domingo, abril 08, 2007

Aeronáutica receia onda de indisciplina na tropa

Josias de Souza

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), reuniu os líderes partidários em sua casa, na noite desta segunda-feira (2), para discutir a CPI do Apagão Aéreo e a crise militar desencadeada pela decisão do governo de negociar com sargentos amotinados. Ele fez aos líderes um resumo de uma conversa que teve com o brigadeiro Juniti Saito, comandante da Aeronáutica.

Mais cedo, Chinaglia almoçara com Saito. Levara consigo o líder da minoria na Câmara, deputado Júlio Redecker (PSDB-RS). No relato que fez aos líderes, o presidente da Câmara revelou ter encontrado um comandante da Aeronáutica receoso dos efeitos danosos que os benefícios salariais aos controladores de vôo militares desencadearão na tropa.

De acordo com o informe que Chinaglia fez aos líderes, Saito teme que a negociação com os sargentos amotinados gere um movimento de indisciplina nas Forças Armadas. Saito disse que, a exemplo dos controladores de vôo- cerca de 2.400, dos quais 80% são militares— há nas Forças Armadas (Aeronáutica, Exército e Marinha) algo entre 12.000 e 13.000 “sargentos especialistas”.

Para Saito, a concessão de gratificações aos sargentos que cuidam do controle de vôo pode disseminar nesse naco da tropa, que não se restringe à Aeronáutica e cujos contracheques encontram-se igualmente reprimidos, um movimento por melhorias salariais que os comandos militares terão dificuldades para conter. Mencionou, por exemplo, o caso de operadores de rádio, alguns deles trabalhando em condições adversas na região Amazônica.

Chinaglia informou aos líderes que vai telefonar para Lula nesta terça-feira (3). Solicitará do presidente que Saito e o ministro Waldir Pires (Defesa) compareçam à Câmara para prestar informações. Sua idéia é a de que os dois participem de uma reunião reservada com o colégio de líderes, que reúne deputados governistas e oposicionistas.

Os líderes do PSDB, Antonio Carlos Pannunzio (SP); do PFL, Onyx Lorenzoni (RS); e do PPS, Fernando Coruja (SC) insistiram no encontro realizado na residência oficial do presidente da Câmara na tese de que o agravamento da crise justifica a instalação imediata da CPI do caos Aéreo. Foram contraditados, porém, pelos líderes governistas.

José Múcio (PTB-PE), líder da bancada do governo, repetiu na reunião o que dissera mais cedo. Acha que, em vez de justificar a CPI, a crise desencadeada na sexta-feira demonstra a desnecessidade de uma investigação parlamentar. Avalia que restou demonstrado que o problema se restringe a um movimento sindical dos controladores. O líder do PDT, Miro Teixeira (RJ), antes favorável à CPI, disse que os contornos militares que a crise assumiu requerem que o Legislativo dê suporte a Lula.

Mantido o impasse, Chinaglia voltou a dizer aos líderes que não instalará a CPI antes da manifestação final do STF. Acha, porém, que, a despeito do desencontro em relação à CPI, a visita de Saito e Pires à Câmara servirá para munir os líderes de informações úteis acerca dos detalhes da crise. Ficou de procurar novamente os representantes dos partidos depois de se acertar com Lula.