Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
O presidente Lula ligou para um velho senador do PMDB:
- Senador, aqui é o presidente Lula.
- Estive com ele ontem.
O presidente Lula ligou para um velho senador do PMDB:
- Senador, aqui é o presidente Lula.
- Estive com ele ontem.
Lula levou um susto, desligou e comentou:
- Essa reforma do ministério está deixando todos eles malucos.
Tapete azul
Esta história, contada aqui em São Paulo por um deputado do PMDB, é o retrato do balé da insensatez que virou a reforma ministerial deste o começo do segundo governo Lula. O PMDB já conseguiu o que os generais não conseguiram: pôr para brigar os tapetes azul (Senado) e verde (Câmara) do Congresso.
Até há pouco, o PMDB sempre se dividia em governistas e oposicionistas. Agora, disputam quem vai vender melhor e receber mais pelo apoio ao governo.
São os "velhos" (senadores) de um lado e os "novos" (deputados) do outro.
Os senadores do PMDB, comandados por Sarney e Renan, já têm dois ministérios: Minas e Energia (Rondeau, indicado por Sarney) e Comunicações (Helio Costa, apoiado por Sarney e Renan, mas indicado de fato pela TV Globo).
Tapete verde
Mas Renan, reeleito presidente do Senado com uma vitória além do que esperava, quer o ministério dele: Saúde. Com o governador e ex-senador Sergio Cabral, indicaram o prestigiado médico carioca José Temporão.
Do outro lado do tapete azul, os deputados do PMDB se indignaram. Lula já disse que o PMDB terá quatro ministérios: já tem dois, ganhará mais dois. Logo, se os senadores já têm dois ministérios do partido, os outros dois terão que ser dos deputados. E querem que sejam deputados e não indicados pelos deputados.
Candidatos não faltam: Eunicio de Oliveira (presidente do PMDB do Ceará) e Geddel Vieira Lima (presidente do PMDB da Bahia) saíram na frente. No Ceará e na Bahia, ambos apoiaram e ajudaram a decidir as surpreendentes vitórias de difíceis candidatos do governo: Cid Gomes (PSB) e Jaques Wagner (PT).E Renan, como fica? Logo a maior liderança sem seu ministério? Esta é a dinamite que o PMDB pôs embaixo da cadeira de Lula. E pode explodir.
Jobim e Michel
Aliás, já começou. Como ministério é decisão de Lula, e pode ir sendo adiada ao infinito, os "velhos" (senadores) e os "novos" (deputados) resolveram antecipar a guerra interna numa briga que depende deles: a presidência do PMDB.
Sarney, Renan, Romero Jucá (líder do governo no Senado), Jader Barbalho (deputado, mas que joga no time dos senadores, porque acha mais rentável) acabam de lançar a candidatura do ex-ministro Nelson Jobim para presidir o partido, na convenção que deve realizar-se ainda em março.
Os deputados reagiram imediatamente: Michel Temer, que andava periclitante, por estar há muito tempo na presidência, já é candidato a mais um mandato, com apoio da grande maioria dos 91 deputados do partido.
O que senadores e deputados andam dizendo de um candidato e de outro o Ministério da Justiça só recomenda para depois das 24 horas. O mínimo que senadores falam de Michel é que é um "artista": mesmo quando fingindo de oposição, está sempre com todos os governos. Os deputados respondem que, numa crise ética como esta, o partido não pode ser entregue a Jobim, o "rei dos lobistas".
Breve, os próximos capítulos. Se os atores saírem vivos das filmagens.
Tancredo e Fidel
Tão distantes na vida, tão próximos na desventura. Renomado médico aqui de São Paulo me conta que o drama vivido hoje por Fidel Castro é exatamente o mesmo que há 22 nos matou Tancredo Neves. A doença, quase banal: diverticulite. Não é câncer, não mata. Uma operação segura, feita a tempo, resolve o problema.
Mas, às vezes (e infelizmente tantas vezes), se a doença não mata, hospital mata. Foi a infecção hospitalar que vitimou Tancredo no Hospital de Base de Brasília. Não adiantaram sete operações depois. O mal já estava feito, irreversível.
O que aconteceu precisamente com Fidel só se saberá um dia, depois que ele morrer (ou mandar fuzilar os que quase o matam). Mas é certo que houve uma barbeiragem na operação de diverticulite, já seguida por mais duas. Como também não é câncer e parece que as operações posteriores o salvaram, só resta esperar.
José Bonifácio
O Panteão da Pátria, aquele, como todos, simples e belo edifício de Niemeyer na Praça dos Três Poderes, em Brasília, à direita do Supremo Tribunal, esconde homenagens históricas ainda muito mal contadas à população, que pouco sabe dele.
Ali ficam "entronizados" brasileiros mortos há mais de 50 anos que a Câmara Federal considerar "herói da Pátria". Até agora, são 9: Tiradentes, Pedro I, Zumbi, marechal Deodoro, almirantes Barroso e Tamandaré, duque de Caxias, Santos Dumont e Placido de Castro, o verdadeiro herói da epopéia do Acre, que a belíssima série "Amazônia", de Gloria Perez, está contando, e não Galvez ou Rio Branco.
Agora, a Câmara Federal já aprovou e, no aniversário de Brasília este ano, será inscrito no Panteão o 10° "herói da Pátria", o "nacionalista e patriota" (dois adjetivos hoje amaldiçoados pelos "vendilhões da Pátria"), José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca da Independência e autor, numa proposta na Constituinte de 1823, do nome "Brasília" para a "capital da Nação no Planalto Central".