quinta-feira, abril 19, 2007

Desmoralização do poder público

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Certas barbaridades, tantas vezes repetidas, acabam virando rotina, sem indignar mais ninguém. Tome-se as invasões de repartições públicas urbanas pelos sem-terra. Ainda esta semana, aqui na capital federal, 800 integrantes do MST ocuparam um prédio de 23 andares, na Esplanada dos Ministérios, onde funciona o Incra. Lá também se localizam, em andares diversos, a Advocacia Geral da União e departamentos do Ministério do Planejamento.

Não dá para entender como os invasores, acampados um dia antes nos gramados fronteiriços, arrombaram, entraram, subiram, ocuparam e depredaram gabinetes e arquivos sem que o poder público soubesse de nada, antecipadamente. Uma operação dessas é programada com antecedência, nos mínimos detalhes. Mais ou menos como foi a recente invasão do Congresso. Por onde andam os órgãos de informação, com a Abin à frente? Esqueceram a arte da infiltração em movimentos violentos?

Pior ainda: que poder público é esse que se mantém inerte, de braços cruzados, diante da desmoralização explícita do governo e das instituições? Não acontece nada. Os invasores retiraram-se na madrugada seguinte, entoando slogans e desafiando os poucos policiais militares postados do lado de fora.

Vale repetir pela milésima vez que os sem-terra têm todo o direito de reivindicar um pedaço de chão. Justificam-se as invasões de propriedades rurais improdutivas e até o confronto com autoridades estaduais. Mas, no asfalto, ainda mais no centro das decisões nacionais, de jeito nenhum. É uma barbaridade.

Até uma cozinha foi montada na garagem da sede do Incra, para alimentar os insurrectos através de muito bem organizada distribuição de pratos de comida.
Multiplique-se a baderna pelas principais capitais. De Recife a Curitiba, de Belém a Belo Horizonte, tem sido a mesma coisa, faz tempo. Em Brasília, já invadiram até o Ministério da Fazenda, colocando um peru na escrivaninha do ministro.

Da desmoralização do Executivo e do Legislativo sobra mesmo o Judiciário, mas quem garante que qualquer dia o MST não invadirá o STF.

As mãos do gato
Reúne-se mais uma vez, amanhã, o Diretório Nacional do PT. A reforma política continuará sendo debatida, o que parece salutar, já que os petistas defendem o financiamento público das campanhas, a fidelidade partidária e até a votação em listas, nas eleições proporcionais. Faltam alguns ajustes para o partido unificar o pensamento de suas diversas tendências.

O principal tema da reforma política, porém, não será debatido. Nem por sombra o PT se pronunciará, por enquanto, a respeito da revogação do princípio da reeleição. A idéia é deixar passar algum tempo, tendo em vista que o presidente Lula aproveitou-se da prerrogativa para conquistar mais um mandato. Condenar a reeleição, agora, seria assinar uma confissão de casuísmo, ou seja, de ajeitar as instituições de acordo com os interesses do momento.

Acresce que muita gente, no partido, imagina nova vitória em 2010, mesmo com outro candidato, dado o impedimento de Lula concorrer a terceiro mandato. Existem, contudo, defensores da tese de que, revogadas as regras constitucionais de hoje, alteradas pelo fim da reeleição e a ampliação dos mandatos presidenciais de quatro para cinco anos, desaparecerá impedimento.

Zerado o passado, o raciocínio desemboca no direito de todo cidadão candidatar-se pelas novas regras. Inclusive Lula. Por isso, a palavra de ordem, no PT, é deixar que os demais tomem a iniciativa de levantar o fim da reeleição, embarcando mais tarde. Isso se chama tirar as castanhas do fogo com as mãos do gato...

Ironia
Como era previsto, Lula tornou-se alvo dos "hermanos". Disposto à conciliação, ou seja, de o Brasil participar dos novos projetos envolvendo petróleo e gás, mas oferecendo a alternativa do etanol, o presidente precisou reagir. Rebateu a argumentação de Hugo Chávez, endossada pelos demais, de que plantar cana significará reduzir as áreas para produzir cereais, contribuindo para a fome no continente.

Para Lula, o Brasil e os demais países dispõem de terra suficiente para as duas atividades. O irônico na história é que países ditos socialistas unem-se aos interesses das multinacionais do petróleo e acusam o Brasil de depredar a Floresta Amazônica para produzir etanol, contribuindo para o aquecimento do planeta...