terça-feira, novembro 07, 2006

Com ajuda das oligarquias

por Ricardo Miranda,
Publicado no Correio Braziliense
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As eleições presidenciais de 2006, em particular o segundo turno, foram as mais atípicas de nossa história contemporânea. Ao mesmo tempo, consolidaram uma fórmula vitoriosa inaugurada há 17 anos de aliança com oligarquias e igrejas evangélicas. Mais do que guerrear nos palanques, nos debates e no horário eleitoral gratuito, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB) disputaram os nacos de uma estrutura de poder formada por forças políticas tão diversas como os velhos coronéis, líderes pentecostais e a boa e velha classe média urbana.
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Nessa guerra, Lula foi vitorioso ao roubar bandeiras tucanas, como o Real, e engrenar na reta final um discurso antiprivatizante que deu a desculpa para que parte da classe média se rendesse ao petista. Alckmin, por seu lado, protagonizou um emagrecimento eleitoral nas próprias bases políticas tucanas. Essas são algumas das principais conclusões de uma detalhada anatomia eleitoral do país que permitem explicar, com dezenas de mapas, porque Lula se reelegeu e Alckmin não apenas foi derrotado, mas experimentou um inédito encolhimento eleitoral no intervalo de 28 dias.
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Dividindo o país em 558 microrregiões, o estudo mostra que Lula cresceu no segundo turno em todas elas, do Oiapoque ao Chuí – chegando a subir 22% em Brasília e Rio de Janeiro – e arrastando o caminhão de 11,6 milhões de votos a mais que lhe garantiram a ampla vitória. Alckmin, por sua vez, perdeu votos no segundo turno em 535 das 558 microrregiões, não ganhando eleitores – e, pior, perdendo muitos – em todas as áreas de estados como Minas Gerais, Bahia, Goiás e Ceará. Das 63 microrregiões do estado de São Paulo, Alckmin só cresceu na capital, perdendo votos inclusive em sua Pindamonhangaba natal.
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“Essa é a incrível história de como o candidato tucano encolheu”, narra o cientista político Cesar Romero Jacob, professor da PUC-Rio, autor do estudo em parceria com a professora Dora Rodrigues Hees e com os pesquisadores franceses Philippe Waniez e Violette Brustlein. Lula teve no primeiro turno, entre 19,1% e 85,1% dos votos nessas 558 microrregiões. No segundo turno, ampliou muito essa margem, ficando entre 27,9% e 92,1%. Além de Brasília e Rio, o presidente cresceu até 22% na Grande Belo Horizonte e Sul de Minas e parte de Alagoas – que antes despejara votos na candidata do P-Sol, Heloísa Helena.
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Quedas acentuadas
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Alckmin teve quedas mais acentuadas em Goiás, Sul de Minas e Ceará. Sua margem de votos no primeiro turno, que ia de 10% a 74%, limitou-se entre 8% e 72% no segundo turno. O candidato tucano manteve uma boa vantagem apenas nas áreas movidas pelo agronegócio – Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e estados do Sul –, prejudicados com a baixa cotação do dólar.
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Segundo o professor Jacob, a vitória de Lula com 58,3 milhões de votos (60,8% dos válidos) e a perda de 2,4 milhões de eleitores por Alckmin mostra que o petista, mais do que o tucano, aprendeu a lição deixada pelos últimos ocupantes do Planalto. “A lição, entendida primeiro por Fernando Collor, em 1989, seguida por Fernando Henrique em 1994 e 1998, e aprendida por Lula, é que é preciso primeiro ter uma aliança com as oligarquias nos rincões do país”, afirma Jacob, lembrando que 44% do eleitorado vive em municípios com até 50 mil habitantes.
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Lula venceu em 4.014 dos 5.500 municípios brasileiros. Alckmin foi mais votado em 1.550 cidades. “Em seguida, costura-se o apoio de políticos populistas e pastores pentecostais nas periferias e finalmente prepara-se um bom discurso para a classe média urbana escolarizada”, completa o professor. “No interior e nas periferias, ganha-se com a máquina. Nos grandes centros, ganha-se com o papo”, resume ele. Ao fazer isso, aponta o pesquisador, Lula conseguiu dividir setores onde tradicionalmente levava uma surra eleitoral, como entre os pentecostais – que em 1989, 1994 e 1998 ficaram com Collor e FHC. “Lula, portanto, rachou as oligarquias, rachou os pentecostais, rachou os políticos e foi disputar onde efetivamente existe competição, que é a classe média urbana escolarizada”, explica o professor Jacob.
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Lula, na avaliação dos pesquisadores, foi bem-sucedido ao mostrar seu sucesso na política econômica e na distribuição de renda, mas também ao se apropriar e melhorar duas bandeiras da Era FHC: o Plano Real, que estava em apuros no final de 2002, e os programas sociais tucanos (Bolsa-Escola, o Vale-Gás e o Vale-Alimentação), muito mais modestos.
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Maiores colégios
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Comparando o os mapas de votação nos dois turnos, percebe-se que nenhum cacique tucano conseguiu converter em votos seu prestígio político, notadamente no Ceará, terra do presidente do PSDB, Tasso Jereissati, e nos dois maiores colégios eleitorais, São Paulo e Minas Gerais, onde José Serra e Aécio Neves tiveram vitórias convincentes no primeiro turno (respectivamente 58% e 77% dos votos válidos).
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“Teria sido Alckmin vítima de uma cristianização? Pode ter sido. Para esses tucanos, todos de olho em 2010, a vitória do Lula significa que qualquer um deles pode ser candidato. Alckmin eleito, muito possivelmente seria candidato à reeleição”, raciocina. No linguajar político, cristianizar significa ser abandonado politicamente, como o PSD fez com seu candidato Cristiano Machado, apoiando Getúlio Vargas nas eleições de 1950. Mesmo nos estados do Sul, onde Alckmin bateu Lula, o candidato do PT ganhou votos em cima do tucano, particularmente no interior. Das 39 microrregiões que compõem o Paraná, Alckmin só conquistou mais eleitores na área de Londrina. No Rio Grande do Sul, Alckmin só acrescentou votos em cinco das 35 microrregiões — notadamente Porto Alegre e Caxias do Sul.