Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
A Força de Segurança Nacional chega ao Rio nas próximas horas. Soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica patrulham os quarteirões próximos de seus quartéis e até se preparam para a guarda dos edifícios públicos federais, na antiga capital. Os serviços de inteligência das polícias dos estados do Sudeste integram-se, na medida do possível.
Delegacias civis e estabelecimentos da Polícia Militar redobram a proteção de suas instalações, enquanto policiais fardados ou não patrulham as ruas como jamais aconteceu. Bandidos de alta periculosidade, já condenados, são transferidos para presídios de segurança máxima em outros estados. Até as milícias particulares, nas favelas, aumentam o diapasão de sua truculência. Adianta alguma coisa?
Infelizmente, muito pouco. Porque a garantia da segurança pública não se localiza nas forças de repressão. Reside nos bandidos, ou melhor, na supressão deles, que há duas semanas intranqüilizam e martirizam a população fluminense. Um só desses celerados que seja, disposto a barbarizar, assassinar, seqüestrar, roubar ou queimar ônibus, desfaz todo o aparato montado pelos governos estadual e federal.
Porque não dá para designar um policial para vigiar cada cidadão que, sem o rótulo de bandido na testa, anda pelas ruas e avenidas do Rio.
Solução amarga
A solução real, ainda que amarga, está em anular o criminoso, se é para refluir o crime. Em outras palavras, depois de identificado e preso, o animal não deve mais ser posto fora da jaula. A lei precisaria isolar por completo os autores de crimes hediondos como os acima referidos.
Sem contemplação, torna-se necessário impedir que recebam visitas, a começar pelas íntimas, comida especial, falem pelos telefones celulares, comuniquem-se uns com os outros e se beneficiem dos favores de uma legislação supostamente voltada para os direitos humanos, mas, por infelicidade, esquecida dos direitos humanos do brasileiro comum. Torna-se necessário que o poder público seja implacável, mesmo sob o risco de aqui e ali cometer excessos e injustiças.
Trata-se de uma situação excepcional, porque não estamos em Berna, na Suíça, nem em Otawa, no Canadá. Um dia chegaremos lá, mas estamos muito mais para China do que para Primeiro Mundo, e a China nos dá lições, excluída, é claro, aquela da pena de morte. Quem descumpre a lei, nesse novo paraíso do capitalismo mundial, vai para a cadeia e fica nela para sempre. Ou quase isso.
Décadas atrás, em viagem àquele país, espantei-me até a indignação quando o diretor de um presídio mostrou a um grupo de jornalistas uma ala onde estavam os prisioneiros que ainda seriam julgados. O regime deles era igual ao dos condenados: isolamento, trabalho obrigatório e nenhum benefício. Indaguei o porquê daquela pretensa crueldade, pois não tinham sido condenados, poderiam ser inocentes.
Resposta: "Pois se vão ser julgados, é porque merecem ser condenados..." Dá vontade de ver aplicada essa máxima por aqui, sobre quantos se vêem flagrados praticando crimes hediondos e recebem privilégios. Mesmo depois de condenados. Acontecessem por aqui os fatos que ainda hoje acontecem na China e concluiríamos que os nossos bandidos, antes de tornar-se bandidos, pensariam duas vezes e optariam por buscar emprego honesto.
Não por humanidade nem por bons propósitos, mas por pavor do que lhes poderia acontecer. As penas, como dizem os doutos, servem para reparar o passado. Mas também precisam servir para prevenir o futuro...
Vazio
Brasília não anda deserta apenas de homens, tendo em vista a ausência de deputados, senadores, ministros dos tribunais superiores, ministros do governo, altos funcionários públicos, alunos, professores e empresários. O grave é que a capital federal também continua um deserto de idéias. Qual o plano que o velho governo recém-empossado dispõe para enfrentar os próximos quatro anos? Caíram no vazio os discursos do presidente Lula no dia da posse. Foram exortações retóricas, promessas sem garantia de realização.
Porque o natural seria a divulgação de um elenco de propósitos efetivos do que fazer para alcançar o crescimento econômico e ampliar as realizações sociais. Continuamos sem conhecer os tais planos para mudar o País. Festejam as elites a impressão de que tudo continuará como antes, ou seja, benesses para o capital especulativo, enquanto os bobos dedicam-se apenas, a saber, quem será o novo presidente da Câmara e que ministérios serão destinados a esses ou àqueles partidos.
Sem saber, por exemplo, quem ocupará o Ministério da Integração Nacional, dá para imaginar como será o desvio das águas do Rio São Francisco?
Há um problema ainda mais grave: depois que Suas Excelências retornarem, na próxima semana, brotará do chão esse programa nacional, que deveria ser muito maior do que o anunciado, mas ainda desconhecido Plano de Aceleração do Crescimento? Quem quiser que se engane, mas, pelo jeito, continuará tudo como antes. Poder ser um malicioso prelúdio para o terceiro mandato, já que o segundo, salvo engano, será igual ao primeiro...
A Força de Segurança Nacional chega ao Rio nas próximas horas. Soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica patrulham os quarteirões próximos de seus quartéis e até se preparam para a guarda dos edifícios públicos federais, na antiga capital. Os serviços de inteligência das polícias dos estados do Sudeste integram-se, na medida do possível.
Delegacias civis e estabelecimentos da Polícia Militar redobram a proteção de suas instalações, enquanto policiais fardados ou não patrulham as ruas como jamais aconteceu. Bandidos de alta periculosidade, já condenados, são transferidos para presídios de segurança máxima em outros estados. Até as milícias particulares, nas favelas, aumentam o diapasão de sua truculência. Adianta alguma coisa?
Infelizmente, muito pouco. Porque a garantia da segurança pública não se localiza nas forças de repressão. Reside nos bandidos, ou melhor, na supressão deles, que há duas semanas intranqüilizam e martirizam a população fluminense. Um só desses celerados que seja, disposto a barbarizar, assassinar, seqüestrar, roubar ou queimar ônibus, desfaz todo o aparato montado pelos governos estadual e federal.
Porque não dá para designar um policial para vigiar cada cidadão que, sem o rótulo de bandido na testa, anda pelas ruas e avenidas do Rio.
Solução amarga
A solução real, ainda que amarga, está em anular o criminoso, se é para refluir o crime. Em outras palavras, depois de identificado e preso, o animal não deve mais ser posto fora da jaula. A lei precisaria isolar por completo os autores de crimes hediondos como os acima referidos.
Sem contemplação, torna-se necessário impedir que recebam visitas, a começar pelas íntimas, comida especial, falem pelos telefones celulares, comuniquem-se uns com os outros e se beneficiem dos favores de uma legislação supostamente voltada para os direitos humanos, mas, por infelicidade, esquecida dos direitos humanos do brasileiro comum. Torna-se necessário que o poder público seja implacável, mesmo sob o risco de aqui e ali cometer excessos e injustiças.
Trata-se de uma situação excepcional, porque não estamos em Berna, na Suíça, nem em Otawa, no Canadá. Um dia chegaremos lá, mas estamos muito mais para China do que para Primeiro Mundo, e a China nos dá lições, excluída, é claro, aquela da pena de morte. Quem descumpre a lei, nesse novo paraíso do capitalismo mundial, vai para a cadeia e fica nela para sempre. Ou quase isso.
Décadas atrás, em viagem àquele país, espantei-me até a indignação quando o diretor de um presídio mostrou a um grupo de jornalistas uma ala onde estavam os prisioneiros que ainda seriam julgados. O regime deles era igual ao dos condenados: isolamento, trabalho obrigatório e nenhum benefício. Indaguei o porquê daquela pretensa crueldade, pois não tinham sido condenados, poderiam ser inocentes.
Resposta: "Pois se vão ser julgados, é porque merecem ser condenados..." Dá vontade de ver aplicada essa máxima por aqui, sobre quantos se vêem flagrados praticando crimes hediondos e recebem privilégios. Mesmo depois de condenados. Acontecessem por aqui os fatos que ainda hoje acontecem na China e concluiríamos que os nossos bandidos, antes de tornar-se bandidos, pensariam duas vezes e optariam por buscar emprego honesto.
Não por humanidade nem por bons propósitos, mas por pavor do que lhes poderia acontecer. As penas, como dizem os doutos, servem para reparar o passado. Mas também precisam servir para prevenir o futuro...
Vazio
Brasília não anda deserta apenas de homens, tendo em vista a ausência de deputados, senadores, ministros dos tribunais superiores, ministros do governo, altos funcionários públicos, alunos, professores e empresários. O grave é que a capital federal também continua um deserto de idéias. Qual o plano que o velho governo recém-empossado dispõe para enfrentar os próximos quatro anos? Caíram no vazio os discursos do presidente Lula no dia da posse. Foram exortações retóricas, promessas sem garantia de realização.
Porque o natural seria a divulgação de um elenco de propósitos efetivos do que fazer para alcançar o crescimento econômico e ampliar as realizações sociais. Continuamos sem conhecer os tais planos para mudar o País. Festejam as elites a impressão de que tudo continuará como antes, ou seja, benesses para o capital especulativo, enquanto os bobos dedicam-se apenas, a saber, quem será o novo presidente da Câmara e que ministérios serão destinados a esses ou àqueles partidos.
Sem saber, por exemplo, quem ocupará o Ministério da Integração Nacional, dá para imaginar como será o desvio das águas do Rio São Francisco?
Há um problema ainda mais grave: depois que Suas Excelências retornarem, na próxima semana, brotará do chão esse programa nacional, que deveria ser muito maior do que o anunciado, mas ainda desconhecido Plano de Aceleração do Crescimento? Quem quiser que se engane, mas, pelo jeito, continuará tudo como antes. Poder ser um malicioso prelúdio para o terceiro mandato, já que o segundo, salvo engano, será igual ao primeiro...