Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
1º de abril de 1977. Já não bastava o 1º de abril de 64. Mais um dia da mentira nacional. Às 12 horas em ponto, entra na Câmara dos Deputados o subchefe da Casa Civil do governo Geisel, Alberto Cunha, com o texto do Ato Complementar nº 102, decretando o "recesso temporário" do Congresso, porque não aprovou a Reforma Judiciária mandada por Geisel.
Marco Maciel, presidente da Câmara, recebe o ofício e leva imediatamente a Petrônio Portela, presidente do Senado. No corredor da Câmara, o deputado Tancredo Neves (MDB-MG) me chama:
- Vamos ali ao salão verde da Câmara, que vou mostrar a você o retrato do Congresso.
Tancredo
Lá estava o anjo de bronze de Cheschiatti, as asas cortadas, a mão direita no peito e o rosto infinitamente desolado. Cheschiatti não sabia que havia esculpido o recesso. Tancredo estava como o anjo de Cheschiatti:
- Na Comissão de Constituição e Justiça há uma estatueta de Ruy Barbosa, de pé, ao lado da mesa. Em 1968, quando o governo e a Arena destituíram Djalma Marinho da presidência e todos os seus representantes na comissão, a fim de aprovar a licença para processar Marcio Moreira Alves, Djalma Marinho virou de costas a estátua de Ruy e explicou:
- É para ele não ficar com vergonha de tudo isso.
Mais tarde, fui à Comissão de Justiça rever a estátua de Ruy. Estava novamente de costas. E Djalma Marinho não era mais deputado. Até hoje tenho certeza de que foi Tancredo quem pôs Ruy novamente de costas.
Saí dali e fui diretamente para o aeroporto. Ia assistir às eleições da Constituinte espanhola, que ensinaram como se constrói uma democracia.
Comissão de Justiça
O Brasil está vivendo um dos episódios mais vergonhosos e deprimentes dessa Câmara de "hímen complacente", como diria Jânio Quadros. Vendem tudo a qualquer preço, desde que para garantir o cocho.
A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) é a mais importante da Câmara. Todas as propostas, projetos, emendas constitucionais, quaisquer questões ou conflitos que cheguem à mesa diretora da Câmara são imediatamente encaminhados à CCJ, que dirá se são constitucionais ou não, procedem ou não, prosseguem ou serão arquivadas.
Por tudo isso, cada partido sempre indicou para a CCJ suas melhores cabeças. E lá, sempre foram eleitos presidentes os melhores: professores, juristas, homens de saber, de experiência, como lastro para honrar a Câmara.
Apenas para lembrar outros que por lá passaram: Gustavo Capanema, Ulysses Guimarães, Milton Campos, San Tiago Dantas, Tarsilo Vieira Mello.
Piccianinho
Agora, hoje, o PMDB, o PT e a manada do Planalto vão oficializar a entrega da presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ao Piccianinho, que nem conheço, mas os jornais já disseram quem é:
1 - "Leonardo Picciani, do PMDB do Rio, é filho do presidente da Assembléia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), e sócio da fazenda Agrovás, autuada pelo Ministério Público do Trabalho por trabalho escravo (sic) em 2003. Após acordo de R$ 250 mil, a ação foi extinta. A indicação partiu da ala fluminense do partido. Com 27 anos, bacharel em direito desde outubro de 2005, mas sem experiência em advocacia, Leonardo Picciani atuou desde os 17 anos na administração das fazendas de gado do pai" ("Folha").
2 - "Como informa seu próprio site, desde os 17 anos trabalhava nos negócios rurais do pai. Na Agrovás, em São Félix do Araguaia, fiscais do Ministério do Trabalho encontraram 56 trabalhadores, dos quais apenas um tinha carteira assinada, o gerente. Diretor da Associação de Criadores de Nelore do Rio, declarou a segunda maior receita de campanha no Rio" ("O Globo").
O vaqueiro
Quais QI de calango tiveram a audácia de indicá-lo para presidir a mais importante e poderosa Comissão da Câmara? -"Ficou acertado que o nome seria da bancada do Rio", afirmou o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves:
"A bancada do Rio, com dez deputados, fez a indicação com toda a tranqüilidade e respeito (sic) pelo PMDB. É importante conhecimento jurídico, mas quem está aqui chegou com méritos para isso".
Diz mais a Isabel Braga, no "Globo": "Reservadamente, deputados contam que o grupo de Leonardo (comandado pelo notório deputado sanitário Eduardo Cunha) negociou (sic) sua indicação para a CCJ por ocasião da eleição de Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara".
Está aí o crime perfeito. Chinaglia (que não se perca pela rima), em troca de dez votos, vendeu a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ao PMDB do Rio, liderado pelo Eduardo Cedae, com o aval do líder do PMDB Henrique Eduardo, que também ali comercializava sua ida para a liderança.
Quem não se respeita, se desfeita. Não adianta a Câmara indignar-se com o que o País diz nas pesquisas que pensa dela. Para a boiada, um vaqueiro. Façam ao menos um favor. Tirem o Ruy de lá.
1º de abril de 1977. Já não bastava o 1º de abril de 64. Mais um dia da mentira nacional. Às 12 horas em ponto, entra na Câmara dos Deputados o subchefe da Casa Civil do governo Geisel, Alberto Cunha, com o texto do Ato Complementar nº 102, decretando o "recesso temporário" do Congresso, porque não aprovou a Reforma Judiciária mandada por Geisel.
Marco Maciel, presidente da Câmara, recebe o ofício e leva imediatamente a Petrônio Portela, presidente do Senado. No corredor da Câmara, o deputado Tancredo Neves (MDB-MG) me chama:
- Vamos ali ao salão verde da Câmara, que vou mostrar a você o retrato do Congresso.
Tancredo
Lá estava o anjo de bronze de Cheschiatti, as asas cortadas, a mão direita no peito e o rosto infinitamente desolado. Cheschiatti não sabia que havia esculpido o recesso. Tancredo estava como o anjo de Cheschiatti:
- Na Comissão de Constituição e Justiça há uma estatueta de Ruy Barbosa, de pé, ao lado da mesa. Em 1968, quando o governo e a Arena destituíram Djalma Marinho da presidência e todos os seus representantes na comissão, a fim de aprovar a licença para processar Marcio Moreira Alves, Djalma Marinho virou de costas a estátua de Ruy e explicou:
- É para ele não ficar com vergonha de tudo isso.
Mais tarde, fui à Comissão de Justiça rever a estátua de Ruy. Estava novamente de costas. E Djalma Marinho não era mais deputado. Até hoje tenho certeza de que foi Tancredo quem pôs Ruy novamente de costas.
Saí dali e fui diretamente para o aeroporto. Ia assistir às eleições da Constituinte espanhola, que ensinaram como se constrói uma democracia.
Comissão de Justiça
O Brasil está vivendo um dos episódios mais vergonhosos e deprimentes dessa Câmara de "hímen complacente", como diria Jânio Quadros. Vendem tudo a qualquer preço, desde que para garantir o cocho.
A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) é a mais importante da Câmara. Todas as propostas, projetos, emendas constitucionais, quaisquer questões ou conflitos que cheguem à mesa diretora da Câmara são imediatamente encaminhados à CCJ, que dirá se são constitucionais ou não, procedem ou não, prosseguem ou serão arquivadas.
Por tudo isso, cada partido sempre indicou para a CCJ suas melhores cabeças. E lá, sempre foram eleitos presidentes os melhores: professores, juristas, homens de saber, de experiência, como lastro para honrar a Câmara.
Apenas para lembrar outros que por lá passaram: Gustavo Capanema, Ulysses Guimarães, Milton Campos, San Tiago Dantas, Tarsilo Vieira Mello.
Piccianinho
Agora, hoje, o PMDB, o PT e a manada do Planalto vão oficializar a entrega da presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ao Piccianinho, que nem conheço, mas os jornais já disseram quem é:
1 - "Leonardo Picciani, do PMDB do Rio, é filho do presidente da Assembléia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), e sócio da fazenda Agrovás, autuada pelo Ministério Público do Trabalho por trabalho escravo (sic) em 2003. Após acordo de R$ 250 mil, a ação foi extinta. A indicação partiu da ala fluminense do partido. Com 27 anos, bacharel em direito desde outubro de 2005, mas sem experiência em advocacia, Leonardo Picciani atuou desde os 17 anos na administração das fazendas de gado do pai" ("Folha").
2 - "Como informa seu próprio site, desde os 17 anos trabalhava nos negócios rurais do pai. Na Agrovás, em São Félix do Araguaia, fiscais do Ministério do Trabalho encontraram 56 trabalhadores, dos quais apenas um tinha carteira assinada, o gerente. Diretor da Associação de Criadores de Nelore do Rio, declarou a segunda maior receita de campanha no Rio" ("O Globo").
O vaqueiro
Quais QI de calango tiveram a audácia de indicá-lo para presidir a mais importante e poderosa Comissão da Câmara? -"Ficou acertado que o nome seria da bancada do Rio", afirmou o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves:
"A bancada do Rio, com dez deputados, fez a indicação com toda a tranqüilidade e respeito (sic) pelo PMDB. É importante conhecimento jurídico, mas quem está aqui chegou com méritos para isso".
Diz mais a Isabel Braga, no "Globo": "Reservadamente, deputados contam que o grupo de Leonardo (comandado pelo notório deputado sanitário Eduardo Cunha) negociou (sic) sua indicação para a CCJ por ocasião da eleição de Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara".
Está aí o crime perfeito. Chinaglia (que não se perca pela rima), em troca de dez votos, vendeu a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ao PMDB do Rio, liderado pelo Eduardo Cedae, com o aval do líder do PMDB Henrique Eduardo, que também ali comercializava sua ida para a liderança.
Quem não se respeita, se desfeita. Não adianta a Câmara indignar-se com o que o País diz nas pesquisas que pensa dela. Para a boiada, um vaqueiro. Façam ao menos um favor. Tirem o Ruy de lá.