Gabrielli e a inaceitável agressão ao repórter de "O Globo". E estou em campanha: "Vamos estatizar a Petrobras, que foi privatizada pelo PT"
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Por Reinaldo Azevedo
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A Petrobras já foi privatizada. Pelo PT. É a única coisa que se pode concluir do inaceitável faniquito público que o presidente da estatal, Sérgio Gabrielli, teve ontem. Noticiei a coisa aqui. Mas o relato feito pelo repórter Chico Otavio, no Globo de hoje, impressiona. Destaco um trecho logo abaixo. Gabrielli foi muito além do razoável. Qualquer pessoa, na sua função, em qualquer democracia do mundo, levaria um pé no traseiro. Mas ele, certamente, ganhará os parabéns de seu chefe. Presidente de uma empresa cujo capital é majoritariamente público — portanto, as suas atribuições praticamente se igualam às de um servidor do Estado —, vamos verificar como ele entra na economia interna dos partidos, como faz proselitismo desavergonhado. Leiam trecho de reportagem do Globo. Depois volto:
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Por Reinaldo Azevedo
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A Petrobras já foi privatizada. Pelo PT. É a única coisa que se pode concluir do inaceitável faniquito público que o presidente da estatal, Sérgio Gabrielli, teve ontem. Noticiei a coisa aqui. Mas o relato feito pelo repórter Chico Otavio, no Globo de hoje, impressiona. Destaco um trecho logo abaixo. Gabrielli foi muito além do razoável. Qualquer pessoa, na sua função, em qualquer democracia do mundo, levaria um pé no traseiro. Mas ele, certamente, ganhará os parabéns de seu chefe. Presidente de uma empresa cujo capital é majoritariamente público — portanto, as suas atribuições praticamente se igualam às de um servidor do Estado —, vamos verificar como ele entra na economia interna dos partidos, como faz proselitismo desavergonhado. Leiam trecho de reportagem do Globo. Depois volto:
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Gabrielli foi agressivo e dirigiu ataques ao repórter do Globo ao ser indagado sobre dois temas: o uso da estrutura das ONGs financiadas pela Petrobras na campanha pela reeleição do presidente Lula — como mostrou reportagem do jornal domingo — e assinatura de convênio no valor de R$ 228 milhões, sem licitação, com a AssociaÇão Brasileira de Engenharia Industrial (Abemi) para treinamento profissional.
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— Irresponsável! — reagiu Gabrielli assim que o repórter (um dos autores da série de reportagens) se identificou.
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Ao ser perguntado se a Petrobras mostraria pelo menos um dos contratos com ONGs, voltou a exibir sua irritação.
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— Evidentemente, você não é uma pessoa bem-vinda aqui — respondeu o presidente da maior estatal do país.
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Não satisfeito, foi adiante:
“Eu poderia, por exemplo, fazer ilação de que há coincidência muito grande entre a posição do PFL, neste momento, e o que você está fazendo. Com o que o senhor Heráclito Fortes (PFL-PI) está fazendo com a sua matéria, poderia dizer que você está trabalhando para o PFL.”
“Eu poderia, por exemplo, fazer ilação de que há coincidência muito grande entre a posição do PFL, neste momento, e o que você está fazendo. Com o que o senhor Heráclito Fortes (PFL-PI) está fazendo com a sua matéria, poderia dizer que você está trabalhando para o PFL.”
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A truculência de Gabrielli é inaceitável. Ademais, “Senhor Heráclito Fortes” vírgula, senhor Gabrielli. O PT é o partido em que ser chamado de “senhor” pode ser uma ofensa. Ele é senador da República, eleito pelo povo. E está cumprindo a sua tarefa. Está lá por vontade do eleitor. Gabrielli preside a Petrobras por vontade de Lula e do PT. O senhor deve ao parlamentar um tratamento respeitoso. Quando ao repórter... Vejam vocês: o “dono” da Petrobras diz quem é e quem não é bem-vindo à “sua” casa. Irresponsável é sua reação.
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A truculência de Gabrielli é inaceitável. Ademais, “Senhor Heráclito Fortes” vírgula, senhor Gabrielli. O PT é o partido em que ser chamado de “senhor” pode ser uma ofensa. Ele é senador da República, eleito pelo povo. E está cumprindo a sua tarefa. Está lá por vontade do eleitor. Gabrielli preside a Petrobras por vontade de Lula e do PT. O senhor deve ao parlamentar um tratamento respeitoso. Quando ao repórter... Vejam vocês: o “dono” da Petrobras diz quem é e quem não é bem-vindo à “sua” casa. Irresponsável é sua reação.
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Ademais, Gabrielli parece integrar aquele seleto grupo do petismo e do parapetismo que tem uma relação singular com o dinheiro. Lembram-se de Marcos Valério na CPI do Mensalão? Houve lá um dia em que ele se referiu a algo em torno de R$ 4 milhões como “pouco dinheiro”, “mixaria”. É... Segundo padrões petistas, nunca haverá dinheiro o bastante para o fome do gigante.
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Gabrielli seguiu ontem a mesma escala “Nosso investimento (R$ 22,6 bilhões) tem impacto enorme na economia. E as matérias falam em contratos de R$ 31 milhões”. Entenderam? A constatação corresponde a uma pergunta: “O que são R$ 31 milhões diante de R$ 22,6 bilhões?” É um escárnio.
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Se o Senado tivesse vergonha na cara, chamaria este “senhor” para prestar esclarecimentos. A partir de agora, estou em campanha: quero estatizar a Petrobras. Privatizada ela já está.
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Alô, Gabrielli: quero ver o contrato entre a Petrobras e a estatal boliviana. Por que ele não aparece?
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A propósito, “senhor” Gabrielli: na condição de acionista da Petrobras, quero ver a íntegra do contrato que a empresa celebrou com a estatal boliviana. Cadê o contrato? Onde estão as garantias da estatal brasileira? Por que o contrato, até agora, não veio a público? Qual o interesse em escondê-lo?
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Alô, Gabrielli: quero ver o contrato entre a Petrobras e a estatal boliviana. Por que ele não aparece?
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A propósito, “senhor” Gabrielli: na condição de acionista da Petrobras, quero ver a íntegra do contrato que a empresa celebrou com a estatal boliviana. Cadê o contrato? Onde estão as garantias da estatal brasileira? Por que o contrato, até agora, não veio a público? Qual o interesse em escondê-lo?
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Eu, Gabrielli, Heráclito e a República
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Petistas ficaram furiosos porque censurei a forma como o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, se referiu a Heráclito Fortes (PFL-PI). Numa entrevista coletiva, chamou-o, com evidente desdém, “senhor”, em vez de “senador”. Sintetizo o ataque: “Quer dizer que você, que é não é ninguém, pode chamar o presidente de Apedeuta, e Gabrielli não pode chamar Heráclito de senhor?”. Sim, quer dizer isso mesmo.
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Eu, Gabrielli, Heráclito e a República
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Petistas ficaram furiosos porque censurei a forma como o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, se referiu a Heráclito Fortes (PFL-PI). Numa entrevista coletiva, chamou-o, com evidente desdém, “senhor”, em vez de “senador”. Sintetizo o ataque: “Quer dizer que você, que é não é ninguém, pode chamar o presidente de Apedeuta, e Gabrielli não pode chamar Heráclito de senhor?”. Sim, quer dizer isso mesmo.
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Exatamente porque não sou ninguém, porque não exerço cargo de confiança; porque não sou capa-preta de estatal; porque não sou nomeado por nenhum padrinho político; porque não estou subordinado às regras que regem os homens públicos; porque não pertenço a nenhuma forma de hierarquia estatal ou para-estatal; porque não devo satisfações a ninguém a não ser aos códigos que regem a vida civil e a minha profissão; por tudo isso, chamar o presidente de “Apedeuta” é um direito meu. Basta consultar o dicionário: “que ou o que não tem instrução”. É Lula. E isso não quer dizer que não seja espertíssimo, mais do que a grande maioria “com instrução”. Podem ver que nunca o chamei de burro. Cabe só aos leitores julgar o “decoro” de minha linguagem. O resto é com a lei. Com Gabrielli é diferente. Se ele quer bater o pé e ter a autonomia que tenho, que se demita do cargo e vá para a vida privada. É simples.
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Até aceito a argumentação de que, chamando Lula de “apedeuta”, estou comprando briga com quem o elegeu ou reelegeu. Claro que sim. Nunca neguei isso. Afinal, sou aquele que cravou a expressão: “É Lula de novo com a culpa do povo”. Mas eu posso comprar quantas brigas eu quiser. Lula não me deve nada. Não lhe devo nada. E não preciso lhe fazer as vontades para manter meu emprego. A luta essencial, entendo, continua a ser a do indivíduo contra o Estado. Já o “senhor” Gabrielli não. Exerce um cargo político e tem de seguir as regras do decoro público. Quando, presidente de uma estatal, hostiliza um senador, seu partido, um jornalista e a imprensa, está pondo o Estado, que é de todo mundo — meu também —, a serviço de uma “parte”, de um “partido”. Sacaram a diferença?
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Sei que nem todos reconhecem o Bananão como uma República. Mas ainda não perdi as esperanças. Eu não posso ser demitido pelo presidente da República, mas Gabrielli pode. O que quer que eu faça ou diga não implica o endosso do chefe da nação; no caso do presidente da Petrobras, sim. Se eu falar mal de um senador ou tratá-lo com desdém, não significa que o Executivo está dando um pé no traseiro do Legislativo. Já Gabrielli deu um pé no traseiro do Senado. Como ficou no cargo, é sinal de que Lula aprovou o seu ato e também deu o chute.