sexta-feira, abril 06, 2007

E o João da Silva com isso?

José Paulo Kupfer, NoMínimo

Quando foi dormir de terça-feira para quarta, João da Silva estava na mesma situação em que sempre esteve. Vivendo de bico, na pindaíba, sem saber muito bem como arrumar um trocado para tocar o dia seguinte e o próximo.

O país em que nascera e morava estava há anos com a economia travada. Crescia pouco, numa média de 2,4% ao ano, nos últimos dez anos. O baixo crescimento tornava o emprego difícil, principalmente para os menos qualificados como ele. No último ano, A carga tributária chegara a 38% do PIB e a taxa de investimento a 20%. Ah, sim, a relação dívida líquida ainda se mantinha acima de 50% do PIB.

Quando João da Silva foi dormir na quarta-feira, ele continuava vivendo de bico, na pindaíba, sem saber muito bem como arrumar um trocado para tocar o dia seguinte e o seguinte. Mas o país dele parecia que era outro. A economia crescia, em média, 2,54, nos últimos dez anos. A dívida líquida despencara para 46% e a famigerada carga tributária recuara para pouco mais de 33% do PIB.

A vida de João da Silva e dos demais brasileiros não mudou uma vírgula com a mudança no cálculo do Produto Interno Bruto. Nem a economia destravou. Mas o crescimento médio anual, no período Lula, aumentou de 2,6% para 3,2%, ao mesmo tempo em que o crescimento médio anual, no período FHC recuou de 2,1% para 2%.

As mudanças no cálculo do PIB, recomendadas por organismos internacionais, incorporaram ao cálculo da produção líquida anual do País novos setores da economia, da mesma forma que pesquisas mais precisas sobre diversas atividades, antes consideradas com base em variáveis menos aproximadas da realidade, passaram a entrar na contabilidade.

Nem por isso, deixou de ser acalorado o debate sobre as intenções do IBGE e do governo ao promover mudanças no cálculo do PIB.

Moral da história: no Brasil, muito se discute, pouco melhora na vida cotidiana das pessoas.