quarta-feira, fevereiro 28, 2007

O risco Lula

Valdo Cruz, Folha online

Lula está brincando com fogo. Transformou sua reforma ministerial num enigma e, no final, pode sair bem chamuscado. Afinal, há mais aliados insatisfeitos do que gente dormindo tranqüila na Esplanada dos Ministérios.
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Com seu estilo confuso de montar nova equipe, Lula tem desagradado petistas, peemedebistas e pepistas principalmente, sem falar nos demais aliados que simplesmente não sabem exatamente como será sua participação no ministério do segundo mandato.
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Até aqui, nada menos do que quatro meses depois de reeleito e quase dois após a posse, Luiz Inácio Lula da Silva não fechou seu novo ministério e, a cada interlocutor, parece dizer algo diferente. É o que se depreende das declarações de quem sai de seu gabinete no Palácio do Planalto. Cada um tem sua versão sobre como será a nova equipe.
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O caso mais notório é a disputa entre PT e PP pelo comando do Ministério das Cidades. A cúpula pepista garante ter ouvido de Lula, no Palácio do Planalto, a confirmação de que Márcio Fortes, ligado ao partido, seria mantido à frente da pasta cobiçada pelo PT.
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Entre ministros, a versão é outra e teria sido obtida também no gabinete presidencial. Lula teria dito, na audiência com o PP, que manteria Márcio Fortes no primeiro escalão, mas não teria especificado em qual pasta. Os pepistas não querem nem ouvir falar nisso. Dão como fatura liquidada a manutenção de Márcio Fortes.
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Tanto que nem querem mais falar com gente do governo sobre o assunto. Dizem que o que desejam ouvir, que o PP abre mão do Ministério das Cidades, está completamente fora de cogitação.
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Se Lula realmente mudar de idéia e sacrificar Márcio Fortes, ou recompensa e muito bem os pepistas ou então terá uma turma no Congresso à espera do melhor momento para dar o troco no presidente. Com votações importantes pela frente, do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) à prorrogação da CPMF (o chamado imposto do cheque), o risco é grande.
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A outra guerra de versões que monopoliza a Esplanada dos Ministério vem sendo travada entre PSB e PMDB. Depois de saírem de uma audiência no gabinete de Lula, líderes do PSB anunciaram o adiamento da reforma ministerial para depois da convenção do PMDB. A informação, segundo eles, teria sido dada pelo próprio presidente Lula.
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Incomodados com o anúncio do adiamento, peemedebistas do grupo neolulista buscaram confirmar a informação no Planalto. Foram informados por ministros que em nenhum momento Lula havia dito tal coisa e que a reforma pode sair antes da reunião do PMDB.
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O fato é que PSB e PMDB estão de olho no Ministério da Integração Nacional. Enquanto os peemedebistas apontam como certa a nomeação do deputado Geddel Vieira Lima (BA), o PSB insinua uma reação mas sabe que dificilmente ganhará a disputa. Deve levar, como compensação, a presidência do BNB (Banco do Nordeste), hoje nas mãos de petistas.
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Afora a guerra entre aliados, há ainda o choque de versões sobre o futuro de algumas pastas. Tarso Genro vai trocar Relações Institucionais pela Justiça. Para seu lugar, auxiliares e amigos de Lula já disseram ter ouvido do chefe nomes como o do petista Jorge Vianna e o do ministro Walfrido Mares Guia (Turismo).Sem falar no vaivém de Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), que confunde até o responsável pela reforma ministerial. Lula chegou a dizer a amigos que Furlan havia se despedido do governo, mas agora estaria novamente indeciso e emitindo sinais de que pode mudar de idéia e ficar.
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Adiamentos
Na campanha eleitoral, Lula disse que desejava realizar uma reforma ministerial em novembro, compondo rapidamente com os aliados. Adiou as mudanças para dezembro. Falou publicamente que as realizaria em janeiro. Depois, em entrevista, afirmou que aguardaria a eleição para as presidências das Câmara e do Senado, que aconteceriam em 1º fevereiro.
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Terminadas as eleições, adiou a reforma para depois do Carnaval. Agora, o novo prazo é o começo de março, na versão de alguns, e o final da primeira quinzena, na de outros. Contrariado, um peemedebista do grupo neolulista, que tenta realizar a reforma antes da convenção do partido, diz: "Talvez ela faça a reforma em 1º de abril [dia da mentira]".
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A frase é um sinal de que a confiança na palavra do presidente poderá sair bastante abalada da reforma. O principal trunfo do presidente para acalmar sua base aliada é uma caneta com tinta até o topo e o "Diário Oficial" da União à espera da publicação dos novos ministros. Quem ficar descontente com a perda de um ministério aqui, pode ganhar uma suculenta estatal ali.
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O tempo dirá se o risco Lula causará grandes prejuízos ou se, no final, ele se sairá bem da tarefa de montar sua nova equipe sem contar com a ajuda de ministros como José Dirceu e Antonio Palocci.
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ParalisiaLula rechaça qualquer crítica de que o atraso na indicação de sua nova equipe produza paralisia em seu governo. Diz que a máquina está a pleno vapor, que está num governo de continuidade, que muitos ministros nem deveriam sair porque mostraram serviço e por aí vai. Só que a realidade é um pouco diferente do que isso. Em alguns ministérios, o ritmo é devagar, quase parando. Tem gente que não sabe se no mês que vem ficará em Brasília.
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Tem gente reclamando que seu subordinado já não está tão dedicado quanto antes. Resultado de uma indefinição sobre quem será o chefe daqui a pouco. Bem, se fosse daqui a pouco ainda seria um alento. O problema é que ninguém sabe quando será anunciado o novo chefe. Talvez nem o chefe dos chefes.