quinta-feira, abril 12, 2007

Estatais financiam marcha dos prefeitos

Correio Braziliense
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Quando os prefeitos decidiram, em 1998, vir em romaria a Brasília foi a contragosto do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Na décima edição da Marcha a Brasília, a relação com o Executivo federal mudou muito. Com o patrocínio de cinco empresas do governo, os prefeitos voltam à cidade com a expectativa de aumentar o repasse de verba para os municípios. Lula está disposto a atender a algumas reivindicações. Mas parte da pauta já está destinada ao fracasso, como o pedido de aumento de um ponto percentual no Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
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Lula participará da abertura do encontro hoje pela manhã, em um hotel da cidade. Pouco antes, ele fará uma reunião com os ministros da Casa Civil, Dilma Rousseff; da Fazenda, Guido Mantega; e de Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia. Eles informarão ao presidente o que é possível ceder aos administradores dos municípios. O presidente repassou ontem aos três ministros a tarefa de analisar as reivindicações e apresentar uma resposta hoje, para que ele dê uma boa notícia aos prefeitos. Há cerca de um mês, o presidente se reuniu com todos os governadores, e ouviu suas reivindicações.
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Desde que Lula assumiu a Presidência da República, tem feito questão de mobilizar o governo para atender os prefeitos. As estatais, por exemplo, têm dado forte apoio à marcha. Desta vez, cinco empresas patrocinam o encontro. O Banco do Brasil investiu R$ 200 mil no evento. Segundo a assessoria de imprensa do banco, a marcha é uma oportunidade de reforçar a relação com um público-alvo. A Petrobras, que investe na marcha desde 2001, fez uma cota de patrocínio de R$ 100 mil. Segundo assessores da estatal, o “evento vem se apresentando como uma oportunidade estratégica de negócios com as prefeituras do Brasil.” A empresa vai expor “produtos asfálticos” em um estande no encontro.
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A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é outra patrocinadora. A assessoria de imprensa da agência também diz que o evento é uma oportunidade de divulgar ações voltadas aos municípios, como a compensação financeira que destina recursos a áreas inundadas por reservatórios de hidrelétricas. A Caixa e o Sebrae também patrocinam a marcha.
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A pauta
A boa relação com o Palácio do Planalto, porém, não garante atendimento integral das reivindicações. É certo, por exemplo, que um ponto da pauta não será atendido. No ano passado, governistas juraram que iriam cumprir a promessa de aumentar em um ponto percentual os recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), elevando de 22,5% para 23,5% a parcela destinada aos municípios no total arrecadado do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A decisão garantiria R$ 1,3 bilhão a mais por mês aos municípios.
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O governo já avisou que só eleva o percentual do FPM quando for aprovada a reforma tributária. Não há o menor sinal de que isso possa ocorrer um dia. “Até hoje não se vê mais nada de reforma tributária, porque a União viu atendidas suas necessidades”, analisa o presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski. “Não estamos nem falando mais desse 1% porque é um desrespeito total.”
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Lula deve buscar outra forma de agradar os prefeitos. Eles se queixam de que o governo não repassa recursos suficientes para bancar programas federais nos municípios, como o Saúde da Família. A maior parte da pauta elaborada para o encontro, porém, depende do Congresso. Eles exigem a aprovação do projeto que limita em 1,5% o pagamento de precatórios (dívidas judiciais) dos municípios; a regulamentação da emenda constitucional 29, que trata do financiamento da saúde; o repasse de recursos dos estados aos municípios para transporte escolar e a mudança de critério de repasse da verba do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), priorizando as creches, além do aumento de recursos do FPM.
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Memória: Movimento teve início em 1998
A pauta da Marcha de Prefeitos tem temas constantes, desde a primeira edição, em 1998. A cobrança por aumento do percentual do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), por exemplo, surgiu na primeira marcha, organizada sem apoio do governo federal. Só no ano seguinte, o governo Fernando Henrique Cardoso cedeu à reivindicação, na 2ª Marcha. Em 2005, porém, o tema voltou à pauta. O governo e parlamentares comprometeram-se a elevar em um ponto percentual o repasse de recursos do FPM.O ex-deputado Severino Cavalcanti, então presidente da Câmara, chegou a dizer que os prefeitos poderiam ir a seu gabinete cobrar o cumprimento da promessa. Até hoje a proposta, que faz parte do projeto de reforma tributária, não foi aprovada no Congresso.
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A marcha começou contra a vontade do ex-presidente Fernando Henrique. Mas ao ser eleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva percebeu a oportunidade de utilizar a presença dos prefeitos em Brasília para conquistar aliados nos estados.Em 2003, ele foi o primeiro presidente da República a participar da marcha, além de enviar uma tropa de ministros ao encontro. Desde então, Lula aproveita o encontro para reduzir resistências e anunciar boas notícias aos prefeitos. Nos últimos anos, por exemplo, o governo aceitou transferir a cobrança do Imposto sobre Serviços (ISS) aos municípios e aumentou o repasse de recursos do salário educação e do transporte escolar.
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A marcha de prefeitos é organizada por três entidades. A que reúne o maior número de prefeitos, a Confederação Nacional de Municípios (CNM), presidida por Paulo Ziulkoski (PMDB), tem forte apoio do PMDB. Já prefeitos do PT passaram a presidir nos últimos anos a Frente Nacional de Prefeitos, que reúne administradores das capitais. O presidente atual é o prefeito do Recife, João Paulo (PT). A terceira entidade, a mais antiga, é a Associação Brasileira de Municípios (ABM).