terça-feira, março 13, 2007

A “síndrome da oposição responsável”

por Augusto de Franco, Blog Diego Casagrande
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Venho dizendo que as elites brasileiras são as grandes responsáveis pelo retrocesso democrático que vivemos no Brasil. Em artigo anterior examinei o comportamento das nossas elites econômicas. Constatei que, no Brasil de hoje, o financismo não se recusa a financiar – por enquanto indiretamente – o petismo, desde que seja bom para os negócios. Empreguei a expressão "síndrome da China" para explicar porque as elites econômicas brasileiras resolveram fingir que não estão vendo a escalada do banditismo de Estado promovida pelo governo Lula e pelo PT. Se imaginam que podem ganhar mais com o PAC, todo apoio à Lula. A "síndrome da China" fazia alusão à admiração dos nossos homens de negócios pelo milagre do crescimento do PIB chinês sem se preocuparem com o fato de que a China é uma ditadura.
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Conclui o artigo dizendo que apenas o comportamento politicamente irresponsável das nossas elites econômicas não explica o fato de continuarmos sendo governados por um irresponsável. E que seria necessário examinar também o comportamento de nossas elites políticas e sociais.
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Pois bem. Vamos examinar então o comportamento das nossas elites políticas. Dora Kramer, na sua coluna de 10 de março último, no Estadão, matou a charada. "A facilidade com que o governo conseguiu aprovar a primeira etapa das reformas e todas as propostas de seu interesse... é fruto da subserviência conquistada a poder de fisiologismo. Isso da parte dos governistas. No que tange à oposição, a bonança deveu-se a uma decisão dos perdedores de colaborar porque, à falta de idéias próprias e melhores para defender, preferiram não abrir guarda à acusação de que estariam querendo "prejudicar o Brasil" e tampouco quiseram se arriscar a contrariar o homem de 52 milhões de votos". Eis, revelados à luz do dia, os dois lados obscuros de nossas elites políticas: de um lado, o estatismo patrimonialista dos arcaicos; de outro, a indigência democrática dos modernos, acometidos – como cunhei há dois anos – de uma síndrome: a "síndrome da oposição responsável".
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Na ausência de oposição, o governo corrupto de Lula da Silva aboletou-se no Planalto e de lá não sairá facilmente. Como constatou Paulo Moura, em artigo de ontem, publicado neste site: "já há algum tempo a política brasileira gira em torno do PT. Antes, a lógica consistia em como se opor ao PT, para impedir que os petistas chegassem ao governo. Agora, consiste em como se aliar ao PT, como entrar no PT, como se vender para o PT. Esse é o caminho para chegar perto do poder, do PT. É assim e será assim por muito tempo ainda... O social-patrimonialismo petista venceu. Talvez seja isso o que Brizola chamava de socialismo moreno, ironicamente transformado em realidade por Lula, algoz político de Brizola e do velho trabalhismo. Daí vem a força de Lula. Aí mora o perigo. Por isso o petismo é mais danoso do que o socialismo bolivariano de Hugo Chávez. O Brasil não é a Venezuela. Bush sabe. Após o sopro de liberdade que parecia ameaçar a hegemonia do Estado sobre a sociedade e o mercado no Brasil, a chegada do petismo ao governo significa, esta sim, a ameaça real: a sobrevida histórica do estatismo caboclo, autoritário e paternalista de nossa cultura política".
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Está correto. E ainda não vimos todas as conseqüências da irresponsabilidade de nossas elites políticas. Estamos apenas no início.
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A "síndrome da oposição responsável" explica porque foi possível à Lula se recuperar sem mudar de comportamento. Para se diferenciar dos petistas, querendo ser mais responsáveis pelo governo, fora do governo, do que quando estavam no governo, os tucanos (e, em menor escala, os pefelistas) foram lenientes, coniventes e colaboracionistas com o lulopetismo. Com isso, possibilitaram a sobrevivência do banditismo de Estado e, agora, estão ensejando as condições para a hegemonia, não propriamente de uma "esquerda socialista" (bicho-papão que só existe na cabeça de um liberalismo passadista, ainda remanescente entre nós, conquanto muito reduzido) e sim de um projeto neopopulista, regressivo em termos democráticos. Como observou Reinaldo Azevedo em seu blog, na madrugada de domingo passado, " o PT não vai construir socialismo porcaria nenhuma... mas isso não quer dizer que tenha desistido de um projeto autoritário. Para se realizar, o fundamental é tomar o aparelho de Estado, o que está em curso, com formidável eficiência, e depois ir-se estabelecendo como uma espécie de consenso em todos os órgãos representativos da sociedade civil. Também está acontecendo ".
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A assombrosa adesão dos partidos fisiológicos – PMDB à frente – ao governo Lula só pode estar acontecendo por falta de alternativas políticas. As oposições se demitiram do futuro e estão se suicidando politicamente ao abrir mão do dever de elaborar, divulgar e lutar por alternativas. Do ponto de vista da nossa democracia substantiva – quer dizer, do processo de democratização da sociedade brasileira – o comportamento da oposição – PSDB à frente – foi e continua sendo tristemente decisivo. A "síndrome da oposição responsável" foi a cobertura para essa irresponsabilidade que vai nos levar a um retrocesso democrático de várias décadas e comprometerá, pelo menos, os destinos de uma geração inteira de brasileiros.
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No próximo artigo da série vamos falar da irresponsabilidade de nossas elites sociais, do setor cultural, dos homens e mulheres da mídia, dos intelectuais e professores universitários e, sobretudo, das corporações e da nova burocracia associacionista das ONGs quase totalmente impregnada pelo lulismo (90% votaram ou fizeram as campanhas de Lula para presidente 8 vezes seguidas nas últimas duas décadas) e controlada pelo petismo.