Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
BRASÍLIA - Em poucos dias surge o primeiro grande obstáculo à viabilização das promessas duvidosas da dupla Bush-Lula de, algum dia, Brasil e Estados Unidos mudarem a matriz energética do mundo. Levantou-se o singular presidente da Venezuela, Hugo Chávez, não em defesa da independência da América Latina contra as investidas de nossos irmãos do Norte, mas buscando assegurar a sobrevivência de seu país através da prevalência do petróleo. Afinal, é o único produto de que dispõe para arreganhar os dentes e mostrar as garras contra Bush, mas, na verdade, mordendo e arranhando Lula.
Para Chávez, aumentar a cultura do álcool de cana é condenar à fome as populações miseráveis do continente, porque a área plantada a ser ampliada é a que serve para plantio de feijão e arroz. Lula rebateu, dizendo provir a fome da falta de condições de parte do povo para consumir. De tabela, ainda prometeu que não seriam utilizadas terras da Amazônia e do Pantanal para plantar cana.
E o carrasco ri
Essa é uma disputa grave. Porque se um dos caminhos do Brasil para vencer o subdesenvolvimento passa pelo álcool, a via para desmanchar igual objetivo da Venezuela, também. As previsões são de que não haverá amizade latino-americana nem identidade ideológica entre Chávez e Lula capaz de superar impasse de tal magnitude. Batemos de frente com nossos "hermanos" bolivarianos, ou vice-versa.
O périplo desenvolvido pelo presidente venezuelano pelos países não visitados por Bush envolve mais razões do que a vontade de chamar o presidente americano de satanás. O que ele pretende é assegurar petróleo barato aos vizinhos próximos e remotos, uma forma de desestimulá-los da transferência energética para o etanol. Cujos maiores produtores somos nós.
Não vamos chegar ao exagero de contar quantos moderníssimos aviões de caça russos Hugo Chávez comprou, nem o número de fuzis por ele adquiridos para armar a população. Mas é bom tomar cuidado. Qual seria a resposta de Caracas se Brasília tivesse o desplante de oferecer tecnologia de álcool ao seu governo, senão uma sonora gargalhada e uma rejeição até pouco educada? Resta saber se a recíproca será verdadeira, inversamente: se a Venezuela rompesse os acordos com o Brasil para parceria na implantação de refinarias, se negasse os acordos de fornecimento de gás, não poderíamos rir. Muito ao contrário.
De mais essa dor de cabeça que o presidente Lula deve estar sofrendo, impedido de pedir auxílio aos Estados Unidos por motivações políticas, tiram-se duas conclusões: George W. Bush demonstrou inteligência ao visitar o Brasil na semana passada e estimular a alternativa energética do álcool como forma de prejudicar Hugo Chávez. Como, também, a eterna lição da História que nunca aprendemos direito: apoio nas próprias forças, ampliação do mercado interno e desconfiança total na globalização e no livre diálogo entre fracos e fortes.
É sempre bom lembrar que a guilhotina não dialoga com o pescoço. O perigo é ficarmos batendo cabeça, ou mais do que isso, com a Venezuela, enquanto lá de cima, segurando a cordinha da guilhotina, o carrasco dá risadas homéricas ao acionar a lâmina mortal sobre os dois países. Afinal, conseguiu o que pretendia...
Repetição
Com todo o respeito, deu sono nos senadores a exposição dos ministros Guido Mantega, Dilma Rousseff e Paulo Bernardo no plenário do Senado, falando na Comissão de Assuntos Econômicos. Repetiram a ladainha de sempre, de que a economia vai bem, de que o Plano de Aceleração do Crescimento prevê obras fantásticas e que voltaremos a crescer.
A chefe da Casa Civil prometeu tudo, por meio do PAC. Metrôs aos montes, ferrovias, rodovias maravilhosas, portos com capacidade infinita de funcionamento, hidrelétricas, obras de saneamento como nunca se viu. Parecia o anúncio da chegada do Brasil ao Nirvana, ou melhor, do Nirvana ao Brasil.
Tomara que dê certo, milagres acontecem. Está aí, por poucas semanas, a santificação de Frei Galvão. A verdade, porém, é que os senadores continuaram céticos. Se era tão fácil assim mudar a face do País, por que o governo perdeu quatro anos mandando recursos para fora, fazendo reservas externas da ordem de US$ 100 bilhões e contingenciando dotações que teriam minorado de muito as agruras com segurança pública, educação e saúde? O governo Lula está diante de uma necessidade: prometer não adianta mais. É realizar ou cair no descrédito.
BRASÍLIA - Em poucos dias surge o primeiro grande obstáculo à viabilização das promessas duvidosas da dupla Bush-Lula de, algum dia, Brasil e Estados Unidos mudarem a matriz energética do mundo. Levantou-se o singular presidente da Venezuela, Hugo Chávez, não em defesa da independência da América Latina contra as investidas de nossos irmãos do Norte, mas buscando assegurar a sobrevivência de seu país através da prevalência do petróleo. Afinal, é o único produto de que dispõe para arreganhar os dentes e mostrar as garras contra Bush, mas, na verdade, mordendo e arranhando Lula.
Para Chávez, aumentar a cultura do álcool de cana é condenar à fome as populações miseráveis do continente, porque a área plantada a ser ampliada é a que serve para plantio de feijão e arroz. Lula rebateu, dizendo provir a fome da falta de condições de parte do povo para consumir. De tabela, ainda prometeu que não seriam utilizadas terras da Amazônia e do Pantanal para plantar cana.
E o carrasco ri
Essa é uma disputa grave. Porque se um dos caminhos do Brasil para vencer o subdesenvolvimento passa pelo álcool, a via para desmanchar igual objetivo da Venezuela, também. As previsões são de que não haverá amizade latino-americana nem identidade ideológica entre Chávez e Lula capaz de superar impasse de tal magnitude. Batemos de frente com nossos "hermanos" bolivarianos, ou vice-versa.
O périplo desenvolvido pelo presidente venezuelano pelos países não visitados por Bush envolve mais razões do que a vontade de chamar o presidente americano de satanás. O que ele pretende é assegurar petróleo barato aos vizinhos próximos e remotos, uma forma de desestimulá-los da transferência energética para o etanol. Cujos maiores produtores somos nós.
Não vamos chegar ao exagero de contar quantos moderníssimos aviões de caça russos Hugo Chávez comprou, nem o número de fuzis por ele adquiridos para armar a população. Mas é bom tomar cuidado. Qual seria a resposta de Caracas se Brasília tivesse o desplante de oferecer tecnologia de álcool ao seu governo, senão uma sonora gargalhada e uma rejeição até pouco educada? Resta saber se a recíproca será verdadeira, inversamente: se a Venezuela rompesse os acordos com o Brasil para parceria na implantação de refinarias, se negasse os acordos de fornecimento de gás, não poderíamos rir. Muito ao contrário.
De mais essa dor de cabeça que o presidente Lula deve estar sofrendo, impedido de pedir auxílio aos Estados Unidos por motivações políticas, tiram-se duas conclusões: George W. Bush demonstrou inteligência ao visitar o Brasil na semana passada e estimular a alternativa energética do álcool como forma de prejudicar Hugo Chávez. Como, também, a eterna lição da História que nunca aprendemos direito: apoio nas próprias forças, ampliação do mercado interno e desconfiança total na globalização e no livre diálogo entre fracos e fortes.
É sempre bom lembrar que a guilhotina não dialoga com o pescoço. O perigo é ficarmos batendo cabeça, ou mais do que isso, com a Venezuela, enquanto lá de cima, segurando a cordinha da guilhotina, o carrasco dá risadas homéricas ao acionar a lâmina mortal sobre os dois países. Afinal, conseguiu o que pretendia...
Repetição
Com todo o respeito, deu sono nos senadores a exposição dos ministros Guido Mantega, Dilma Rousseff e Paulo Bernardo no plenário do Senado, falando na Comissão de Assuntos Econômicos. Repetiram a ladainha de sempre, de que a economia vai bem, de que o Plano de Aceleração do Crescimento prevê obras fantásticas e que voltaremos a crescer.
A chefe da Casa Civil prometeu tudo, por meio do PAC. Metrôs aos montes, ferrovias, rodovias maravilhosas, portos com capacidade infinita de funcionamento, hidrelétricas, obras de saneamento como nunca se viu. Parecia o anúncio da chegada do Brasil ao Nirvana, ou melhor, do Nirvana ao Brasil.
Tomara que dê certo, milagres acontecem. Está aí, por poucas semanas, a santificação de Frei Galvão. A verdade, porém, é que os senadores continuaram céticos. Se era tão fácil assim mudar a face do País, por que o governo perdeu quatro anos mandando recursos para fora, fazendo reservas externas da ordem de US$ 100 bilhões e contingenciando dotações que teriam minorado de muito as agruras com segurança pública, educação e saúde? O governo Lula está diante de uma necessidade: prometer não adianta mais. É realizar ou cair no descrédito.