quinta-feira, março 08, 2007

A bênção, Mr. Bush

Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo
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Nessas horas, a desimportância do Brasil no mundo é uma dádiva. Ninguém registrou que o Estado-Maior de Lula foi todo denunciado por esquemas maiores e menores de desvio de dinheiro público para o partido e o grupo político do presidente. Para o mundo, Lula continua sendo o bibelô da miséria. O Brasil não pode jogar essa chance fora.
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À espera de George Bush, Lula rosnou contra a barreira tarifária imposta pelos Estados Unidos ao álcool brasileiro. Ocorre que o rosnado de Lula é um miado para Bush. Com um pouco de esperteza, o Brasil desistiria dessa tola tentativa terceiro-mundista de falar grosso com os americanos. Lula, fale fino com Bush.
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Essa conversa de cooperação tecnológica para a produção de etanol funciona bem para encher página de revista brasileira. Os Estados Unidos produzem álcool combustível a partir do milho, e não vão dar moleza para a entrada do álcool brasileiro tirado da cana-de-açúcar. Se quiserem mesmo abrir espaço para o etanol de biomassa em sua matriz energética, eles inventam a tecnologia, importam a matéria-prima e fim de papo. Esse sonho brazuca de empreendimento binacional, só com o Paraguai (e olhe lá).
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Se um raio de sensatez caísse sobre o Palácio do Planalto, o Brasil pararia com essa infantilidade de querer falar de igual para igual com os Estados Unidos, de querer disputar seus direitos na OMC, aquele teatrinho onde ganha tudo e não leva nada.
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O que o Brasil tem de concreto para negociar com a cúpula do mundo? Além das mulatas, o país tem uma coisa chamada floresta amazônica. É aquela região continental cheia de cipó e mosquito, símbolo meio confuso de orgulho e de atraso, que motiva brados patéticos de soberania ante o tabu da invasão estrangeira.
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O chato é que na prática os estrangeiros invadem assim mesmo, comprando terras com testas de ferro, escondidos atrás de ONGs ou na base da simples pirataria. Eis a proposta: institucionalizar a invasão.
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Como se sabe, a capacidade brasileira de prospectar o tesouro microscópio da Amazônia é pífia. O governo bate recordes de criação de parques, grita que está criando a maior área protegida do mundo, leva diplomas da Unesco e todas essas fanfarronices da eco-burocracia internacional – e a tal da biodiversidade fica lá, como um monumento ao fantasma da soberania.
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Lula devia convidar Bush para uma parceria na Amazônia. À luz do dia. Sem pirataria nem paranóia.
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O Brasil entraria com a riqueza genética, os Estados Unidos com a tecnologia e os bilhões de dólares necessários para esse tipo de pesquisa e o desenvolvimento dos produtos. Patentes compartilhadas, direitos pré-definidos em acordos bilaterais devidamente chancelados pelos Congressos dos dois países. Nada dessa laranjada diplomática de cartas de intenções estratosféricas. Contrato para valer.
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Lula poderia incluir as garantias que bem entendesse, inclusive contrapartida de conhecimento científico, além da financeira. De quebra, poderia negociar um mega-acordo de geração de créditos de carbono da floresta para os EUA, que investiriam em grandes planos de reflorestamento tropical e poderiam continuar poluindo à vontade lá no Norte. Uma lavagem de reputação muito mais eficiente do que posar de bonzinho ao lado dos pobres.
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Os olhos de Bush iam brilhar. E o Brasil sairia dessa diplomacia do faz-de-conta para a realidade da troca de interesses, única língua universalmente compreendida. Possivelmente passasse a ganhar de fato algumas paradas na OMC.
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E talvez até, de sobremesa, emplacasse o etanol no mercado americano.