quinta-feira, março 08, 2007

Governar é divertir-se

por Villas-bôas Corrêa, no Jornal do Brasil
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Nos quatro meses do segundo mandato do governo que não começou, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva forneceu mais elementos para a decifração da sua personalidade - que não chega a ser tão complicada - do que nos quatro anos iniciais embalados pelos elogios em boca própria ao maior em tudo de todos os tempos.
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Nas picuinhas ao antecessor que jogou nos seus ombros a tal herança maldita, misturou viagens pelos quatro cantos do planeta para a afirmação de uma liderança mundial, de que tanto se orgulha. O modelito inaugural do seu gabinete no Palácio do Planalto só cuidou de política para a montagem do esquema da reeleição. Descuidos intencionais ou não fecharam os olhos para os desatinos petistas na armação da temporada dos escândalos: do caixa 2, do mensalão, das ambulâncias superfaturadas, da trapaça das sanguessugas, ampliados pela maciça cobertura pela mídia das CPIs que desandaram na dança do plenário da Câmara para comemorar a absolvição em cascata dos denunciados.Lula abandonou o PT às merecidas traças, adubou a reeleição com os 11 milhões de Bolsa Família para matar a fome de 44 milhões de eleitores especialmente nas áreas mais pobres do Norte e do Nordeste.
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Quando o núcleo político bichado pelos escândalos foi dissolvido, o presidente-candidato, em estalo afortunado, descobriu a fórmula perfeita do gabinete administrativo, que confiou à competência e energia da ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil. Livre da papelada burocrática, que jamais leu, contentando-se com os resumos em meia folha de papel, pôde dedicar-se em tempo integral à campanha nas suas diversas etapas.
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E desde então, o estilo Lula de governar ampliou o esboço até o retrato em corpo inteiro, com a transparência das suas singularidades. Da casmurrice das frases curtas do presidente Dutra à variedade dos cinco generais-presidente do rodízio de quase 21 anos da ditadura militar, passando por JK, Jânio, Jango, Sarney, Collor, Itamar e FH, nada pode ser comparado ao presidente Lula do bis.Joalheiro amador, aplicou-se em enfeitar a faixa presidencial com as pedras coloridas da fantasia para a festa do governo desfrutado como uma diversão. Lula adora presidir reuniões com grande número de participantes que ocupem todas as cadeiras das mesas imponentes dos palácios do Planalto e da Alvorada ou das aperturas da Granja do Torto. Como não pode convocar governadores, prefeitos ou ministro todos os dias, conforma-se com a modéstia de encontros com os chamados núcleos de ministros para assuntos que interessam o público com a garantia de ampla cobertura na mídia.
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Mas o recheio doce do mandato são as viagens. Qualquer uma, para qualquer lugar, com qualquer justificativa. Claro, as rotas internacionais para a exibição nos palcos do mundo são manjares para o paladar dos deuses que voam nas asas do Aerolula com a pompa e os agrados das mordomias. Reconheça-se que os giros patrocinados pelo Mercosul pelo mapa do nosso continente quase que se igualam ao deslumbramento da Europa, da Ásia ou da África. Lula é um temperamento eclético.
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Nunca pareceu mais feliz e à vontade como no segundo mandato, sem a tentação de brincar com a democracia para mais quatro anos. Se cair no colo, claro que não recusará o sacrifício.
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Por enquanto, pretende curtir os três anos e 10 meses no ritmo de festa, concentrando os esforços oficiais em três ou quatro programas que iluminem a imagem do grande presidente, o maior de todos os tempos.
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Além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mesinha milagrosa para a cura de todas as enfermidades do país; três ou quatro obras de truz, como a irrigação de áreas do Nordeste com a transposição das águas do Rio São Francisco. E, um degrau abaixo, o pacote de emergência para o investimento de mais R$ 8 bilhões na educação.
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A rede rodoviária em pandarecos, com recorde de desastres, ou a calamidade nacional da insegurança, com o registro de mortes diárias no Rio e nas grandes cidades são assuntos para a pauta da burocracia, dos governadores e prefeitos.
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Poupem Lula: o governo é uma festa.