terça-feira, fevereiro 13, 2007

Um partido que usa metralhadoras

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Faz muitos carnavais Stanislau Ponte Preta compôs o inesquecível "Samba do crioulo doido", cuja letra contava as desventuras de um passista do morro que depois de desfilar cantando montes de sambas-enredo ligados à nossa História, resolveu criar o dele, onde a Princesa Isabel se casava com Tiradentes, D. Pedro I proclamava a República, Getúlio Vargas era filho de D. João VI e Deodoro da Fonseca decretava a escravidão.

Com todo o respeito, acaba de ser criado em Salvador, por sinal a capital do carnaval, o "Samba do partido doido". Trata-se do PT. O partido do presidente da República completou 27 anos, festejados com uma reunião do seu Diretório Nacional na capital baiana, com direito à presença de Lula. Dividido desde o nascimento em dezenas de grupos e alas conflitantes, o PT viu acirradas suas contradições até por ação do presidente, que no banquete de sábado puxou com vigor as orelhas dos companheiros.

Acusou-os de usar a metralhadora para atirar nos próprios pés. Exortou-os a acabar com as pendengas e com a luta interna, mais contundente do que a ação das CPIs que investigaram o mensalão. Levou a crítica ao ministério, onde o ministro da Fazenda pede um estudo para analisar a questão energética e o ministro de Minas e Energia critica a política econômica.

Sanduíche de contradições
Sobrou até para a imprensa, que segundo Lula dedica maiores espaços para as brigas do PT do que para coisas boas que o governo vem fazendo. Só que, na véspera, sexta-feira, e no dia seguinte, domingo, o presidente declarou aos jornalistas não haver crise alguma no seu partido e que a existência de propostas e de manifestos divergentes refletia a democracia interna.

Um sanduíche de contradições, marcado até pela truculência dos organizadores da reunião, que proibiram aos fotógrafos registrar o solitário encontro de Lula com José Dirceu, quando se deram forte abraço e nada mais. Ou alguém terá divulgado, de lá até hoje, a imagem do constrangido amplexo? Convenhamos, a confusão é geral no PT, que baixa tacape e borduna na política de juros, mas na Bahia aceita omitir o nome do presidente do Banco Central, responsável por ela.

Que exalta o PAC mas exige mudanças na política econômica, esquecendo-se de serem os mesmos os artífices de ambos. Que tem seu grupo mais forte, o Campo Majoritário, comandado pelo cassado Dirceu e não sabe como evitar que o maior adversário do ex-chefe da Casa Civil, Tarso Genro, troque o Ministério de Relações Institucionais pelo Ministério da Justiça.

Não escapa sequer Lula, que passa pitos veementes nos companheiros, em particular, mas exalta-lhes a unidade, de público. Sem falar na eterna seqüela com a mídia, porque não dá para só publicar aquilo que o governo faz de bom, esquecendo episódios como os das retaliações petistas. Além de ficar a dúvida maior: que inimigos são esses contra os quais o PT deve utilizar suas metralhadoras? E que partido é esse que usa metralhadoras? É por essas e outras que a reforma do ministério não sai e o segundo mandato não começa...

Sonho impossível
Declarou o presidente Lula esperar convencer o presidente Bush de abrir mão da produção do álcool de milho, no qual os Estados Unidos investem bilhões, trocando-o pelo álcool de cana-de-açúcar. E ainda gracejou, dizendo que o milho deve ser reservado para as galinhas. Trata-se de outro sonho, igual ao pedido feito por nós para os americanos suspenderem os subsídios a seus produtos agrícolas, parecido com nossa pretensão de ocuparmos uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ou até da adesão de Washington ao Plano Contra a Fome.

Deveremos nos dar por satisfeitos se Bush não nos obrigar a substituir a cana pelo milho. O encontro dos dois presidentes deve estar sendo preparado no Itamaraty ou no Planalto, mas para o sucesso de nossos pontos de vista alguém deveria respeitosamente pedir silêncio a Lula. Porque cada frustração seguida a cada sugestão mirabolante só faz expor nossa fraqueza. Seria bom, no encontro, deixarmos claro que o Brasil não é a Venezuela, e que Luiz Inácio da Silva não é Hugo Chávez.

A partir daí, a conversa poderia evoluir para interesses não resolvidos, de parte a parte. Se os americanos não levantam as barreiras alfandegárias aos nossos produtos e se não cortam subsídios aos seus, poderemos fazer o mesmo. É no bolso deles que se localiza sua fraqueza, não nas espigas de milho ou, muito menos, nos roletes de cana...