sexta-feira, dezembro 22, 2006

Controladores

por Ralph J. Hofmann, no Blog Diego Casagrande
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Quanto vale um avião? Sabemos que um Aerolula vale US$ 57 milhões. Um EMB-190 vale uns US$ 29 milhões. Considerando 14 aviões no ar, controlados por um só homem estamos falando de US$ 602 milhões à mercê de um controlador. .Esse controlador é um cabo ou sargento. Ganha entre US$ 680 e US$ 1400 ao mês. O supervisor destes soldados, talvez um tenente ganhará pouca coisa mais, talvez US$ 2,000. Supervisionará uns 12 controladores, ou seja, uns 700 milhões de dólares.
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Digamos que a qualquer momento é esse o valor que uma equipe está mantendo no espaço aéreo. Significa que, independente das vidas envolvidas, essa turma manipula um patrimônio imenso, centenas de bilhões por ano.
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Em lugar de serem funcionários civis são soldados. Mão de obra baratinha. Não podem fazer greve, pois implica em quebra de hierarquia.
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Mas consideremos o que esta tranche de responsabilidade provavelmente vale numa indústria. Alguém que administra um patrimônio de US$ 600 milhões de dólares. Não que seja o primeiro executivo, sequer quem tenha uma diretoria, mas alguém que precisa mandar abrir ou fechar uma linha de produção causando problemas a vazante ou jusante do problema. Um contramestre de firma sofisticada. Nunca menos de cinco mil reais. Não para decidir sobre US$ 600 milhões.
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Vejam, sequer fui à loucura e pretendi salários estratosféricos. Falo do sujeito decente e inteligente que precisa usar sua inteligência no dia a dia. A empresa não quer que ele esteja preocupado com a prestação da casa própria, a escola das crianças ou a mamadeira do bebê.
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Até entendo que a Força Aérea tenha seus padrões para especialistas, e sabemos que não sobra dinheiro na FAB como um todo. Ela sofre contingenciamentos como outros setores.
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Mas num caso como este, não seria melhor treinar os controladores como soldados, mantê-los no serviço militar por alguns anos, promover os melhores a oficiais, mantê-los como instrutores, e depois de três quatro anos desovar a maioria para um serviço civil que seria a Infraero ou outra autoridade qualquer, mantendo-os na reserva ativa da FAB.
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O país de ora em diante vai precisar de um número crescente de controladores e administradores de vias aéreas, inclusive manutenção de equipamento. Isso é um fato que veio para ficar. E é importante que se profissionalize essa atividade. .Também devemos lembrar que o que desencadeou essa operação padrão não foi uma questão de salários. Essa entrou de roldão, mas foi uma consciência de que controladores talvez fossem pagar o pato sozinhos por erros causados por anos de obsolescência anunciada e desprezada pelas autoridades que mantém a sete chaves o dinheiro pago pelos usuários para voar em segurança.
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E finalmente o que fará um controlador de vôo insatisfeito? Pedir as contas e procurar outro emprego? Aparentemente, mas consideremos. Que empregos há no Brasil para controladores de vôo? As atuais autoridades tem o monopólio do emprego. Então o controlador vai ser vendedor, mecânico agente imobiliário, advogado ou economista? Num país em que há falta de controladores? Para a qualquer momento, numa crise a ANAC ou quem quer que venha a ser chamá-lo de sua atividade, enfiar-lhe uma farda de novo pois é da reserva e os seus ex-colegas estão numa operação padrão?
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São problemas novos. Não existiam 40 anos atrás. Precisam de jogo de cintura.