Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
Memória nacional é produto em falta na despensa de todos nós. Alguém se lembra de que entre o final de 2003 e o início de 2004 o presidente Lula hesitou quase quatro meses para recompor o ministério, tendo em vista a saída dos ministros que seriam candidatos a prefeito e, também, aqueles cujo desempenho deixava a desejar?
Entre múltiplas qualidades, o presidente apresenta um defeito: o de não decidir depressa. De submeter-se a pressões e empurrar decisões com a barriga. Seus partidários elogiam o que lhes parece a virtude da cautela e do comedimento, mas existem momentos em que os chefes de governo precisam agir rápido. Basta citar como exemplo aquele em que o presidente John Kennedy levou a União Soviética a retirar seus mísseis de Cuba. Nada parecido com a situação criada pela Bolívia, quando invadiu com tropa do Exército refinarias da Petrobras, enquanto o Brasil do Lula ponderava e evitava retaliações. Deu certo, mas poderia não ter dado por falta de uma atitude firme de nosso governo.
Governo não funciona
Pois na presente reforma do ministério é a mesma coisa. O presidente prometeu mudanças em novembro, e já vamos para fim de março, entre sucessivas delongas. Montar o ministério tornou-se tarefa bem mais complicada do que logo depois da reeleição. Sentindo as hesitações, os partidos criam mais problemas e aferram-se em reivindicações impossíveis, o PT à frente.
Sem a nova equipe, a atual desfaz-se aos poucos. Ministros provisórios e ministros com esperanças de continuar mal tocam a rotina. Desimportante se torna saber se o governo funcionaria melhor com técnicos ou com políticos, porque, de uns meses para cá, simplesmente não funciona.
Com todo o respeito, os primeiros quatro anos do governo Lula deixaram a desejar no que seria seu objetivo principal: fazer o País voltar a crescer a níveis compatíveis com nossas necessidades. Houve avanço no plano social-assistencialista, mas em matéria de infra-estrutura, criação de empregos, investimentos em educação e saúde e afirmação da soberania nacional - nada feito. Se para mudar objetivos torna-se urgente reformar o ministério, ele já deveria estar reformado há muito. Se quatro anos não bastaram, e oito parece que também não, estaria a estratégia sendo desenvolvida para doze?
Fatos e versões
No Congresso e na imprensa a artilharia amiga continua fazendo muita fumaça e pouco fogo, dando como certa a vitória de Nelson Jobim na disputa pela presidência do PMDB. Afinal, é o candidato de Lula e vem apoiado pelo grupo governista do Senado, com Renan Calheiros e José Sarney à frente. Nessa guerra, vale mais a infantaria, que vai na frente e olha nos olhos do inimigo. Ela é comandada por Michel Temer, atual presidente, calejado em refregas e com a vantagem de ter mandato. As coisas podem mudar até o dia 11, se é que não vai ser adiada a Convenção Nacional do PMDB. Quem tem o Diário Oficial dispõe de considerável plano de batalha, mas seria bom Jobim prestar atenção no adversário.
A presidência será decidida no contato entre candidatos e eleitores. Ficar de binóculos no posto de comando costuma não dar o resultado que teria a presença do comandante na primeira linha das tropas.
Exemplo
Não se fala do destempero do prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, agredindo um cidadão na plenitude de seu direito de discordar. Mas que o outro exemplo do alcaide paulista surte efeito junto à população, nem haverá que duvidar. Kassab está retirando das ruas as agressões visuais aos cidadãos, expressas nos milhares de outdoors que têm feito de São Paulo uma das cidades mais feias do País.
A poluição visual agride o urbanismo e prejudica o tráfego, ainda que renda milhões. Pois o exemplo deveria frutificar em outras capitais, a começar por Brasília, onde o governador José Roberto Arruda hesita em adotar a mesma ação. Para o visitante ou o habitante virou um horror transitar pela capital, violentada por mil e um artifícios de propaganda ostensiva.
Lucio Costa e Oscar Niemayer planejaram Brasília horizontalmente, sem proibir espigões em determinados setores. Pois hoje, não apenas no Plano Piloto, mas em todas as cidades-satélites, ruas e avenidas assemelham-se a baias onde gado deve passar sem olhar à esquerda ou à direita. A irritação é confirmada por pesquisa recente. Como esse tipo de publicidade dá dinheiro, aguarda-se uma decisão.
Memória nacional é produto em falta na despensa de todos nós. Alguém se lembra de que entre o final de 2003 e o início de 2004 o presidente Lula hesitou quase quatro meses para recompor o ministério, tendo em vista a saída dos ministros que seriam candidatos a prefeito e, também, aqueles cujo desempenho deixava a desejar?
Entre múltiplas qualidades, o presidente apresenta um defeito: o de não decidir depressa. De submeter-se a pressões e empurrar decisões com a barriga. Seus partidários elogiam o que lhes parece a virtude da cautela e do comedimento, mas existem momentos em que os chefes de governo precisam agir rápido. Basta citar como exemplo aquele em que o presidente John Kennedy levou a União Soviética a retirar seus mísseis de Cuba. Nada parecido com a situação criada pela Bolívia, quando invadiu com tropa do Exército refinarias da Petrobras, enquanto o Brasil do Lula ponderava e evitava retaliações. Deu certo, mas poderia não ter dado por falta de uma atitude firme de nosso governo.
Governo não funciona
Pois na presente reforma do ministério é a mesma coisa. O presidente prometeu mudanças em novembro, e já vamos para fim de março, entre sucessivas delongas. Montar o ministério tornou-se tarefa bem mais complicada do que logo depois da reeleição. Sentindo as hesitações, os partidos criam mais problemas e aferram-se em reivindicações impossíveis, o PT à frente.
Sem a nova equipe, a atual desfaz-se aos poucos. Ministros provisórios e ministros com esperanças de continuar mal tocam a rotina. Desimportante se torna saber se o governo funcionaria melhor com técnicos ou com políticos, porque, de uns meses para cá, simplesmente não funciona.
Com todo o respeito, os primeiros quatro anos do governo Lula deixaram a desejar no que seria seu objetivo principal: fazer o País voltar a crescer a níveis compatíveis com nossas necessidades. Houve avanço no plano social-assistencialista, mas em matéria de infra-estrutura, criação de empregos, investimentos em educação e saúde e afirmação da soberania nacional - nada feito. Se para mudar objetivos torna-se urgente reformar o ministério, ele já deveria estar reformado há muito. Se quatro anos não bastaram, e oito parece que também não, estaria a estratégia sendo desenvolvida para doze?
Fatos e versões
No Congresso e na imprensa a artilharia amiga continua fazendo muita fumaça e pouco fogo, dando como certa a vitória de Nelson Jobim na disputa pela presidência do PMDB. Afinal, é o candidato de Lula e vem apoiado pelo grupo governista do Senado, com Renan Calheiros e José Sarney à frente. Nessa guerra, vale mais a infantaria, que vai na frente e olha nos olhos do inimigo. Ela é comandada por Michel Temer, atual presidente, calejado em refregas e com a vantagem de ter mandato. As coisas podem mudar até o dia 11, se é que não vai ser adiada a Convenção Nacional do PMDB. Quem tem o Diário Oficial dispõe de considerável plano de batalha, mas seria bom Jobim prestar atenção no adversário.
A presidência será decidida no contato entre candidatos e eleitores. Ficar de binóculos no posto de comando costuma não dar o resultado que teria a presença do comandante na primeira linha das tropas.
Exemplo
Não se fala do destempero do prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, agredindo um cidadão na plenitude de seu direito de discordar. Mas que o outro exemplo do alcaide paulista surte efeito junto à população, nem haverá que duvidar. Kassab está retirando das ruas as agressões visuais aos cidadãos, expressas nos milhares de outdoors que têm feito de São Paulo uma das cidades mais feias do País.
A poluição visual agride o urbanismo e prejudica o tráfego, ainda que renda milhões. Pois o exemplo deveria frutificar em outras capitais, a começar por Brasília, onde o governador José Roberto Arruda hesita em adotar a mesma ação. Para o visitante ou o habitante virou um horror transitar pela capital, violentada por mil e um artifícios de propaganda ostensiva.
Lucio Costa e Oscar Niemayer planejaram Brasília horizontalmente, sem proibir espigões em determinados setores. Pois hoje, não apenas no Plano Piloto, mas em todas as cidades-satélites, ruas e avenidas assemelham-se a baias onde gado deve passar sem olhar à esquerda ou à direita. A irritação é confirmada por pesquisa recente. Como esse tipo de publicidade dá dinheiro, aguarda-se uma decisão.