Editorial do Valor Econômico
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Ou foi a opção preferencial pela política institucional, onde o que importa é exclusivamente o poder; ou a excessiva elasticidade para fazer alianças; ou a banalização do ilícito que, teoricamente, perpassaria a opção pelo poder institucional - ou tudo isso junto. Independente das causas, o fato é que, ou o PT perdeu os mecanismos de controle sobre os seus filiados, ou começou a achar normal o que antes, se não era considerado ilegal, dentro do partido era tido como imoral: a nomeação de parentes; uma partilha de poder sem nenhum cuidado ético; e uma visão do Estado como extensão do particular.
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Não fosse assim, alguma providência teria sido tomada, por exemplo, contra o ex-governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zéca do PT, que cumpriu oito anos de mandato sob acusações - provadas pelo Diário Oficial - de contratação de parentes e outras coisas mais e terminou com a "aceitação" de uma aposentadoria, aprovada pela Assembléia no apagar das luzes de seu governo.Não houvesse ocorrido alguma mudança nos parâmetros do PT sobre o que é ilegal e ético, o consultor-geral do Pará, Carlos Botelho, escalado pela governadora Ana Júlia Carepa para defendê-la de acusações de nepotismo e favorecimento de amigos, não teria usado uma justificativa que, no mínimo, é irônica: "Isso é perfumaria", afirmou.
Não fosse assim, alguma providência teria sido tomada, por exemplo, contra o ex-governador José Orcírio Miranda dos Santos, o Zéca do PT, que cumpriu oito anos de mandato sob acusações - provadas pelo Diário Oficial - de contratação de parentes e outras coisas mais e terminou com a "aceitação" de uma aposentadoria, aprovada pela Assembléia no apagar das luzes de seu governo.Não houvesse ocorrido alguma mudança nos parâmetros do PT sobre o que é ilegal e ético, o consultor-geral do Pará, Carlos Botelho, escalado pela governadora Ana Júlia Carepa para defendê-la de acusações de nepotismo e favorecimento de amigos, não teria usado uma justificativa que, no mínimo, é irônica: "Isso é perfumaria", afirmou.
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Em parte, ele tem razão. Carepa, que assumiu no dia 1º de janeiro deste ano, presenteou não apenas a família com cargos no governo, mas nomeou como assessoras sua cabeleireira e sua esteticista. Perfumaria, de fato: a governadora não se descuidou da maquiagem. Mas não pegou bem. As duas foram retiradas do decreto de nomeação. Não houve nenhum constrangimento, todavia, na contratação do namorado, do ex-marido, do irmão do ex-marido, da ex-mulher do ex-cunhado e de seus irmãos Luiz Roberto Vasconcelos Carepa e José Otávio de Vasconcelos Carepa. Segundo o consultor-geral do governo, "ex-marido, ex-cunhado e ex-mulher de ex-cunhado não são parentes". Namorado também não é parente. Irmão é, mas os dois foram contratados por secretários de governo, e por isso a governadora não põe na sua cota de nepotismo.Como aliança é aliança, e sua vitória foi obtida graças ao apoio do deputado Jader Barbalho (PMDB) - que no passado teve de renunciar a um mandato de senador para não perder os direitos políticos por malversação de dinheiro público -, o político teve também direito à sua cota: oito amigos em secretarias e empresas públicas. O indicado por Jader para a Junta Comercial é seu companheiro de cela: José Guedes Tourinho chegou a ser preso com seu padrinho quando estourou o escândalo da Sudam.
Em parte, ele tem razão. Carepa, que assumiu no dia 1º de janeiro deste ano, presenteou não apenas a família com cargos no governo, mas nomeou como assessoras sua cabeleireira e sua esteticista. Perfumaria, de fato: a governadora não se descuidou da maquiagem. Mas não pegou bem. As duas foram retiradas do decreto de nomeação. Não houve nenhum constrangimento, todavia, na contratação do namorado, do ex-marido, do irmão do ex-marido, da ex-mulher do ex-cunhado e de seus irmãos Luiz Roberto Vasconcelos Carepa e José Otávio de Vasconcelos Carepa. Segundo o consultor-geral do governo, "ex-marido, ex-cunhado e ex-mulher de ex-cunhado não são parentes". Namorado também não é parente. Irmão é, mas os dois foram contratados por secretários de governo, e por isso a governadora não põe na sua cota de nepotismo.Como aliança é aliança, e sua vitória foi obtida graças ao apoio do deputado Jader Barbalho (PMDB) - que no passado teve de renunciar a um mandato de senador para não perder os direitos políticos por malversação de dinheiro público -, o político teve também direito à sua cota: oito amigos em secretarias e empresas públicas. O indicado por Jader para a Junta Comercial é seu companheiro de cela: José Guedes Tourinho chegou a ser preso com seu padrinho quando estourou o escândalo da Sudam.
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Provavelmente, será na casa alugada num condomínio de luxo pela governadora que ela e seu aliado pemedebista tratarão dos interesses comuns aos dois partidos. Com a benção de Brasília. O próprio presidente Lula disse que Barbalho foi "injustiçado".
Provavelmente, será na casa alugada num condomínio de luxo pela governadora que ela e seu aliado pemedebista tratarão dos interesses comuns aos dois partidos. Com a benção de Brasília. O próprio presidente Lula disse que Barbalho foi "injustiçado".
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Os exageros da governadora, que tão cedo se adaptou aos usos e costumes da política paraense, sequer mereceram atenção da direção nacional do PT - assim como não se percebeu a desaprovação da direção nacional a nenhum desmando do ex-governador Zéca do PT. Afinal, essas duas omissões não ficam devendo em nada ao comportamento do partido quando viu parte de sua direção nacional envolvida no escândalo do "mensalão".
Os exageros da governadora, que tão cedo se adaptou aos usos e costumes da política paraense, sequer mereceram atenção da direção nacional do PT - assim como não se percebeu a desaprovação da direção nacional a nenhum desmando do ex-governador Zéca do PT. Afinal, essas duas omissões não ficam devendo em nada ao comportamento do partido quando viu parte de sua direção nacional envolvida no escândalo do "mensalão".
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Para um partido que, durante décadas, tentou afirmar-se junto à opinião pública como o único capaz de resistir às tentações do poder, chega a ser patética a omissão dedicada a esses exageros dos petistas que conquistaram posições de destaque na vida nacional. As instâncias criadas na origem do partido, que teoricamente deveriam cuidar dos deslizes não apenas ideológicos, mas éticos, de seus pares, viraram adorno no estatuto do partido.
Para um partido que, durante décadas, tentou afirmar-se junto à opinião pública como o único capaz de resistir às tentações do poder, chega a ser patética a omissão dedicada a esses exageros dos petistas que conquistaram posições de destaque na vida nacional. As instâncias criadas na origem do partido, que teoricamente deveriam cuidar dos deslizes não apenas ideológicos, mas éticos, de seus pares, viraram adorno no estatuto do partido.
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O problema é que, ao se omitir perante casos escandalosos como esses, a direção petista não apenas está aceitando desvios de conduta, mas colocando toda a sua militância - e a maioria não abusou do poder, ou sequer teve acesso a ele - no mesmo saco. Fazem todos hoje parte da máxima que "todos os políticos são iguais" - inclusive aqueles que não sucumbiram ao oportunismo ou à falta de ética. O PT adota hoje tudo o que condenava ontem. Sem remorsos.
O problema é que, ao se omitir perante casos escandalosos como esses, a direção petista não apenas está aceitando desvios de conduta, mas colocando toda a sua militância - e a maioria não abusou do poder, ou sequer teve acesso a ele - no mesmo saco. Fazem todos hoje parte da máxima que "todos os políticos são iguais" - inclusive aqueles que não sucumbiram ao oportunismo ou à falta de ética. O PT adota hoje tudo o que condenava ontem. Sem remorsos.