sexta-feira, dezembro 22, 2006

O massacre da verdade

Por Reinaldo Azevedo
.
Por que não botar a história no rumo, ainda que seja só para chatear comunista? O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que não se pronuncia quando profissionais da área são intimidados pela Polícia Federal, fará hoje um ato para lembrar os 30 anos do chamado “massacre da Lapa”. No dia 15 de dezembro de 1976, dois dirigentes do PC do B, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo, foram metralhados por agentes do 2º Exército nesse bairro de São Paulo. Faziam uma reunião na casa de nº 767 da rua Pio XI. Um terceiro dirigente, João Baptista Franco Drummond foi preso e morreu sob tortura no DOI-CODI. Pedro Pomar, neto de um dos mortos, lança a terceira edição do livro O Massacre da Lapa. O PC do B é o partido a que pertence Aldo Rebelo, presidente da Câmara, um dos patrocinadores do aumento indecoroso de 91% para os parlamentares. De massacre em massacre, a história do comunismo no Brasil avança...
.
Já disse o que penso sobre execuções sumárias, tortura etc. Quem as quiser defender não tem o que fazer neste blog. O metro dos que aceitam dialogar aqui são as liberdades públicas, a democracia representativa, a economia de mercado. Por isso rejeito comentários aos montes. Não me interessa dar voz a pterodáctilos ou transformar o blog num chat para petistas ficarem batendo boca, só para ver disparar o contador de comentários. Ponto parágrafo.
.
E, porque rejeito uma barbárie, não darei asas a outra. Muito menos deixo que mitificações bobocas do esquerdismo prosperem. O “massacre da Lapa” é um deles. É claro que foi um absurdo. É certo que o 2º Exército tinha como prender os dois dirigentes do PC do B. O assassinato foi pura truculência. O que não quer dizer que fossem santos. O PC do B era o partido que tentou organizar uma guerrilha no Araguaia. Queria impor o socialismo no Brasil por meio da luta armada, da violência. A história é contada como se o partido estivesse lá reunido para discutir a distribuição de cestas básicas. Sem essa.
.
Ato truculento, sim. Ato típico de uma ditadura, sim. Mas massacre, não! Os puristas se incomodam com o uso da palavra, que consideram um “galicismo”. Em seu lugar, propõem “morticínio, carnificina, matança”. Em suma: não existe “massacre” de dois. A palavra é cuidadosamente escolhida para dar asas ao imaginário do martírio. Houve dois assassinatos praticados por um Estado ditatorial contra dois dirigentes de um partido que queriam também uma ditadura, mas com sinal invertido, o que não justifica a brutalidade.
.
Ocorre que o “massacre” da verdade — o segundo sentido da palavra — continua a interessar ao proselitismo. Ao Sindicato dos Jornalistas, então, cai como uma luva.