domingo, fevereiro 11, 2007

Por que o Brasil vai crescer, mas não muito

Dionísio Dias Carneiro, O Estado de S. Paulo

O sucesso de Lula em Davos ilustra o dilema que vive seu governo quando deseja acelerar o crescimento. Tal como agradar a uma platéia otimista quanto às vendas e aos lucros em 2007, acelerar o crescimento brasileiro para os próximos dois anos é relativamente fácil, porque há folga de liquidez. Mas mostrar um novo Brasil, que pode crescer mais além de um ou dois anos, é bem mais difícil. Com crédito abundante, os participantes desse tipo de encontro estão dispostos a acreditar em boas promessas.
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O outro lado do baixo crescimento brasileiro dos últimos dois anos é a folga para crescer, que poderá ser ocupada pela expansão do crédito. O controle monetário da demanda tem mantido a economia abaixo do produto potencial, o que tem feito a inflação cair, apesar das incertezas fiscais. O crédito pode crescer, ainda que com um pouco mais de inflação, sem romper a meta. O desempenho da economia mundial e a nova atenção às fontes renováveis de combustível são favoráveis à base produtiva brasileira: podemos usar menor quantidade de fatores de produção para importar mais e atender ao acréscimo de demanda que já vinha sendo gerado antes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Finalmente, a combinação de alta liquidez externa com a confiança de que Lula repudia as aventuras econômicas, ao contrário dos vizinhos, tem permitido uma grande valorização dos ativos brasileiros em moeda estrangeira.
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Todos esses fatores podem resultar em aumento mais rápido da produção interna, acima da tendência dos últimos anos: pode haver um aumento na utilização de capacidade produtiva sem que a inflação supere a meta e sem que o balanço de pagamentos venha a ser comprometido. Mas mudar a tendência é mais difícil.
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Preços relativos externos favoráveis aos produtores brasileiros estimulam a produção de bens exportáveis, apesar das queixas contra o câmbio valorizado. A flexibilidade cambial corrigirá o câmbio, caso haja aumento inesperado das importações ou frustração das exportações. Com ou sem PAC, não faltam oportunidades de investimento. A queda do custo de capital estimula a exploração dessas oportunidades: prêmios de risco e custo de crédito menores, baixa inflação e baixa volatilidade cambial devem continuar. O Brasil produz pouca tecnologia, especialmente na indústria, resultado da negligência histórica com a educação e o ensino técnico. Preços externos favoráveis tornam mais barato modernizar o parque industrial brasileiro, via aquisição de tecnologia incorporada nos equipamentos. Já o setor agropecuário se beneficia duplamente dos preços relativos favoráveis. A produção ficará mais lucrativa, se o governo não atrapalhar a melhoria das vias de transporte, nas quais o setor privado está disposto a investir. A continuidade dos esforços de pesquisa e experimentação agropecuária (Embrapa e setor privado) nos últimos 40 anos faz com que a lucratividade da produção de exportáveis agrícolas tenha um fundamento que vai além das oportunidades de curto e médio prazos da economia mundial. Efeito semelhante se aplica aos investimentos na produção mineral.
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Um terceiro fator, a liquidez abundante que valoriza nossos ativos, justifica o otimismo quanto ao crescimento nos próximos dois anos, mas, ao mesmo tempo, ilustra as dúvidas quanto às possibilidades de que o maior crescimento projetado para 2007 e 2008 se mantenha. Não se encontram, no programa ou na realidade, razões para que o crescimento brasileiro possa subir para algo como 4,5% ao ano, como anunciou Lula no PAC. O presidente desgasta-se para conciliar o discurso estatizante de seus intelectuais com os estímulos para a formalização do emprego privado, que beneficia seu eleitorado. Mas isso requer empresários em busca do lucro e o controle dos impulsos centralizadores dos ministros encantados com o poder de fazer chover.
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Os saudosistas do modelo asiático sonham com o que Masahiko Aoki chamou de “burocracia plural”: da interação benigna entre empresários escolhidos, dispostos a colaborar com funcionários, autonomeados defensores iluminados do bem comum, resultam maiores gastos de capital e se estimula a produção. No Brasil da baixa poupança, do uso de gastos públicos para arrebanhar a clientela de excluídos e do sistema político baseado na esperteza, não há estímulo para buscar novos meios de criar riqueza, mas para pilhar a que é produzida por outros. O PAC não muda nada disso.
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Dionísio Dias Carneiro, economista, professor do Iapuc, é diretor do Iepe/CdG