sábado, novembro 25, 2006

Relato um: O petróleo é deles

Matéria da Folha mostra que fornecedores da Petrobras doaram R$ 2,5 milhões aos petistas para a campanha eleitoral. A informação confirma o que o senador ACM já havia dito: a estatal despejou dinheiro a rodo na campanha do PT ao governo da Bahia. Pudera, a Petrobras é um feudo do partido, uma espécie assim de capitania hereditária. Poderosa, a estatal possui hoje mais capacidade de investimentos do que o Estado brasileiro. E a elite do PT está toda lá. O petróleo é deles, do PT, não do Brasil. E você, o que acha disso?
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É discurso marcado: é tudo culpa da imprensa. Críticas e denúncias são o novo monstro brasileiro: o jornalismo. E na onda foi José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, respondendo às reportagens sobre doações de campanha ao PT feitas por empreiteiras ligadas à estatal. As doações não foram negadas, mas sua divulgação, de acordo com Gabrielli, é "uma campanha orquestrada contra a Petrobras". O presidente da estatal bem que poderia ter dispensado os ataques ao jornalismo, ficando apenas com a defesa da atuação da empresa.
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"Dane-se o público"

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O editorial da Folha de São Paulo de hoje, do qual transcrevo uma parte aqui no blog, vale uma leitura.
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"Seria compreensível a ira de Gabrielli caso o petista houvesse demonstrado ter sido vítima de injustiça nas reportagens contra as quais vociferou. Nas poucas vezes em que apresentou argumentos em vez de impropérios, no entanto, nada do que disse passou perto de desautorizar o trabalho jornalístico nesse caso.
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O fato é que, como mostrou esta Folha na edição de terça, políticos do PT receberam neste ano R$ 2,5 milhões em doações eleitorais de cinco empresas associadas à ONG Abemi que mantêm contratos com a estatal. A Abemi, por sua vez, assinou um convênio de R$ 228,7 milhões com a Petrobras, sem licitação, para treinar 70 mil pessoas.
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Outro fato, revelado por 'O Globo' no domingo, é que a estatal transferiu ao menos R$ 31 milhões, a títulos vários, a organizações não-governamentais que apoiaram a campanha pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Detectou-se curiosa concentração dessas ações em Sergipe, onde o ex-presidente da estatal José Eduardo Dutra concorreu ao Senado, tendo sido derrotado (campanha 68% financiada por empresas que têm negócios com a petroleira estatal).
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Todas essas parcerias com organizações 'companheiras' -mais um episódio de aparelhamento do Estado que persiste, na gestão petista, como fruto da impunidade- dispensaram licitação pública. O critério adotado foi, nas palavras de Gabrielli, 'o trabalho que as ONGs fazem'.
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O dirigente da estatal acha que R$ 31 milhões são quantia irrelevante se comparada ao 'impacto' total dos mais de R$ 20 bilhões em investimentos da Petrobras. Também considera ser um exercício de 'mau jornalismo' recorrer à prestação de contas de campanha, identificar as empresas que fizeram doações ao partido governista e buscar suas relações com a Petrobras.
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O episódio ilustra o grau de desrespeito na cúpula do Executivo federal para com o direito do cidadão de saber o que é feito do seu patrimônio."
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"Você não é uma pessoa bem-vinda aqui"
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A frase é de Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, e foi direcionada ao repórter Chico Otavio, de "O Globo", durante uma entrevista coletiva no Rio. Não há mais triste frase e não há pior momento para sua vocalização. Contra tudo e contra todos, a saída e gritar com a imprensa. Na foto o que se vê é mais um petista com o dedo no rosto do jornalismo. O que se pode ouvir, com um pouco mais de cuidado, é que a imprensa não é bem-vinda dentro de uma estatal. E o governo do PT queria a transparência... pelo menos é o que foi dito por aí, num passado nem tão remoto assim. Haverá aquele que se levantará na defesa do presidente da Petrobras, argumentará que não é toda e qualquer imprensa que deveria se manter do lado de fora daquela entrevista coletiva. Para fora, apenas a tal da "imprensa marrom", nas palavras do próprio Gabrielli. Mas repito: se nada há de errado nas contas da Petrobras, melhor seria que seu presidente ficasse na defesa de sua atuação. E como toda regra tem sua exceção, este é, provavelmente, um dos casos no qual o ataque não é a melhor defesa.