terça-feira, janeiro 09, 2007

ENQUANTO ISSO...

Em São Paulo um terreno de 180 milhões
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É o negócio do ano na área imobiliária. Acaba de ser batido o martelo para a venda do terreno de 12.000 metros quadrados na esquina da Avenida Paulista com a Rua Pamplona, local da antiga mansão do conde Francisco Matarazzo, onde hoje funciona um estacionamento. Localizado numa das áreas mais valorizadas de São Paulo, o terreno estava à venda havia mais de dez anos, mas uma briga envolvendo cinco herdeiros da família Matarazzo dificultava a operação. Um grupo de empreendedores portugueses arrematou o espaço por 180 milhões de reais.
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Enquanto isso...
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O desempregado de R$ 2 bilhões
Por Rodrigo Rangel – Tatuí (SP)
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Francisco Nunes Pereira, 44 anos, mora em cima de uma garagem na periferia de Tatuí, no interior de São Paulo. Franzino e reservado, é conhecido como Mineirinho. Casado e pai de dois filhos, pouco circula pelas ruas da cidade.
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Quando sai de casa, está sempre atrás do volante de um modesto Gol vermelho com mais de sete anos de uso, carrega uma pequena pasta preta e surradas roupas sociais. Normalmente, é visto levando a filha caçula para a escola. Emprego, ele não tem. Foi um pequeno empresário, mas na cidade o que informam é que ele faliu há cerca de dez anos. Muitos de seus ex-funcionários estão até hoje sem receber os direitos trabalhistas.
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Aparentemente, trata-se de um cidadão como milhares de brasileiros. Na verdade, porém, a história de Mineirinho esconde um mistério que vem desafiando as autoridades financeiras e tributárias do País. À Receita Federal, ele declara ser dono de R$ 2.358.845.398,72, em dinheiro vivo. Isso mesmo: mais de dois bilhões de reais, ou US$ 1,1 bilhão. No ranking das maiores fortunas brasileiras, o homem desempregado de Tatuí estaria em 16º lugar, ombro a ombro com Constantino Júnior, dono da Gol Linhas Aéreas.
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Por conta da cifra monumental, Mineirinho é alvo de investigações simultâneas na Polícia Federal, no Ministério Público e na Receita. Ele não costuma freqüentar restaurantes nem mesmo o clube do pequeno município paulista. E, para fazer jus ao apelido, pouco fala. “O dinheiro é meu. Não tenho mais nada a declarar”, disse rapidamente quando abordado pela equipe de ISTOÉ. Não há registros que ele tenha alguma vez tirado a sorte grande nas loterias e, oficialmente, os documentos já levantados pelas investigações mostram Mineirinho como sócio ou representante legal de um pool de sete empresas, todas de fachada – dessas que existem apenas nos registros cartoriais. Há até uma seita evangélica, a Igreja de Culto ao Senhor Supremo, que não funciona.
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Os principais “negócios” de Francisco têm como endereço o acanhado sobrado onde ele mora. É lá, por exemplo, que deveriam funcionar a tal igreja, registrada no Fisco em abril do ano 2000, uma construtora e uma agropecuária. Em nome de Francisco também há uma imobiliária, uma fábrica de cerâmica e uma central de reciclagem de lixo. E ainda uma mineradora, que seria sediada em Brasília.
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Os responsáveis pela investigação sobre a suposta fortuna de Mineirinho trabalham com algumas hipóteses. Uma delas aponta para a possibilidade de Mineirinho estar apenas emprestando o nome para o verdadeiro dono do dinheiro, que provavelmente teria origem em caixa 2. Em outra, os investigadores seguem a suspeita de que os R$ 2 bilhões possam ser produto de sobras bancárias. Centavos remanescentes de contas extintas, somados, teriam virado a fortuna e, por alguma tramóia financeira, ido parar na conta corrente dele. Os papéis com a descrição detalhada das contas de Mineirinho chegaram à PF e ao Ministério Público Federal no final do ano passado. Na declaração de renda de 2005, ele informou ser o dono de duas aplicações em CDB no Banco do Brasil. Uma delas de R$ 1.378.599.526,85. A outra, de R$ 899.322.699,36.
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Na vida real Mineirinho é um sujeito muito aquém da realidade virtual demonstrada nos documentos. Ele, na verdade, costuma emitir cheques sem fundos, tem diversos títulos protestados e empurra com a barriga a negociação de diversas dívidas. Nivaldo Machado, 48 anos, desempregado, por exemplo, guarda até hoje um cheque de R$ 163, sem fundos, que lhe foi repassado pelo bilionário em 1997. “Até hoje não recebi nada”, lamenta.