quinta-feira, abril 19, 2007

O que Mangabeira pensava do governo Lula

Adelson Elias Vasconcellos

Pois bem, vocês devem ter lido que Lula vai criar uma Secretaria de Ações de Longo Prazo (?). Com que finalidade, sei lá. Acredito que Lula deva estar preocupado com índice de 10% no desemprego, e pretenda assim, reduzir este índice, à força de abrigasr no governo todos os companheiros, cooptados e novos alinhados perdidos na selva do capitalismo cruel. É a ideologia dos novos tempos. Se vai dar certo, não sei. Sei é que no fim, como somos nós contribuintes que acabamos pagando a conta, acabará que os impostos não terão espaço algum para serem reduzidos. Não se para de gastar. E gasto inútil, bem se vê.

Sei também que, o de que menos precisamos, é de um estado maior ainda do que já é. Paquidérmico e perdulário, quanto maior o tornarem além da maior a despesa que ele consumirá, maior dificuldade de gestão honesta e racional se terá. Já nos basta, porque demasiada além da conta, a caótica gestão que hoje se pratica. Para a tal inútil secretaria, apresenta-se como provável ocupante o senhor Roberto Mangabeira Unger.

Confiram na reportagem da Folha São Paulo:

Lula deve convidar Mangabeira Unger para Secretaria

De acordo com informações do jornal Folha de S. Paulo, o presidente Lula deve convidar na próxima quinta-feira Mangabeira Unger para assumir a Secretaria de Ações de Longo Prazo, uma pasta com status de ministério.
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Unger é fundador e vice-presidente do PRB, partido do vice-presidente da República José Alencar, e foi o coordenador do programa de governo do então candidato à presidência da República Ciro Gomes (PSB-CE), em 2002. A secretaria deve abrigar o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e o NAE (Núcleo dos Assuntos Estratégicos), antes vinculados ao ministério do Planejamento. O NAE já foi controlado pelo ex-ministro Luiz Gushiken.”


Mas afinal quem é o dito cujo? Em resumo tomamos emprestado uma pequena biografia editada por Reinaldo Azevedo em seu blog:

Neto do udenista Otávio Mangabeira — aquele que disse que a democracia brasileira era uma plantinha tenra —, ele é formado em direito e fez carreira meteórica na Universidade Harvard, tendo morado boa parte da vida nos EUA, daí aquele seu sotaque, digamos, universal. Já emprestou suas teses ao PDT de Brizola, sem sucesso, e a Ciro Gomes, idem. Ex-crítico severo do PT, de seu corporativismo e de seu mercadismo, nunca ninguém entendeu direito que diabos ele quer para o Brasil.”

Pois bem. Unger vai fazer companhia à galeria de “ressuscitados” de Lula, gente que o criticou e agora vai andar de braços dados esquecendo-se do passado de críticas. Assim, já temos apenas para exemplificar, Geddel Lima, Jader Barbalho, Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e Orestes Quércia, para ficar apenas nos “graudões”.

Então leiam o que Mangabeira Unger, este bravo, pensava sobre Lula e seu governo há um ano e meio atrás. O artigo a seguir foi assinado pelo próprio e publicado na Folha de S. Paulo em 15 de novembro de 2005.
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Pôr fim ao governo Lula
Roberto Mangabeira Unger

Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.

Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas.

Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem,em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.

Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.
Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.

Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.
Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.

Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.

Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.

Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.

Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas.

Comentando
Pois prá ver né: o sujeito que escreve e defende coisas do tipo ”(...) Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas(..)”, e depois vem e se alia àquele a quem combateu ferozmente e acusou como o mais corrupto presidente da história (no que estava absolutamente certo), e nem bem passados um ano e meio do que escreveu, se prontifica a aceitar um cargo de Secretário, em nível de ministro de estado, para a Secretaria de Ações de Longo Prazo, merece crédito ? Tanto a aliança é indecorosa quanto o próprio cargo é de descomunal inutilidade.

Mas é assim que, de mediocridade em mediocridade, de imbecilidade em imbecilidade, de cretinice em cretinice, se vai desconstruindo o país do futuro. Já estamos na retaguarda do bloco dos países emergentes em matéria de crescimento. Estamos à deriva em matéria de liderança continental, que sempre ocupamos sem precisarmos apresentar candidatura formal para tanto. Era uma posição natural pela grandeza e riqueza, como também posição de absoluta independência em relação aos latinos. Agora, estamos empatando dinheiro a rodo em projetos inúteis, rasgando nossa diplomacia para ficar no baixo ventre do servilismo capenga e idiota, levando pé na bunda de mentes naturalmente subalternas, mas que insistimos em qualificar como líderes de porra nenhuma.
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Agimos no ressurgimento do anacronismo caudilhesco que tanto mal já fez para a América Latina mas que insistimos em emprestar uma mística de redenção salvadora, quando na verdade não passa de uma aventura infantil e mistificadora, a enterrar de vez o pouco de esperança que se nutriu no início deste século, para o surgimento de um continente alimentado de riqueza, progresso e liberdade. A partir de novos “príncipes” alimentados à atraso e caducidade, mais nos distanciamos da civilização que comanda os novos tempos. Enquanto no Primeiro Mundo se anda na velocidade da luz, aqui, há ainda os perturbados de consciência que sonham com charretes movidas a tração animal. Dada sua visão de mundo, até que, se os colocarem a puxar as ditas cujas, o papel lhes assenta melhor. Não se poderiam arranjar melhores jumentos.