sexta-feira, dezembro 22, 2006

Lula sempre opta pelo meio-termo

Por Kennedy Alencar
Colunista da Folha Online

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"Na dúvida, sempre aposte que o Lula vai escolher o meio-termo", assim um dos ministros mais próximos de Luiz Inácio Lula da Silva resumiu no início de 2003 qual seria o processo de decisão do presidente da República que acabara de chegar ao Palácio do Planalto. Desde então, batata.
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Em consonância com a tradição sindical, Lula adora uma mesa de negociação. E acha que a boa solução é a que está no meio do caminho. Isso é verdade em alguns casos, mas pode ser desastroso noutros. Denota certo comodismo, até mesmo conservadorismo.
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Lula também é vítima de freqüentes recaídas voluntaristas. Antonio Palocci Filho, que precisava convencê-lo cotidianamente do rumo econômico adotado quando o PT assumiu o poder central, sabe muito bem disso. Hoje, Palocci está fora do governo. E Lula quase cedeu à tentação de encontrar alguma mágica na economia. Exemplo: pensou em trocar a diretoria do BC numa tacada.
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Mas recuou. Ao longo da série de reuniões para discutir as medidas econômicas que deseja implementar no segundo mandato, Lula foi abandonando o tom voluntarista e incorporando uma visão mais moderada.
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Dificilmente errará quem apostar que o pacote econômico será uma combinação de "desenvolvimentismo" e "monetarismo", para usar duas generalizações que acabaram sintetizando porcamente as posições de grupos em conflito no governo e na sociedade.
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A inflexão da política econômica começou no final de 2005, acertada por Lula com o então ministro Palocci. Neste ano, houve uma expansão de gastos premeditada para vitaminar o projeto reeleitoral do presidente. Deu certo. Em 2007, Lula puxará o freio, garantindo algumas válvulas de escape.
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É melhor do que optar pelo voluntarismo, sobretudo se ele for turbinado pelo despreparo de auxiliares que se mostram ineficientes no gerenciamento do governo e na formulação da política econômica. No entanto, é pouco para um país como o Brasil.
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O desastre parece que será evitado. Isso é bom. Pena que talvez seja sinal de mais uma oportunidade perdida.
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Explicando: como poucos líderes em nossa história, Lula tem todas as condições políticas e simbólicas de bancar uma modernização capitalista. No entanto, dificilmente a fará. É algo que exigiria a adoção de medidas impopulares no curto prazo que só seriam reconhecidas como necessárias e positivas no futuro distante, na hipótese, óbvia, de darem certo. Enfrentar a questão fiscal de vez, como feito com a inflação, seria a primeira dessas medidas.
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Mas o bendito meio-termo acaba contribuindo para que o país resolva seus problemas quase sempre pela metade. Enquanto isso, as gerações passam.
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Pegou mal
Causou estranheza no Palácio do Planalto a notícia de que o atual secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg, já tenha arrumado emprego na iniciativa privada ainda no exercício do cargo.
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Inteligente, o jovem Goldberg dirigirá a área de aquisições e fusões do Morgan Stanley no Brasil a partir do ano que vem.