quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Terror crescente

Xico Vargas, NoMínimo

A crueldade que levou ao assassinato do menino João Hélio Fernandes Vieites foi apresentada ao carioca há cerca de 25 anos. As primeiras páginas dos jornais de um domingo cobriram-se de horror com a descoberta de um corpo de homem jogado num fundo de lixeira de favela, em Bangu. Ali a população descobriu que a violência da cidade tomara da vida a importância de bem supremo. No lixo, valia tanto quanto um papel de bala.

Como todos os assuntos sobre os quais não se descobrem novidades, também aquele episódio cedeu lugar nas primeiras páginas e, mais adiante, caiu na vala comum que traga as notícias de pouca relevância. É assim que funciona. Com cada vez menos impacto, nos meses e anos seguintes incontáveis assassinatos, guerras de quadrilhas, chacinas e execuções encomendadas coalharam de cadáveres as ruas do Rio.

Aceitou-se a tal ponto a banalização da vida (ou seria da morte?) que as autoridades de segurança chegaram a criar nas estatísticas a figura do encontro de cadáver, para registrar os mortos abandonados em malas de automóveis, ribanceiras, cemitérios clandestinos nos morros e até em banheiros de shopping da Zona Sul. Tentou-se, com isso, fingir que a coluna homicídios, de ano para ano, não crescia tanto quanto os números insistiam em apontar.

Ao lado das cifras, a cada modalidade nova e de renovada violência, mais comoção e igual banalização. Foi por essa trilha larga que chegamos às repetidas chacinas e aos ônibus incendiados. Logo os tivemos queimados com os passageiros dentro. No primeiro, em grande sobressalto, crivamos os jornais pendurados nas bancas com olhares de incredulidade. O segundo, há coisa de um mês, já recebemos como algumas tragédias que a vida nos impõe.

Ao longo desse quarto de século, desde que a vida foi jogada no lixo aos olhos da população inteira, aceitamos que os governos, a polícia, a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, continuassem os mesmos. Como se a degradação das cidades e do índice de desenvolvimento humano seguisse o curso do envelhecimento das gerações.

Como num roteiro em que o terror crescente tem como objetivo manter o espectador preso à ação, o crime no Rio experimenta em graus variados de barbárie o limite da tolerância da sociedade. A nova fronteira é o trucidamento de João Hélio. Até agora reagimos a ele como os crédulos da Idade Média diante das bruxas: grupos passaram a apedrejar a casa da família de um dos animais que o mataram. A ninguém ocorreu que há lugares no mundo onde existe temor à lei e às pessoas de bem. O que essas sociedades têm que nós não temos?