quarta-feira, janeiro 17, 2007

No país de Hugo Chávez

por Paulo Moreira Leite, Estadão Online
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Popular, com muito dinheiro no bolso, Hugo Chávez é o senhor da situação na Venezuela. Ele fez um juramento em nome de “patria, socialismo ou morte” e tem repetido a frase em outras oportunidades. Num mundo de políticos cheios de segundas e terceiras intenções, Chávez tem aquela esperteza de sempre dizer o que pensa. Não se adapta ao interlocutor, por mais poderoso que seja, nem ao ambiente, por mais que lhe seja hostil. Estive duas vezes com o presidente da Venezuela, em 1999 e 2001. Foram conversas longas, que se transformaram em entrevistas. Obviamente ele não disse tudo o que pensa. Mas não fugiu de perguntas e nunca disse alguma frase que pudesse prejudicá-lo desnecessariamente.
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Por mais que muitos intelectuais aliados digam que seu boliviarianismo se transformou em socialismo, eu acho que ele sempre soube o que pretendia e qual era seu projeto. Participou de estudos marxistas já na adolescência. É um militar que se preparou durante anos para a tomada do poder, numa atividade permanente, regular e clandestina. A ótima biografia “Chávez sem Uniforme” mostra que ele nunca deixou de conspirar. Quando considerou que sua hora havia chegado, tentou um golpe de Estado. Depois, a via eleitoral. Não esconde que adora o poder e irá conservá-lo enquanto achar que é possível. Não tem pudores de usar o petróleo em benefício de suas idéias nem acha que isso seja errado.
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Se a legislação permite não renovar o registro de uma emissora, a RCTV, que não dá trégua ao governo em nenhum minuto do noticiário, Chávez não perderá esta ooportunidade. É justo informar ao público que o noticiário da RCTV, as entrevistas que realiza e o tom de seus comentários envolvem um grau de liberdade e mesmo agressividade que nunca se viu, por exemplo, nas emissoras brasileiras, em qualquer época, para criticar qualquer governo. A Constituição garante a liberdade de expressão como um direito universal e eu acho que não cabe a nenhum governo dirigir o conteúdo de qualquer emissora, até porque as concessões não foram criadas para serem manipuladas politicamente.
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Construindo seu governo em sintonia fina com os acontecimentos, Chávez não abre mão de um milímetro de seu poder e é implacável para tirar proveito dos erros de uma oposição de baixíssima octanagem democrática. Se os adversários boicotaram as eleições legislativas e lhe entregaram 100% dos votos no parlamento até 2010, o problema não é do governo – que mudará o nome do país, já fez nova bandeira e pretende reformar a própria Constituição que havia refeito. O risco, obviamente, é aprovar na Assembléia Nacional uma legislação fora da realidade. O ano de 2007 teve início com propostas de mudança no regime de trabalho. O Partido Comunista fala em criar um regime de “controle operário” nas empresas. O Ministério do Trabalho tem discutido idéias semelhantes. Na prática, significa entregar a direção de empresas privadas aos assalariados. Não imagino de que forma as grandes multinacionais instaladas no país poderiam conviver com esse regime, que muda a natureza do negócio – em vez de atuar para os acionistas, passariam a cumprir, prioritariamente, planejamento dos empregados.
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Chávez é um caso talvez único no mundo de quem anuncia uma revolução com muito dinheiro no bolso. Depois de subir regularmente nos últimos anos, o petróleo venezuelano caiu de U$ 63 para U$ 46 de agosto para cá. Embora alguns adversários digam que Chávez seria incapaz de fazer gastos de acordo com as receitas mesmo que o barril chegasse a U$ 100, acredita-se que o conjunto de sua política econômica entraria em risco se caisse para menos de U$ 36. Não se imagina que isso possa ocorrer – até onde a vista alcança. Nessa situação, poderá pagar as contas, investir, distribuir riqueza e estimular o consumo – num nível gigantesco e inédito, onde troca-se petróleo por automóveis, roupas de grife e bens de natureza de diversa, como se vê no comércio de Caracas.
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O risco de seu governo não é a economia, mas a política – que pode criar um ambiente tão hostil aos negócios que acabe destruindo uma prosperidade de causar inveja em qualquer pessoa que visita o país.