quarta-feira, janeiro 17, 2007

Globalização não explica perda de emprego

Will Hutton
.
Mencione a palavra globalização e uma estranha névoa que impede o raciocínio lógico desce sobre o pensamento. Agora é uma certeza por parte da direita e da esquerda que bilhões de trabalhadores mal pagos vão levar embora os empregos ocidentais e transformar em luxos inacessíveis os níveis de bem-estar social e de tributação europeus. As únicas opções são a proteção ao comércio ou uma luta Darwiniana de baixa tributação e baixo bem-estar social para o extermínio - equipados com seja qual for a educação e o treinamento que possamos obter. Todos nós temos de aceitar nosso destino.
.
O problema é que este nexo de certezas está errado. A globalização e comércio têm aumentado em muito o bolo econômico do mundo e nossas opções econômicas em vez de estreitá-las. O problema é que uma parte muito grande do mundo é um espectador excluído, porque as regras do jogo tendem maciçamente em favor do Ocidente. É um equívoco alarmista e totalmente contraproducente culpar os estrangeiros pelos nossos problemas.
.
Mesmo a China, retratada como a Nova Grande Coisa Ameaçadora, não tem conseguido mudar as regras. Cerca de 60% de suas exportações, quase todas suas exportações de alta tecnologia e mais da metade de suas patentes vêm de empresas estrangeiras. Em essência, é uma sub-prestadora de serviços para o Ocidente, elevando os lucros de nossas multinacionais e o rendimento real de nossos consumidores.
.
A China não tem uma única marca entre as 100 maiores do mundo, apesar da previsão de que vai se tornar a maior exportadora mundial em 2008. A compra do Rover e a expedição de parte da fábrica de volta à China foram encaradas como um ato de força, mas, na verdade, foi um ato de desespero econômico. Por emprestar US$ 200 bilhões ao ano para financiar o déficit comercial dos EUA, a China sustenta o domínio internacional do dólar. Nos escalões superiores do partido comunista e no conselho estatal há um debate atormentado sobre por que tantas mercadorias são feitas 'na China' e não 'pela China' e por que a inovação autóctone é tão desastrosa. Em 1995, a China estabeleceu como objetivo ter 50 empresas entre as 500 principais multinacionais do mundo em 2010. Terá sorte se tiver alguma.
.
Os sub-prestadores de serviços tendem a ter um impacto limitado sobre o emprego de prestadores de serviços. A China é uma prova disso. O instituto de consultoria e pesquisa mais linha dura e protecionista dos Estados Unidos é o Economic Policy Institute. A entidade acredita que as importações chinesas custaram os 2,24 milhões de empregos dos EUA entre 1989 e 2005, mas que produziram um total de empregos no decorrer do mesmo período superior a 400 milhões.
.
O impacto da transferência de empresas para outros países, que provoca tanta virulência por parte da esquerda americana, é ainda menor. O levantamento realizado pelo Departamento de Mão-de-Obra dos Estados Unidos sobre demissões em massa identificou a perda de 884 mil empregos em 2005, dos quais 12.030 foram para o exterior - dois terços deles para China e México. Na Grã-Bretanha, a situação é parecida. De abril de 2003 a julho de 2006, perdemos 390 mil empregos, mas somente 19 mil deles foram para o exterior. Uma unidade da TUC (Trades Union Congress - Confederação de Sindicatos de Trabalhadores na Grã-Bretanha), criada há quatro anos para monitorar a transferência de empregos para o exterior, fechou porque há muito pouco a monitorar.
.
O motivo é simples. A manufatura representa apenas uma pequena parcela do valor de qualquer mercadoria - existe a invenção, o desenho, financiamento, marketing, transporte, armazenamento, publicidade - e mesmo os custos dos salários não são decisivos. Um trabalhador chinês pode ganhar 4% do salário de um trabalhador americano ou britânico, mas é apenas 4% tão produtivo. A firma de consultoria McKinsey, por exemplo, avalia que apenas um quarto dos engenheiros indianos e um décimo dos engenheiros chineses estão preparados para trabalhar em multinacionais. Num levantamento feito pela McKinsey da Califórnia, a poupança resultante da transferência de fábricas para a China variou de 13% no ramo têxtil a ínfimos 0,6% em empresas de alta tecnologia. Portanto, a mão-de-obra barata não é tudo.
.
As empresas ocidentais ainda conseguem competir com empresas asiáticas que pagam baixos salários, como confirmou um estudo com 500 multinacionais realizado por Susan Berger, do Massachusetts Institute of Technology. Elas tendem a ser mais bem organizadas e encaixadas em redes institucionais melhores.Segundo conclui Peter Lindert, da Universidade da Califórnia, a globalização não prejudica a capacidade do mundo industrializado de manter seu status de bem-estar social. Ao contrário, o alto dispêndio social bem direcionado é bom para o crescimento. A riqueza gera riqueza, pois surgem novas formas de atividade econômica impulsionadas por uma conjunção de consumidores mais criteriosos, mais instruídos e abastados querendo novos serviços sofisticados que as empresas ocidentais estão mais capazes de fornecer por meio de novas tecnologias - embora precisem estar fisicamente próximas de seus mercados. Esta é a economia do conhecimento.
.
Tanto a rede de instituições que a suportam quanto a necessidade de proximidade do mercado tornam as economias ocidentais menos vulneráveis à globalização. Os Estados Unidos são os líderes mundiais em tecnologia, marcas, universidades e patentes. Na Grã-Bretanha, o programa de economia do conhecimento da Work Foundation (Fundação do Trabalho), da qual sou diretor-presidente, descobriu que as exportações de serviços baseados no conhecimento triplicaram de 1995 a 2005, enquanto o emprego baseado no conhecimento teve uma elevação dos 30% em 1990 para 41% hoje em dia.
.
Para os países menos desenvolvidos, isso parece um círculo mágico no qual está cada vez mais difícil penetrar. Mesmo que a China não seja mais do que uma sub-prestadora de serviços para a economia de conhecimento do Ocidente, que chance há de escapar dessa chave de braço ocidental no processo? E, mesmo assim, o Ocidente está histericamente convencido de que é o perdedor - motivo para o colapso da rodada de negociações comerciais de Doha e da existência de não menos de 20 projetos de lei contra o comércio com a China no Congresso americano.
.
O argumento é falso seja por que ângulo você olhar. O aumento da desigualdade não é provocado pela competição dos baixos salários que estão empurrando os salários para o fundo, nem pelos salários mais altos pagos aos mais capacitados. O que mudou foram os novos super-ricos. Ian Dew-Becker e Robert Gordon, da Northwestern University, mostram que, nos Estados Unidos, os rendimentos de uma parcela mínima calculada em 0,01% da população cresceram exorbitantemente, chegando a 497% entre 1979 e 2002. Esta é a principal causa da desigualdade americana.
.
O mesmo ocorre na Grã-Bretanha - há 20 anos, um diretor-presidente médio das 100 empresas mais importantes publicadas no Financial Times ganhava 25 vezes o salário médio de um trabalhador. Hoje, é 120 vezes maior.
.
A China não é a culpada. Desenvolveu-se na Grã-Bretanha e nos EUA uma cultura empresarial na qual o preço da ação é tudo e a finalidade de tudo. Sob governanças corporativas desesperadamente fracas e desatualizadas, os diretores-presidentes têm redigido seus próprios contratos de salários.
.
Para que o preços das ações fiquem mais altos, embarcaram no maior surto de aquisições do mundo. Em dinheiro vivo, o valor acumulado das transações nos EUA entre 1995 e 2005 foi superior a US$ 9 trilhões. Na Grã-Bretanha, nos últimos três anos, o valor das transações foi a não menos impressionante quantia de 500 bilhões de libras. Essa é a causa principal da perda de emprego e da diminuição do tamanho das empresas - geralmente, por ganhos de produtividade insignificantes.
.
Os fatores que se opõem a essa situação - regulamentação, um senso de propriedade de longo prazo, escrutínio da mídia, normas de concorrência, sindicatos patronais fortes e uma crença na igualdade - vêm sendo progressivamente enfraquecidos. O capitalismo ocidental está perdendo seu equilíbrio inerente, sua moralidade e, em última análise, sua legitimidade.