Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
BRASÍLIA - O País amanhece tenso, hoje, como amanheceu ontem e amanhecerá amanhã, domingo e segunda-feira. Por quê? Porque certeza ninguém tem da realização de mais um round na crise do apagão aéreo. Os controladores de vôo aceitaram a derrota, o enquadramento e a perspectiva de cadeia por conta do motim do último fim de semana? Deixará, a categoria, de reagir com as únicas e letais armas de que dispõe, a greve ou a operação-padrão?
A poeira parece longe de assentar, em meio à trapalhada feita pelo governo, de primeiro afastar a Aeronáutica de um problema essencialmente dela e, depois, dar o dito pelo não dito e prestigiar o comandante da força. Uma biruta de aeroporto não faria melhor, com o vento soprando de todos os lados.
Tratados como sindicalistas e tendo recebido do ministro do Planejamento, por escrito, promessas de que não seriam punidos, de que haveria a desmilitarização do setor e, de quebra, gratificações especiais, de repente os controladores voltaram a ser militares e agora enfrentam inquéritos, processos na Justiça Militar, julgamento pelos tribunais castrenses, cadeia e demissão.
No reverso da medalha, os comandantes das três Forças Armadas precisaram falar grosso com o presidente Lula, exigindo a devolução de suas prerrogativas de cultores da hierarquia e da disciplina.
A pergunta que a gente faz é se tudo isso não poderia ter sido evitado desde que os governos Fernando Henrique e Lula passaram a aplicar o abominável sistema dos contingenciamentos indiscriminados. Os equipamentos de controle do tráfego aéreo precisavam modernizar-se desde os anos oitenta, verbas orçamentárias foram votadas para tanto e para a ampliação do número de controladores, mas o que se viu nos consulados de Pedro Malan, Antônio Palocci e agora Guido Mantega?
Cofres fechados e dinheiro sendo utilizado para fazer superávit primário e pagar os juros das dívidas externa e pública, enriquecendo ainda mais os bancos nacionais e estrangeiros. Recursos não apenas para as Forças Armadas, mas para a educação, a saúde, a segurança pública, os transportes e as rodovias ficaram apenas no papel.
O resultado aí está: caos amplo, geral e irrestrito em setores vitais para o funcionamento do Brasil como nação. Pagou-se antecipadamente o débito para com o FMI, ao tempo em que aumentaram nossas reservas lá fora, dando lucro aos bancos e financeiras multinacionais à custa do nosso desenvolvimento.
Aguarda-se, enfim, o cumprimento das promessas dos controladores antes amotinados. O diabo, com perdão de citá-lo em plena Sexta-Feira da Paixão, é se ficarem desesperados, porque também não lhes falta razão.
Lógica posta em dúvida
Milhares de tratados sobre a Lógica vêm sendo produzidos desde os tempos dos filósofos pré-socráticos. Nada melhor para o aprimoramento da Humanidade, mas, de quando em quando, a gente percebe algum viés antilógico no exercício da Lógica. Esta semana, recuperado de longa enfermidade, reassumiu sua cadeira no Senado o bravo Epitácio Cafeteira, do Maranhão.
Fiel às obrigações partidárias, já que o PTB, seu partido, apóia o governo Lula, o ex-governador fez a defesa do presidente da República em meio à crise do apagão aéreo. Foi perfeito no raciocínio empírico, mas formulou grave distorção lógica, em nome da própria. Concluiu eximindo Lula de qualquer responsabilidade nos acontecimentos, atribuindo toda a culpa a seus ministros. Chegou a sugerir mudanças no ministério, dois dias depois de recomposto, anunciado e fotografado.
Propôs a extinção do Ministério da Defesa e o retorno dos ministérios militares. Ora, pudessem opinar Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Thomaz de Aquino, Espinoza, Kant, Hegel e quantos sucessores apareceram, e todos se levantariam contra a Lógica de Cafeteira. Afinal, o responsável maior por tudo o que vem acontecendo não pode deixar de ser o presidente da República. Pode ser que o senador se tenha baseado na linear e lógica resposta que deu quando aluno do curso primário, ao responder à professora. Ela indagou de onde vinha a manga e o futuro senador foi rápido: "Da mangueira". E a maçã? "Da macieira." A pêra? "Da pereira." E o café? "Da cafeteira..." Lógica também confunde.
BRASÍLIA - O País amanhece tenso, hoje, como amanheceu ontem e amanhecerá amanhã, domingo e segunda-feira. Por quê? Porque certeza ninguém tem da realização de mais um round na crise do apagão aéreo. Os controladores de vôo aceitaram a derrota, o enquadramento e a perspectiva de cadeia por conta do motim do último fim de semana? Deixará, a categoria, de reagir com as únicas e letais armas de que dispõe, a greve ou a operação-padrão?
A poeira parece longe de assentar, em meio à trapalhada feita pelo governo, de primeiro afastar a Aeronáutica de um problema essencialmente dela e, depois, dar o dito pelo não dito e prestigiar o comandante da força. Uma biruta de aeroporto não faria melhor, com o vento soprando de todos os lados.
Tratados como sindicalistas e tendo recebido do ministro do Planejamento, por escrito, promessas de que não seriam punidos, de que haveria a desmilitarização do setor e, de quebra, gratificações especiais, de repente os controladores voltaram a ser militares e agora enfrentam inquéritos, processos na Justiça Militar, julgamento pelos tribunais castrenses, cadeia e demissão.
No reverso da medalha, os comandantes das três Forças Armadas precisaram falar grosso com o presidente Lula, exigindo a devolução de suas prerrogativas de cultores da hierarquia e da disciplina.
A pergunta que a gente faz é se tudo isso não poderia ter sido evitado desde que os governos Fernando Henrique e Lula passaram a aplicar o abominável sistema dos contingenciamentos indiscriminados. Os equipamentos de controle do tráfego aéreo precisavam modernizar-se desde os anos oitenta, verbas orçamentárias foram votadas para tanto e para a ampliação do número de controladores, mas o que se viu nos consulados de Pedro Malan, Antônio Palocci e agora Guido Mantega?
Cofres fechados e dinheiro sendo utilizado para fazer superávit primário e pagar os juros das dívidas externa e pública, enriquecendo ainda mais os bancos nacionais e estrangeiros. Recursos não apenas para as Forças Armadas, mas para a educação, a saúde, a segurança pública, os transportes e as rodovias ficaram apenas no papel.
O resultado aí está: caos amplo, geral e irrestrito em setores vitais para o funcionamento do Brasil como nação. Pagou-se antecipadamente o débito para com o FMI, ao tempo em que aumentaram nossas reservas lá fora, dando lucro aos bancos e financeiras multinacionais à custa do nosso desenvolvimento.
Aguarda-se, enfim, o cumprimento das promessas dos controladores antes amotinados. O diabo, com perdão de citá-lo em plena Sexta-Feira da Paixão, é se ficarem desesperados, porque também não lhes falta razão.
Lógica posta em dúvida
Milhares de tratados sobre a Lógica vêm sendo produzidos desde os tempos dos filósofos pré-socráticos. Nada melhor para o aprimoramento da Humanidade, mas, de quando em quando, a gente percebe algum viés antilógico no exercício da Lógica. Esta semana, recuperado de longa enfermidade, reassumiu sua cadeira no Senado o bravo Epitácio Cafeteira, do Maranhão.
Fiel às obrigações partidárias, já que o PTB, seu partido, apóia o governo Lula, o ex-governador fez a defesa do presidente da República em meio à crise do apagão aéreo. Foi perfeito no raciocínio empírico, mas formulou grave distorção lógica, em nome da própria. Concluiu eximindo Lula de qualquer responsabilidade nos acontecimentos, atribuindo toda a culpa a seus ministros. Chegou a sugerir mudanças no ministério, dois dias depois de recomposto, anunciado e fotografado.
Propôs a extinção do Ministério da Defesa e o retorno dos ministérios militares. Ora, pudessem opinar Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Thomaz de Aquino, Espinoza, Kant, Hegel e quantos sucessores apareceram, e todos se levantariam contra a Lógica de Cafeteira. Afinal, o responsável maior por tudo o que vem acontecendo não pode deixar de ser o presidente da República. Pode ser que o senador se tenha baseado na linear e lógica resposta que deu quando aluno do curso primário, ao responder à professora. Ela indagou de onde vinha a manga e o futuro senador foi rápido: "Da mangueira". E a maçã? "Da macieira." A pêra? "Da pereira." E o café? "Da cafeteira..." Lógica também confunde.