudos durante a eleição

BRASÍLIA - Uma decisão inédita tomada pela direção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de proibir a publicação de estudos realizados pelos pesquisadores envolvendo dados públicos divulgados entre julho e o fim das eleições presidenciais, gerou uma crise interna. O diretor de estudos e políticas sociais, Herton Araújo, colocou seu cargo à disposição por discordar da decisão da cúpula do instituto. 

Disposto a publicar um estudo técnico com dados sobre miséria social no Brasil a partir da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada há três semanas, Araújo trouxe o assunto à reunião da diretoria colegiada do Ipea, realizada no dia 9 deste mês. A decisão do Ipea, porém, foi mantida: estudos somente serão divulgados a partir do dia 27 de outubro, após o 2.º turno. 

“A decisão baseou-se no entendimento de que uma instituição de pesquisa de Estado não deveria, neste período, suscitar acusações de favorecimento a um ou outro candidato”, afirmou o Ipea, em nota. 

Segundo o órgão, vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), comandada por Marcelo Neri, “por discordar desta interpretação da lei eleitoral, o Sr. Araújo colocou o cargo à disposição”. Procurado nesta quinta-feira, 16, Herton Araújo não respondeu às ligações. 

A crise interna no Ipea vem após diversos ruídos de comunicação envolvendo a área social do governo Dilma Rousseff. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma versão com erros da Pnad e somente corrigiu os dados 24 horas depois. O constrangimento decorrente do erro quase rendeu a demissão da presidente do IBGE, Wasmália Bivar, como informou o Estado à época. O próprio Ipea foi envolvido em episódio semelhante, no primeiro semestre, quando divulgou uma pesquisa com erros. 

No mês passado, o Ministério da Educação foi acusado de retardar a divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) por causa do período eleitoral. 

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Só para lembrar. Ficou, também, para depois das eleições, os dados mais recentes sobre o desmatamento na Amazônia. E, para depois das eleições ainda teremos as maldades de aumento dos combustíveis e energia, que impulsionarão ainda mais a inflação . 

Vejam como o mundo dá voltas: em 2001, na campanha presidencial que elegeu Lula, José Serra era candidato do PSDB e foi para o segundo com o petista. E até hoje ele guarda a mágoa de que Fernando Henrique não permitiu a participação de ministros em palanques, tampouco permitiu o uso eleitoral dos programas sociais. Neste segundo turno, não pense em ir a Brasília para alguma audiência com qualquer um dos 39 ministros de Dilma. TODOS estão largados na campanha. Ou seja, o país está sem governo, sem direção, sem comando. Para os ainda indecisos, eis aí mais uma grande diferença entre governo petista e tucano, a justificar que não se vote em Dilma. Esta senhora esqueceu de que ela ainda é presidente, foi eleita em 2010, é paga e muito bem paga, para exercer o mandato até 31 de dezembro de 2014. 

Para encerrar: quem determinou a suspensão dos dados foi o Ministro de Assuntos Estratégicos, Marcelo Nery, o pais da tal “nova classe média”, uma das maiores vigarices intelectuais construídas no país. E o tal “impedimento legal” simplesmente não existe. Trata-se de mais uma absurda de Marcelo Nery. Adoraria que este senhor viesse a público com a legislação eleitoral nas mãos, e nos mostrasse onde foi que ele encontrou algum impedimento para que fossem divulgados os tais dados sobre desigualdade. 

Na verdade, o “impedimento” partiu do PT e do governo Dilma que mandaram segurar a informação para não desmentir a propaganda criminosa quanto mentirosa da presidente-candidata-terrorista.