Willian Waack, G1
Cientistas chamam a atenção para o aquecimento global há mais de 20 anos. É impressionante o consenso dentro da comunidade científica internacional sobre as principais modificações climáticas até o final do século, apresentadas no relatório com data de 2 de fevereiro em Paris . Qual a razão, então, de tanto furor em torno do mais recente documento mostrando que o planeta caminha depressa para uma catástrofe?
É o impacto sobre os negócios. Dois dias antes do relatório dos cientistas reunidos em Paris, um dos maiores bancos de investimentos internacionais, o Lehman Brothers, e um gigante dos bancos suíços, o UBS, publicaram estudos igualmente alarmantes sobre um tema que, pela primeira vez, foi central também no encontro anual de Davos, que sempre reúne algumas das principais personalidades da economia, negócios, política e ciência.
Alguns exemplos: o aquecimento global deve afetar os lucros da indústria automobilística, especialmente na Europa, por conta de leis ainda mais duras que limitarão as emissões. Mesmo nos Estados Unidos, onde o presidente só há 15 dias reconheceu (pelo menos!) que o problema é grave, alguns estados também estão aprovando leis mais severas que significam mais custos para quem fabrica veículos.
Aquecimento global implica em custos de energia mais altos que afetarão diretamente, entre outros, a indústria do cimento, tida como responsável por cerca de 5% das emissões globais de CO2. Outro impacto é sobre o valor de propriedades. Os autores do relatório do Lehman Brothers e do UBS mencionam o fato de que imóveis situados em lugares baixos já não conseguem ser segurados, por temor de elevação do nível médio dos oceanos - além de se tornarem praticamente invendáveis.
Momentos de incerteza são momentos para espertezas também. O "Financial Times" trouxe há poucos dias uma reportagem mostrando como indústrias químicas na China - um dos "vilões" internacionais quando se fala de aquecimento global - aproveitaram-se de um buraco nos acordos de Kyoto, que estabeleceram níveis de redução de emissões. Instalando equipamentos muito baratos de filtragem, essas indústrias chinesas conseguem negociar a obtenção de "créditos carbono" que geram um lucro financeiro instantâneo (a instalação de filtros custa em torno de 30 milhões de dólares e os "créditos carbono" cerca de 750 milhões).
Alguns analistas internacionais, principalmente na Europa, acreditam que a tendência do mundo dos negócios em se tornar "verde" é irreversível. Pelo menos nos países centrais cresce uma "consciência ecológica" entre consumidores - e o comportamento de consumidores é o que determina a política das empresas. Pelo menos na União Européia, os políticos também estão caminhando na mesma direção. E ela significa confronto com os Estados Unidos - o presidente francês, por exemplo, disse que empresas americanas terão de pagar impostos mais altos nos países da EU se não andarem no mesmo passo.
Até agora o governo de Washington tinha se mantido afastado dos protocolos de Kyoto e questionava abertamente os resultados de estudos científicos sobre o aquecimento global. O principal argumento americano sempre foi econômico: alegava que, pelo fato de não terem sido incluídos nos dispositivos aprovados há dez anos no Japão, os países em desenvolvimento teriam uma vantagem competitiva desleal sobre empresas americanas.
Talvez seja apenas um breve consolo constatar que Bush e sua turma foram irremediavelmente superados pelos fatos. A Califórnia quer fechar acordos com os europeus sobre a limitação de emissões de carbono. A China está mais avançada do que a Casa Branca na avaliação dos riscos climáticos. Até o gigante energético russo Gazprom está indo na direção do "carbon trading".
Mas é apenas um pequeno consolo. O que os cientistas afirmam é perigoso e desolador. Talvez, dizem eles, as coisas não fiquem tão ruins quanto os modelos processados por computadores sugerem. Há tempo ainda, sugerem os especialistas, para se fazer alguma coisa. Mas a julgar pelo fracasso da comunidade internacional em se coordenar em torno de qualquer assunto, não são muitas as esperanças.
Cientistas chamam a atenção para o aquecimento global há mais de 20 anos. É impressionante o consenso dentro da comunidade científica internacional sobre as principais modificações climáticas até o final do século, apresentadas no relatório com data de 2 de fevereiro em Paris . Qual a razão, então, de tanto furor em torno do mais recente documento mostrando que o planeta caminha depressa para uma catástrofe?
É o impacto sobre os negócios. Dois dias antes do relatório dos cientistas reunidos em Paris, um dos maiores bancos de investimentos internacionais, o Lehman Brothers, e um gigante dos bancos suíços, o UBS, publicaram estudos igualmente alarmantes sobre um tema que, pela primeira vez, foi central também no encontro anual de Davos, que sempre reúne algumas das principais personalidades da economia, negócios, política e ciência.
Alguns exemplos: o aquecimento global deve afetar os lucros da indústria automobilística, especialmente na Europa, por conta de leis ainda mais duras que limitarão as emissões. Mesmo nos Estados Unidos, onde o presidente só há 15 dias reconheceu (pelo menos!) que o problema é grave, alguns estados também estão aprovando leis mais severas que significam mais custos para quem fabrica veículos.
Aquecimento global implica em custos de energia mais altos que afetarão diretamente, entre outros, a indústria do cimento, tida como responsável por cerca de 5% das emissões globais de CO2. Outro impacto é sobre o valor de propriedades. Os autores do relatório do Lehman Brothers e do UBS mencionam o fato de que imóveis situados em lugares baixos já não conseguem ser segurados, por temor de elevação do nível médio dos oceanos - além de se tornarem praticamente invendáveis.
Momentos de incerteza são momentos para espertezas também. O "Financial Times" trouxe há poucos dias uma reportagem mostrando como indústrias químicas na China - um dos "vilões" internacionais quando se fala de aquecimento global - aproveitaram-se de um buraco nos acordos de Kyoto, que estabeleceram níveis de redução de emissões. Instalando equipamentos muito baratos de filtragem, essas indústrias chinesas conseguem negociar a obtenção de "créditos carbono" que geram um lucro financeiro instantâneo (a instalação de filtros custa em torno de 30 milhões de dólares e os "créditos carbono" cerca de 750 milhões).
Alguns analistas internacionais, principalmente na Europa, acreditam que a tendência do mundo dos negócios em se tornar "verde" é irreversível. Pelo menos nos países centrais cresce uma "consciência ecológica" entre consumidores - e o comportamento de consumidores é o que determina a política das empresas. Pelo menos na União Européia, os políticos também estão caminhando na mesma direção. E ela significa confronto com os Estados Unidos - o presidente francês, por exemplo, disse que empresas americanas terão de pagar impostos mais altos nos países da EU se não andarem no mesmo passo.
Até agora o governo de Washington tinha se mantido afastado dos protocolos de Kyoto e questionava abertamente os resultados de estudos científicos sobre o aquecimento global. O principal argumento americano sempre foi econômico: alegava que, pelo fato de não terem sido incluídos nos dispositivos aprovados há dez anos no Japão, os países em desenvolvimento teriam uma vantagem competitiva desleal sobre empresas americanas.
Talvez seja apenas um breve consolo constatar que Bush e sua turma foram irremediavelmente superados pelos fatos. A Califórnia quer fechar acordos com os europeus sobre a limitação de emissões de carbono. A China está mais avançada do que a Casa Branca na avaliação dos riscos climáticos. Até o gigante energético russo Gazprom está indo na direção do "carbon trading".
Mas é apenas um pequeno consolo. O que os cientistas afirmam é perigoso e desolador. Talvez, dizem eles, as coisas não fiquem tão ruins quanto os modelos processados por computadores sugerem. Há tempo ainda, sugerem os especialistas, para se fazer alguma coisa. Mas a julgar pelo fracasso da comunidade internacional em se coordenar em torno de qualquer assunto, não são muitas as esperanças.