terça-feira, novembro 07, 2006

Don Giovanni e Leporello

Por Reinaldo Azevedo
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Quantas vezes for preciso afirmar que Lula é uma piada grotesca, eu o farei, sem cansar. Ele e os áulicos que lhe puxam o saco – não o seu propriamente, mas o do Estado, de cuja cornucópia muitos dependem para sobreviver. O presidente esteve ontem numa solenidade com empresários para a entrega do prêmio “As Empresas Mais Admiradas do Brasil”, uma iniciativa da revista Carta Capital, que chamo de Cartilha Capital, dado o seu alinhamento automático com o governo – ao menos essa é uma cartilha cuja existência se pode provar. A propósito: Luiz Gushiken já revelou o paradeiro dos R$ 11 milhões cobrados pelo Tribunal de Contas da União ou ainda está apurando?
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Segundo informa o Estadão desta terça, o diretor de Redação da publicação, Mino Carta, expressou o seu orgulho de ter apoiado a candidatura de Lula. E disse ter sido cobrado por isso por outros veículos. Quais veículos? Ninguém cobrou nada. Todos esperavam que ele fizesse rigorosamente o que fez. Só faltava não apoiar. É uma questão de gratidão.
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Em seu discurso, Lula, claro, exaltou as virtudes da liberdade de imprensa. Mas lembrou que “liberdade plena exige responsabilidade, sobretudo seriedade.”. Fazendo referência à ditadura militar – aquela por conta da qual recebe uma pensão permanente –, disse que já houve tempos no Brasil do pensamento único, quando era proibido falar mal do governo. E emendou: “Agora estamos outra vez [nesse tempo], é proibido falar a favor. Nós mudamos do 8 para o 80 com uma facilidade enorme.” Como assim? É um desrespeito com a Cartilha que acabava de homenageá-lo. Para todos os efeitos, não deixa de ser uma revista. No sábado, falando de sua sunga, abordei aqui o sentido amplo do termo “decoro”. As palavras de Lula e de seu Leporello, dadas as circunstâncias, são indecorosas.
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Em primeiro lugar, comparar um período de censura com outro, em que a democracia tem vigência plena – apesar do PT, que queria Conselho Federal de Jornalismo –, é um absurdo, uma estupidez. Em segundo lugar, faz uma semana que a sua Polícia Federal constrangeu repórteres da revista Veja para aplausos do anfitrião da noite. O mesmo que estampou na capa da publicação que dirige uma estúpida reportagem dando conta de uma suposta conspiração para empurrar a eleição para o segundo turno: deve ter sido a chamada "Conspiração dos Eleitores". Ver Dom Giovanni e Leporello dando aulas de liberdade de imprensa não é desafio para estômagos frágeis.
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Crescimento
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O empresário Jorge Gerdau Johannpeter, um dos homenageados da noite, fez um discurso cobrando mais crescimento econômico, arrancando de Lula a promessa solene de que assim será. Mas aproveitou para cobrar de muitos dos presentes o voto que não lhe teria sido dado. Como ele sabe? Recursos não lhe faltaram para tocar a campanha. Aliás, até sobrou dinheiro no PT. Até hoje não se sabe a origem da bolada de R$ 1,75 milhão que pagaria o dossiê fajuto. Não se sabe e não se vai saber.
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Segundo a Folha, Lula disse ainda que se criou o “sofisma” de que ele quer dividir o Brasil entre ricos e pobres: “Não, eu não quero dividir. Já nasci com ele dividido e, lamentavelmente, do lado dos pobres. Poderia ter nascido senhor de engenho, vim da senzala”. Ah, o conforto da demagogia. Mas ele fique tranqüilo. Lulinha já migrou para a Casa Grande... De todo modo, o modelo que permite que alguém que veio da “senzala”, para ficar nos seus termos, chegue à Presidência é a democracia representativa, o capitalismo, aquele que o PT passou negando durante mais de 20 anos. E que, uma vez no poder, se encarregou de desrespeitar com a compra de uma fatia do Congresso, tentativas de censurar a imprensa e um complô, como foi o caso do dossiê, para melar a eleição em São Paulo.
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Lula é, aliás, um produto da imprensa livre, como ele próprio reconheceu num debate com Geraldo Alckmin. Ocorre que imprensa boa é aquela que publica na capa aquilo que o governante de turno quer ler. E a má, claro, é aquela que não faz as vontades do mandatário e resolve fazer apenas jornalismo, sem perguntar de que cor são os gatos, preferindo os fatos. Com esta, o PT já deu mostras de convier muito mal. Para lembrar Marco Aurélio Garcia, presente à solenidade, os “jornalistas que cuidem de suas redações, que a direção do partido cuida do PT”.
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Leio o noticiário dos grandes jornais e os comentários. É visível o arrefecimento da crítica ao governo e a Lula, mesmo quando faz um discurso delinqüente como esse, que compara a imprensa sob censura, da ditadura, com o momento atual, quando há plena liberdade – “plena”, insisto, porque o PT não fez aquilo que queria fazer. Finalmente, quanto a Lula dizer que foi obrigado a defender os lucros dos bancos, embora os banqueiros não tenham votado nele, é só um gracejo para, uma vez mais, exercitar seu esporte predileto: o arranca-rabo de classes. Não havia uma miserável razão para que os ditos-cujos votassem em Alckmin. A menos que fossem idiotas. E ainda está para nascer tal categoria nesse ramo de negócios.