domingo, abril 08, 2007

Maioria dos jovens de 15 a 17 anos está fora do ensino médio

Agência Brasil

BRASÍLIA - O Brasil tem cerca de 10,6 milhões de jovens de 15 a 17 anos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2005. De cada dez brasileiros nessa faixa etária, praticamente dois não estudam, quatro estão no ensino fundamental e quatro, no ensino médio. Pela idade, todos deveriam estar no ensino médio.

Por causa do atraso acumulado no ensino fundamental, muitos jovens chegam ao ensino médio com a idade defasada. Os dados do Censo Escolar de 2005 indicam que quase metade dos alunos que estão nesta etapa tem idade superior à adequada para a série que freqüenta. Isso contribui para aumentar a idade de conclusão do ensino médio: de cada dez alunos que terminam o 3º ano, quatro têm mais de 17 anos.

Para o professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP) Naércio Menezes Filho, o Brasil precisa enfrentar não apenas o desafio de aumentar o acesso dos jovens ao ensino médio, mas também o de fazer com que eles possam terminar essa etapa na idade certa. Ele cita levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Segundo esse estudo, alunos de escolas públicas que concluem o ensino médio com até 18 anos têm melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). No exame do ano passado, eles tiveram média de 33,72. Já os jovens com mais de 18 anos tiveram média de 28,99.

- Os alunos atrasados, ou entraram tardiamente, por virem de famílias mais pobres, ou repetiram várias vezes ao longo do processo. Por isso é que eles estão atrasados, e isso explica o desempenho pior deles nos exames - diz ele.

Para os especialistas, a falta de interesse do aluno pela escola é outro fator que pode prejudicar o desempenho nos estudos. A presidente da União Nacional do Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Maria do Pilar Lacerda, diz que a escola precisa se atualizar para atrair os jovens.

- As escolas continuam usando as mesmas ferramentas e instrumentos dos anos 50, do século passado. O quadro negro, giz, copiar, um [aluno] sentado atrás do outro, usando apenas o livro e o caderno, e aí há esse divórcio entre o que a escola acha que é bom e o que os meninos precisam - afirma. - A escola tem que responder ao desafio da contemporaneidade. Essa é a busca: a busca da qualidade não é qualidade de escola pública para pobres, é a busca da qualidade da educação para meninos e meninas desse país do século 21.

Outro caminho para aproximar o ensino médio dos jovens é a oferta de cursos profissionalizantes nas escolas públicas, como explica o ministro da Educação, Fernando Haddad. Segundo ele, esse é um dos pontos do Plano de Desenvolvimento da Educação, que o governo federal deve anunciar este mês.

- Nós vamos investir fortemente na educação profissional no ensino médio. Havia uma lei que proibia a integração do ensino profissional ao ensino médio. Foi revogada pelo governo Lula, e agora nós temos todas as condições de oferecer para esse jovem uma perspectiva profissional.

Segundo o ministro, a previsão é que, em abril, seja publicado um edital para que os Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets) e institutos tecnológicos possam se candidatar a oferecer formação profissional para o jovem da escola pública de ensino médio.

- Isso vai melhorar muito as condições de ensino, além, é óbvio, do livro didático do ensino médio ,que não existia no passado, e dos laboratórios de informática que estão sendo instalados em todas as escolas públicas de ensino médio do país - destaca Haddad, em referência a outras iniciativas que o ministério vem tomando.

COMENTANDO A NOTÍCIA: Maria do Pilar Lacerda faz um diagnóstico, no mínimo, delinqüente. Nada do que disse justifica a falta de “atração” nas escolas. Aliás, este tipo de argumentação “técnica” só serve para retardar uma tomada adequada de providências, além de alimentar um certo ranço de parte de alguns especialistas (?) para o sistema tradicional, que no Brasil, sequer consegue copiar o que havia de melhor em termos de qualidade de ensino, ao que se praticava em 50 e 60. O que se vê é que houve, sim, mesmo que tais “especialistas” tentem negar, um retrocesso nos processos de ensino. A começar pela falta total de condições materiais das escolas. Depois, pela falta de preparo de grande número de professores. Quadro negro, giz, carteira, livro e caderno nunca impediram ninguém de estudar, nem tampouco foram motivadores de perda de qualidade, até pelo contrário. O que está faltando é a priorização de autoridades, professores, alunos e seus pais em relação ao ensino. Num país onde a malandragem faz escola, onde um presidente glamouriza seu analfabetismo, onde os políticos gigolôs cada vez se lambuzam mais e mais na porcaria e amealham cada vez mais patrimônio sem o incômodo de prestarem contas à justiça (se é que ela de fato existe no Brasil), estudar para se dar bem na vida é um conceito, este sim, ultrapassado, e que fazia parte das vidas de todos os alunos, meninos e meninas, nos anos 50 e 60.

O que a senhora Maria do Pilar tenta justificar não tem o menor alcance respaldo na realidade. Podemos até indicar outro ponto que talvez esta “especialista” não tenha se dado conta: a da falta de perspectiva de futuro para quem estuda. Um país que não gera oportunidades, que não cresce economicamente, que sofre o desgaste vergonhoso da redução de salários e perda de renda familiar já há tempo, vai oferecer o quê para os jovens de 15 e 17 anos ? Um país que sequer os atrai para a prática de atividades culturais e esportivas, que esperança é capaz de oferecer para a nossa juventude ? Portanto, senhora Maria do Pilar, seria melhor você largar estes ranços de lado, e se espelhar apenas na realidade, sem ufanismos nem hipocrisias, nem tampouco estes ideologismos capengas que tenta vender uma ilusão baseada em falsas premissas.