quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Por que o cinto de João Hélio não soltou?

Fritz Utzeri, jornalista, Jornal do Brasil

Se o caso João Hélio tivesse ocorrido nos EUA, as exigências de quem quer sangue por sangue já estariam atendidas e dificilmente os criminosos (mesmo o "Dimenor") escapariam da pena de morte.

Mas já que estamos falando de Estados Unidos, lá haveria outro tópico em debate, totalmente ignorado entre nós até agora, e o fabricante do carro da mãe do menino assassinado estaria na berlinda. Trata-se do cinto de segurança. Os norte-americanos iam querer saber por que o cinto não abriu. Alegarão os fabricantes que a situação de pânico do menino e da mãe, face ao assalto cruel, impediram a abertura do cinto e levaram à morte brutal do garoto.

Mas a pergunta é justamente essa. Abrir o cinto quando se chega em casa, tranqüilamente, não é problema. Mas em circunstâncias de perigo, após um acidente, durante um incêndio no veículo ou roubo, essa poderá ser (como foi) a diferença entre vida e morte. No carro dos pais do menino (um modelo 2006), há três cintos no banco de trás. Os das portas são de três pontos e o do meio é abdominal. Consta que o menino estava preso por esse cinto, logo estava sentado no meio do banco traseiro. Cintos de segurança têm salvo a vida de milhões de pessoas evitando que elas sejam projetadas do carro em caso de acidente.

No caso de João Hélio, o cinto permitiu que ele fosse arrastado e despedaçado fora do carro, apesar de estar usando (segundo o noticiário) o cinto abdominal do meio do banco. Onde o cinto ficou preso? No pé do menino? No ventre? Como foi possível que esse cinto pudesse ser tão comprido a ponto de permitir que João Hélio fosse arrastado fora do carro e, ainda assim, não abrir? Inquestionavelmente, há um problema de projeto aí.

Se estivéssemos na América do Norte, estudos já estariam sendo feitos para tentar entender o que aconteceu, o que deu errado e - podem ter certeza - a fábrica seria responsabilizada e, se constatada a insegurança do artefato, seria condenada a pagar uma indenização multimilionária e modificaria o desenho de seu produto.

Falar em dinheiro num momento destes é insensibilidade, dirão muitos, principalmente os hipócritas. É claro que dinheiro não substituiu nem consola quem perdeu algo tão precioso como um filho amado aos seis anos. Mas dinheiro fala alto do outro lado e obriga o fabricante do veículo a desenhar melhor seus equipamentos de segurança.

Armação
Arma-se uma intriga contra o embaixador Roberto Abdenur, procurando atribuir-lhe malfeitos que devem ser creditados ao ex-chanceler de Fernando II no que se poderia - aí sim - chamar de uma "herança maldita". Às vésperas de sua presença na Comissão de Relações Exteriores do Senado, critica-se o embaixador, que saiu atirando depois de ser afastado da embaixada em Washington por fax (uma "elegância" comum ao governo do Molusco) e acusando o Itamaraty de antiamericanismo primário e por obrigar os diplomatas a ler uma lista de livros com uma orientação doutrinária, fato inédito na Casa de Rio Branco. Abdenur, que é considerado por seus pares como um diplomata competente e correto, foi criticado em artigos publicados pela imprensa em Brasília pelo fato de, em sua gestão na Alemanha, a embaixada brasileira ter sido construída em Berlim Oriental, em "lugar impróprio" - tão impróprio que é vizinha à nova chancelaria alemã. Houve muitas coisas obscuras na construção dessa embaixada, que por sinal o Brasil aluga por um preço elevado (embora não possa ser comparado com o aluguel pago em Bonn), mas Abdenur teve que engolir o caroço sem ter nada a ver com a fruta.