Por J.R. Guzzo , EXAME
Entra ano e sai ano e nada de começar o espetáculo do crescimento prometido pelo presidente Lula
Talvez nunca tenha havido antes, na história "deste país", um espetáculo mais demorado para começar. Entra ano e sai ano, em cada um deles o governo anuncia que a casa agora está arrumada e garante que o crescimento vai chegar aos tantos ou tantos por cento -- e até agora a platéia continua esperando que o show comece. Está esperando desde 2003. Vai ter de esperar durante 2007, pois 2006 já se foi e o número oficial para o crescimento da economia, que acaba de ser anunciado, ficou em 2,9%. Era mais ou menos o que já se sabia desde o fim do ano passado, quando ficou claro que as previsões do governo tinham virado paçoca de novo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia prometido que o PIB iria crescer por volta dos 5% em 2006. O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, chegou a dar como "garantido" um crescimento dessa ordem. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometia aqueles 5%. Não há de ser nada. No fim do ano, diante da comprovação de que tudo não havia passado de falatório ao acaso, Lula disse que já tinha "esquecido" 2006. Agora, no dia seguinte ao anúncio dos 2,9%, o ministro Mantega assegura que as perspectivas são ótimas e que o PIB de 2007 com certeza crescerá num ritmo "parecido" ao de 2004, quando chegou a aumentar 4,9%.
É claro que os números do PIB não animam ninguém; quanto às previsões de crescimento feitas agora, o máximo que se pode dizer é que têm o mesmo valor das anteriores. Mas também não parece ser o caso de um laudo de PT, ou perda total, como dizem os avaliadores das companhias de seguro. No mesmo momento em que se anunciava o crescimento de 2006, o Brasil passou a marca dos 100 bilhões de dólares em suas reservas externas -- isso sim algo que jamais tinha acontecido na história do país. A inflação está nos níveis mais baixos desde que foi dobrada pelo Plano Real. Os 2,9% de aumento do PIB não refletem o vigoroso e consistente crescimento do Nordeste -- que é, justamente, onde a economia mais precisa crescer. Também não há dúvida de que setores importantes da atividade econômica estão crescendo bem acima do número final de 2006. É um bom sinal, enfim, que desta vez o governo não tenha jogado a culpa de tudo no governo anterior. O próprio presidente Lula parece ter se cansado de falar na "herança maldita". Em vez disso, preferiu dizer que o presidente da República não pode, sozinho, fazer com que a economia cresça no ritmo que se deseja. Não pode mesmo, como também não se pode esperar que o crescimento venha só com a redução da taxa de juro, ou só com alterações no câmbio, ou só com isso ou só aquilo. Será que essa atitude mais realista vai se refletir em ações concretas, como Lula também está prometendo, para remover as travas que impedem, dentro do próprio governo, o avanço da atividade produtiva? É algo que resta a ver, mas seria muito pior se o presidente estivesse dizendo o contrário.
E pior ainda se a gente fosse pingüim, como observou Lula depois de ver, no dia seguinte ao anúncio dos números do PIB, um documentário sobre a brutal e desesperada existência dos pingüins no mundo gelado da Antártida. Ali, sim, a vida é dura.
Entra ano e sai ano e nada de começar o espetáculo do crescimento prometido pelo presidente Lula
Talvez nunca tenha havido antes, na história "deste país", um espetáculo mais demorado para começar. Entra ano e sai ano, em cada um deles o governo anuncia que a casa agora está arrumada e garante que o crescimento vai chegar aos tantos ou tantos por cento -- e até agora a platéia continua esperando que o show comece. Está esperando desde 2003. Vai ter de esperar durante 2007, pois 2006 já se foi e o número oficial para o crescimento da economia, que acaba de ser anunciado, ficou em 2,9%. Era mais ou menos o que já se sabia desde o fim do ano passado, quando ficou claro que as previsões do governo tinham virado paçoca de novo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia prometido que o PIB iria crescer por volta dos 5% em 2006. O ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, chegou a dar como "garantido" um crescimento dessa ordem. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometia aqueles 5%. Não há de ser nada. No fim do ano, diante da comprovação de que tudo não havia passado de falatório ao acaso, Lula disse que já tinha "esquecido" 2006. Agora, no dia seguinte ao anúncio dos 2,9%, o ministro Mantega assegura que as perspectivas são ótimas e que o PIB de 2007 com certeza crescerá num ritmo "parecido" ao de 2004, quando chegou a aumentar 4,9%.
É claro que os números do PIB não animam ninguém; quanto às previsões de crescimento feitas agora, o máximo que se pode dizer é que têm o mesmo valor das anteriores. Mas também não parece ser o caso de um laudo de PT, ou perda total, como dizem os avaliadores das companhias de seguro. No mesmo momento em que se anunciava o crescimento de 2006, o Brasil passou a marca dos 100 bilhões de dólares em suas reservas externas -- isso sim algo que jamais tinha acontecido na história do país. A inflação está nos níveis mais baixos desde que foi dobrada pelo Plano Real. Os 2,9% de aumento do PIB não refletem o vigoroso e consistente crescimento do Nordeste -- que é, justamente, onde a economia mais precisa crescer. Também não há dúvida de que setores importantes da atividade econômica estão crescendo bem acima do número final de 2006. É um bom sinal, enfim, que desta vez o governo não tenha jogado a culpa de tudo no governo anterior. O próprio presidente Lula parece ter se cansado de falar na "herança maldita". Em vez disso, preferiu dizer que o presidente da República não pode, sozinho, fazer com que a economia cresça no ritmo que se deseja. Não pode mesmo, como também não se pode esperar que o crescimento venha só com a redução da taxa de juro, ou só com alterações no câmbio, ou só com isso ou só aquilo. Será que essa atitude mais realista vai se refletir em ações concretas, como Lula também está prometendo, para remover as travas que impedem, dentro do próprio governo, o avanço da atividade produtiva? É algo que resta a ver, mas seria muito pior se o presidente estivesse dizendo o contrário.
E pior ainda se a gente fosse pingüim, como observou Lula depois de ver, no dia seguinte ao anúncio dos números do PIB, um documentário sobre a brutal e desesperada existência dos pingüins no mundo gelado da Antártida. Ali, sim, a vida é dura.
Deu tilt
Entre os defeitos de fábrica que têm marcado desde o começo o governo Lula, existe um, em especial, que até agora ninguém foi capaz de consertar: o sistema de transmissão. Pelo manual básico dos governos, toda vez que um comando é transmitido para a máquina, entram em ação peças que executam a instrução recebida. No caso brasileiro acontece o contrário: as peças entram em ação, mas anulam o comando. Sabe-se mui to bem onde está a fonte desse tilt perene. Ele é resultado de um curioso método de gestão pública, desenvolvido a partir de 2003, pelo qual se nomeia para cargos da administração gente que opera contra os objetivos, decisões e desejos do governo -- ou seja, os que deveriam comparecer diariamente a seus postos para fazer a máquina funcionar trabalham, justamente, para impedir que ela funcione.
Como todo defeito que realmente se preze, esse tem a tendência de surgir sempre nos piores momentos -- ou, mais exatamente, tem uma predileção malvada para bloquear as decisões mais corretas que o governo, a duras penas, consegue tomar. É um episódio claro de sabotagem contra a orientação oficial o que está acontecendo, por exemplo, na área da biotecnologia. O governo decidiu, já há tempo, promover uma cautelosa abertura em relação aos produtos transgênicos. Mas integrantes que ele próprio nomeou para compor a Comissão Técnica de Biossegurança, em que cada projeto de transgênico tem de ser aprovado por dois terços do plenário, bloqueiam de maneira sistemática qualquer proposta que apareça, de sementes a vacinas. Há, no momento, dez projetos enterrados ali -- impedindo assim que o Ministério da Ciência e Tecnologia cumpra uma das tarefas-chave que lhe foram conferidas pelo governo. O ministro Sérgio Rezende diz, com toda razão, que os inimigos dos transgênicos vivem "no início do século 20", quando se queria proibir a vacina contra a febre amarela. Vivem com a cabeça no século passado, mas é hoje que utilizam seu poder de voto e de veto.
Por que um governo precisaria de oposição se tem em seus quadros gente que se comporta assim? Os principais inimigos do governo Lula, hoje, estão dentro do próprio governo Lula. Fica cada vez mais difícil, diante disso, levar a sério o "novo ministério" que o presidente ainda não montou. A coisa toda, em si, já é uma comédia -- entre outros prodígios, conseguiu produzir uma possível ministra apresentada como absolutamente perfeita para ocupar nada menos do que três ministérios diferentes, a ex-prefeita Marta Suplicy. Mas, ainda que houvesse alguma intenção real de melhorar o desempenho do poder público com a formação da nova equipe, a pergunta é: para que serve um ministério se os ministros, e o próprio presidente que os comanda, não conseguem executar as decisões que tomam? Ninguém sabe responder.